
MST assume autoria de pichação na Embaixada dos Estados Unidos em Brasília durante ato em homenagem a Fidel Castro
Manifestação, organizada por movimentos sociais em diferentes cidades brasileiras, criticou a política externa norte-americana; no Distrito Federal, muro da representação diplomática recebeu frases em português e inglês, enquanto Polícia Civil investiga o episódio
A pichação que atingiu o muro da Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília, na manhã de quinta-feira (13), ganhou novos contornos depois que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outros coletivos assumiram a participação no ato.
A ação, segundo os próprios movimentos, fazia parte de uma mobilização nacional organizada em homenagem aos 100 anos de Fidel Castro, líder revolucionário cubano que nasceu em 13 de agosto de 1926. A mobilização recebeu o nome de “Sejamos Todos como Fidel” e reuniu organizações como Levante Popular, MST, Alba Movimentos e Movimento Brasil Popular.
O episódio ocorrido na capital federal, entretanto, ultrapassou os limites de uma manifestação política convencional. O muro da representação diplomática norte-americana foi pichado, o que passou a ser tratado pelas autoridades como possível ato de vandalismo e é alvo de investigação policial.

Frases contra os Estados Unidos foram escritas no muro
A mensagem que mais chamou atenção foi escrita em português:
“Os EUA fazem guerra e lucram com a morte.”
A mesma frase apareceu em inglês:
“The USA makes war and profits from death.”
Além das inscrições, uma faixa foi colocada no chão próximo ao muro da embaixada. O material trazia outra mensagem de forte crítica à política externa dos Estados Unidos:
“Indústria da guerra dos EUA = mortes, fome e destruição da natureza.”
A escolha das palavras está diretamente relacionada à justificativa apresentada pelos movimentos para a realização dos atos em diferentes cidades.
Segundo o Levante Popular, a mobilização tinha como objetivo denunciar aquilo que os grupos classificam como tentativas de interferência dos Estados Unidos no Brasil e na América Latina.
Os organizadores também afirmaram que pretendiam chamar atenção para os efeitos que atribuem à política imperialista norte-americana, especialmente em conflitos internacionais, na indústria bélica e nos impactos ambientais e sociais provocados por guerras.
MST e outros movimentos assumem participação
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra aparece entre as organizações envolvidas na mobilização nacional.
A manifestação, contudo, não foi apresentada pelos grupos como um ato isolado em Brasília. Segundo o Levante Popular, atividades relacionadas à campanha “Sejamos Todos como Fidel” foram realizadas em várias cidades brasileiras.
O objetivo declarado pelos organizadores era transformar o aniversário de Fidel Castro em uma oportunidade de protesto contra a influência política, econômica e militar dos Estados Unidos.
O movimento também associou as manifestações à defesa da soberania dos países latino-americanos e à crítica ao que considera práticas de intervenção norte-americanas na região.
Em Brasília, a escolha da Embaixada dos Estados Unidos como alvo do protesto deu ao ato um caráter particularmente simbólico.
A representação diplomática é uma área de forte proteção institucional e representa oficialmente o governo norte-americano em território brasileiro. Por isso, a depredação do muro acrescentou ao protesto uma dimensão policial e jurídica.
Embaixada diz que vandalismo é “inaceitável”
A Embaixada dos Estados Unidos confirmou que tomou conhecimento do episódio.
Em nota enviada ao Metrópoles, a representação diplomática classificou os atos de vandalismo como “inaceitáveis” e informou que está trabalhando com as autoridades locais.
A embaixada também reafirmou o compromisso dos Estados Unidos com o diálogo com a população brasileira e com a segurança de seus funcionários e instalações.
Apesar da ocorrência, as atividades consulares da representação diplomática continuaram normalmente.
A posição americana deixa clara a separação entre o direito à manifestação política e a depredação de instalações. Para Washington, a segunda conduta é considerada inaceitável.
Polícia Civil investiga quem participou do ato
A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) abriu investigação para esclarecer as circunstâncias da pichação.
A apuração ficará sob responsabilidade da 1ª Delegacia de Polícia, na Asa Sul, que deverá analisar os vestígios encontrados no local e buscar identificar todos os envolvidos.
A perícia realizada na área foi encerrada por volta das 10h.
Uma das principais linhas de investigação será a análise das imagens de câmeras de segurança existentes nas proximidades da embaixada.
A quantidade de materiais encontrados espalhados ao lado do muro levou a polícia a trabalhar inicialmente com a possibilidade de participação de mais de uma pessoa.
Mesmo depois de os movimentos terem assumido publicamente a autoria política da mobilização, caberá à investigação determinar quem efetivamente esteve no local, quem realizou as pichações e quais condutas podem ser individualmente atribuídas aos participantes.
Essa distinção é importante porque a identificação de um movimento como organizador ou participante de uma manifestação não significa, automaticamente, que todos os seus integrantes tenham praticado pessoalmente eventual crime.
O contexto político por trás do protesto
A manifestação também acontece em um período de tensão nas relações entre Brasil e Estados Unidos.
Nos últimos meses, os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump passaram a enfrentar divergências em áreas comerciais e diplomáticas.
A mobilização dos movimentos sociais aproveitou esse ambiente para reforçar críticas à política externa de Washington.
Ao colocar no muro da embaixada a frase segundo a qual os Estados Unidos “fazem guerra e lucram com a morte”, os manifestantes transformaram o espaço diplomático em uma espécie de painel de protesto contra a atuação internacional norte-americana.
A faixa deixada no chão seguiu a mesma linha argumentativa, relacionando a chamada indústria da guerra a mortes, fome e destruição ambiental.
São afirmações políticas dos organizadores e não conclusões oficiais das autoridades brasileiras sobre a política externa dos Estados Unidos.
A homenagem a Fidel Castro
A escolha da data também não foi casual.
Fidel Castro nasceu em 13 de agosto de 1926, e em 2026 completaria 100 anos.
O líder cubano morreu em 25 de novembro de 2016, aos 90 anos, depois de décadas como principal figura da Revolução Cubana e do regime político instalado em Cuba.
Sua trajetória permanece profundamente controversa.
Para admiradores e grupos de esquerda que participaram da mobilização, Fidel representa resistência ao poder dos Estados Unidos e defesa da soberania cubana.
Para seus críticos, o governo cubano comandado por ele é associado à repressão política, à restrição das liberdades civis e à perseguição de opositores.
A campanha “Sejamos Todos como Fidel” escolheu justamente o centenário de nascimento do líder cubano para recuperar sua imagem como símbolo de resistência política.
Protesto político termina no campo policial
O episódio em Brasília expõe, portanto, duas histórias simultâneas.
De um lado, está a manifestação política organizada por movimentos sociais que reivindicam para si uma agenda de oposição à influência norte-americana e de defesa da soberania latino-americana.
Do outro, está a atuação das autoridades diante da pichação de uma instalação diplomática.
A Polícia Civil terá de estabelecer os limites entre manifestação, organização coletiva e eventual responsabilidade individual por dano ao patrimônio.
A investigação deverá utilizar imagens de segurança, perícia e outros elementos disponíveis para reconstruir a sequência dos acontecimentos.
Enquanto isso, os movimentos envolvidos reivindicam politicamente a autoria da mobilização nacional, mas as responsabilidades jurídicas pelos atos praticados em Brasília ainda dependem da apuração policial.
O episódio termina, por enquanto, com uma imagem que sintetiza o momento de tensão: no coração do setor diplomático da capital brasileira, o muro da representação americana transformou-se durante algumas horas em espaço de confronto simbólico entre movimentos sociais ligados à esquerda latino-americana e uma potência estrangeira que os manifestantes acusam de interferência, guerra e exploração econômica.
A embaixada, por sua vez, respondeu classificando o vandalismo como inaceitável e mantendo suas atividades normalmente. E a polícia ficou com a tarefa menos simbólica — e mais concreta — de descobrir quem esteve ali, o que exatamente fez e quais responsabilidades poderão resultar da ação.