
Muro da Embaixada dos EUA em Brasília é pichado com críticas e objetos semelhantes a ossos são encontrados no local
Ação ocorreu em meio ao agravamento das tensões entre Brasil e Estados Unidos; frase em português e inglês acusa os norte-americanos de lucrar com guerras, enquanto autoridades investigam possível dano ao patrimônio
A madrugada em Brasília deixou uma cena de forte impacto diante da Embaixada dos Estados Unidos. O muro da representação diplomática norte-americana, localizado no Setor de Embaixadas Sul, foi pichado com uma mensagem de protesto contra a atuação dos Estados Unidos em conflitos internacionais. Próximo à parede, também foram encontrados objetos que aparentam ser ossos, uma área escurecida semelhante a uma marca de queimadura e uma faixa deixada no chão.
A frase estampada no muro dizia: “Os EUA fazem guerra e lucram com a morte”. A mesma mensagem foi reproduzida em inglês: “The USA makes war and profits from death”.
O episódio ocorreu na quinta-feira (13), em um momento particularmente delicado da relação entre Brasília e Washington. Além do conteúdo político da manifestação, a presença de marcas e objetos no entorno da embaixada levou as autoridades a preservar o local para a realização de perícia.
Polícia foi acionada e área passou por perícia
A Polícia Militar confirmou que foi chamada para atender à ocorrência. A Polícia Civil também esteve no endereço e orientou jornalistas que estavam na região a se afastarem da calçada, justamente para evitar interferências na área que seria examinada pelos peritos.
Até a divulgação das informações, não havia confirmação oficial sobre quem realizou a ação nem sobre a motivação específica dos autores.
O caso poderá ser enquadrado em diferentes tipos de infração, dependendo do que for constatado pela investigação. Entre as possibilidades mencionadas pelas autoridades estão dano ao patrimônio e eventual crime ambiental, caso seja comprovada alguma irregularidade relacionada aos materiais deixados no local.
Relatos de testemunhas citados pelo Jornal de Brasília indicaram que pessoas teriam sido vistas deixando a região utilizando coletes. Há, porém, necessidade de investigação para determinar quem eram essas pessoas e se efetivamente estavam relacionadas à pichação.
Enquanto a perícia era aguardada, uma equipe de pintura e manutenção da embaixada também permaneceu nas proximidades. A intenção era iniciar a recuperação do muro assim que os trabalhos policiais fossem concluídos.
Embaixada classifica manifestação como “inaceitável”
Depois da ocorrência, a representação diplomática dos Estados Unidos confirmou que tinha conhecimento do vandalismo.
Em comunicado, a embaixada classificou os atos como “inaceitáveis” e informou que trabalha em conjunto com as autoridades brasileiras para tratar do episódio.
A representação norte-americana também afirmou que os Estados Unidos continuam comprometidos com o diálogo com a população brasileira e com a segurança de seus funcionários e instalações.
Apesar do episódio, segundo a embaixada, as atividades consulares continuaram normalmente.
Protesto acontece durante crise diplomática
A escolha do local e o conteúdo da mensagem ganharam peso adicional porque o episódio ocorreu durante uma fase de forte tensão entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
Em julho, Washington anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. A medida entrou em vigor em 22 de julho e aumentou a pressão sobre as relações comerciais entre os dois países.
O governo brasileiro reagiu à decisão e levou o conflito para a esfera multilateral. Em 27 de julho, Brasília acionou formalmente os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), contestando a política comercial norte-americana.
A crise comercial veio acompanhada de atritos diplomáticos.
Os Estados Unidos também cancelaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio às divergências diplomáticas entre os dois governos.
Outro ponto de tensão envolve a indicação do republicano Daniel Perez para assumir a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. O governo norte-americano anunciou o nome antes de receber a autorização formal brasileira, o chamado agrément, procedimento necessário para que um representante diplomático estrangeiro possa assumir oficialmente o posto.
Brasília criticou a forma como a indicação foi divulgada e ainda não havia concedido a autorização.
Protesto ganha dimensão simbólica
A mensagem escrita no muro transforma o episódio em algo maior do que uma simples depredação do patrimônio. O conteúdo escolhido pelos autores faz referência direta ao papel dos Estados Unidos em conflitos internacionais e associa a política externa norte-americana à indústria da guerra e à morte de civis.
A utilização da mesma frase em português e inglês reforça o caráter direcionado da manifestação: a mensagem não parecia destinada apenas a quem passasse pela região, mas também à própria representação diplomática e ao público internacional.
Os objetos semelhantes a ossos encontrados próximos ao muro acrescentaram um componente simbólico à cena. Entretanto, ainda não havia confirmação oficial de que se tratava efetivamente de ossos humanos ou animais, e qualquer conclusão dependeria da perícia.
O mesmo cuidado vale para a área escurecida identificada no local. Embora visualmente pudesse lembrar uma queimadura, caberia à investigação determinar sua origem.
Investigação deverá esclarecer autoria e circunstâncias
A principal pergunta agora é quem realizou a ação.
As autoridades deverão analisar imagens de câmeras de segurança da região, possíveis registros feitos por testemunhas e os vestígios encontrados no local. A perícia também poderá ajudar a determinar quando e como a pichação foi realizada e se houve outros atos de vandalismo além da pintura do muro.
Até o momento, não havia identificação pública dos responsáveis.
O episódio, portanto, reúne duas dimensões distintas: a investigação criminal sobre uma possível depredação e o contexto político de uma manifestação contra os Estados Unidos.
A primeira depende da apuração das autoridades brasileiras. A segunda se insere em uma crise diplomática que já envolve tarifas comerciais, medidas contra representantes diplomáticos e divergências sobre a condução das relações entre Brasília e Washington.
Enquanto o muro aguarda a recuperação, a frase deixada pelos manifestantes expõe, de forma direta e provocativa, o clima de tensão que ultrapassou os gabinetes diplomáticos e chegou às ruas da capital federal.