
Nikolas Ferreira admite dois contatos com Daniel Vorcaro, mas nega ter recebido dinheiro ou cometido irregularidades
Deputado do PL afirma que procurou o ex-dono do Banco Master em duas ocasiões: primeiro, para esclarecer o financiamento de um fórum jurídico em Londres; depois, para pedir ajuda em uma questão envolvendo um ativo minerário ligado a ex-assessor
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) confirmou ter mantido dois contatos com Daniel Bueno Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mas negou que a relação tenha envolvido qualquer irregularidade, pagamento ou contrato. Segundo o parlamentar, as duas aproximações tiveram motivos específicos e não representaram uma relação financeira ou comercial com o banqueiro.
A confirmação ocorre após a divulgação de mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro no âmbito das investigações da Polícia Federal (PF). Os diálogos revelados mostram que Nikolas procurou diretamente o empresário em pelo menos duas situações: uma relacionada a um evento realizado em Londres e outra envolvendo um ativo minerário ligado a Thiago Rodrigues de Faria, advogado e ex-assessor do deputado.
Nikolas afirmou que “nunca recebeu nenhum centavo” de Vorcaro e sustentou que não assinou contrato com o empresário nem manteve qualquer vínculo financeiro com o Banco Master.
Primeiro contato ocorreu após polêmica sobre evento em Londres
De acordo com a versão apresentada por Nikolas, o primeiro contato com Vorcaro ocorreu em 2024, depois que o deputado solicitou informações por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) para saber quem havia financiado um fórum jurídico realizado em Londres.
O episódio ganhou importância porque Nikolas havia feito críticas públicas ao evento antes de saber que havia participação financeira do Banco Master.
Após a repercussão, o pastor André Valadão teria procurado o deputado. A partir dessa intermediação, Nikolas entrou em contato com Vorcaro para esclarecer a situação e explicar que desconhecia o envolvimento do banco na organização ou financiamento do encontro.
O episódio acabou gerando uma aproximação que posteriormente se tornou um ponto de tensão. Segundo relatos divulgados a partir das mensagens apreendidas, Vorcaro demonstrou irritação com as críticas de Nikolas e chegou a ameaçar revelar informações sobre a relação entre os dois.
Nikolas, por sua vez, afirmou posteriormente que não sabia que o Banco Master estava por trás do financiamento do evento e pediu desculpas pelas críticas.
Segundo contato envolveu pedido sobre ativo minerário
O segundo contato ocorreu em março de 2025 e é o episódio que ganhou maior destaque nas novas revelações.
Em um áudio enviado a Vorcaro, Nikolas pediu ajuda para tratar de uma questão envolvendo um ativo minerário relacionado a Thiago Rodrigues de Faria, advogado e ex-assessor parlamentar.
O deputado apresentou a demanda ao banqueiro e encaminhou o contato de Thiago para que os dois pudessem conversar diretamente.
A conversa mostra uma relação mais próxima do que a inicialmente descrita pelo parlamentar. Em uma das mensagens, Nikolas chama Vorcaro de “Dani” e manifesta interesse em ter maior proximidade com o empresário. Vorcaro respondeu de maneira amistosa e indicou disposição para tratar do assunto.
Em outro diálogo, já em abril de 2025, Nikolas avisou a Vorcaro que Thiago estaria em Brasília. A resposta do banqueiro foi: “Deixa comigo.”
O episódio, entretanto, não demonstra, por si só, que o pedido tenha resultado em vantagem financeira para Nikolas ou em alguma atuação ilegal. O que aparece nas mensagens é a tentativa do deputado de utilizar seu contato com Vorcaro para encaminhar uma demanda de terceiro.
Deputado diz que apenas fez uma intermediação
Ao explicar o episódio, Nikolas afirmou que atuou apenas como intermediário. Segundo sua versão, Thiago Rodrigues de Faria tinha uma questão relacionada ao ativo minerário e pediu auxílio para tentar destravar o assunto.
O deputado teria então procurado Vorcaro e encaminhado o contato do advogado.
Thiago também negou irregularidades relacionadas ao episódio. A versão apresentada é de que a conversa tratava exclusivamente do ativo minerário e não envolvia qualquer pagamento ou vantagem indevida.
A divulgação dos diálogos, contudo, colocou novamente sob escrutínio a proximidade entre políticos e o antigo controlador do Banco Master, especialmente porque outros parlamentares e autoridades também aparecem em documentos extraídos do celular de Vorcaro.
A questão dos voos pagos por Vorcaro
Um dos pontos mais sensíveis da investigação envolve a afirmação atribuída ao próprio Vorcaro de que teria custeado voos utilizados por Nikolas.
Em conversas reveladas anteriormente, Vorcaro teria afirmado: “Esse Nikolas, eu banquei todos os voos dele.” A declaração ampliou a pressão política sobre o deputado, principalmente porque a relação entre os dois já vinha sendo discutida desde o episódio do fórum em Londres.
Nikolas, entretanto, nega ter recebido dinheiro de Vorcaro e afirma que não houve pagamento pessoal ou contrato entre os dois.
A existência de mensagens em que Vorcaro afirma ter financiado voos é diferente de uma comprovação de que Nikolas tenha recebido valores de maneira irregular. Para estabelecer eventual irregularidade, seria necessário identificar os pagamentos, seus beneficiários, a finalidade das viagens e eventual contrapartida.
Contradição entre a imagem pública e as mensagens
As revelações também criaram uma contradição política.
Nikolas Ferreira construiu parte de sua atuação pública com críticas contundentes a estruturas de poder, empresários e autoridades que considera integrantes do establishment. As mensagens, entretanto, mostram o deputado procurando diretamente um empresário de grande influência e pedindo auxílio para solucionar uma demanda apresentada por uma pessoa próxima a seu gabinete.
Isso não significa, automaticamente, que tenha cometido crime ou recebido vantagem indevida. Mas politicamente o episódio é relevante porque expõe uma relação de proximidade que o próprio deputado inicialmente tratou como inexistente ou pouco significativa.
O próprio Nikolas reconheceu que houve dois contatos e passou a apresentar uma explicação específica para cada um deles.
“Nunca recebi nenhum centavo”, afirma Nikolas
Diante da repercussão, o deputado reforçou que não recebeu dinheiro de Vorcaro.
Segundo Nikolas, não houve contrato, sociedade, pagamento ou qualquer relação financeira entre ele e o ex-banqueiro. O parlamentar também afirmou que interrompeu os contatos depois que surgiram denúncias relacionadas ao empresário.
A defesa pública do deputado, portanto, está baseada em três pontos principais: os contatos foram pontuais; não houve relação comercial; e os pedidos apresentados a Vorcaro não resultaram em benefício financeiro pessoal.
As informações divulgadas até agora comprovam a existência das conversas, mas não permitem concluir, apenas com base nos diálogos, que Nikolas tenha praticado crime.
Caso Master amplia rede de relações políticas
O episódio envolvendo Nikolas ocorre em meio a uma investigação muito mais ampla sobre Daniel Vorcaro e suas relações com políticos, empresários, integrantes do Judiciário e autoridades públicas.
A Polícia Federal encontrou no material apreendido uma extensa rede de contatos e conversas. Entre os nomes mencionados nas apurações estão parlamentares, empresários e autoridades de diferentes setores.
As novas revelações envolvendo Nikolas ganharam dimensão justamente porque surgem paralelamente a informações sobre contatos de Vorcaro com autoridades do Supremo Tribunal Federal (STF), integrantes da Procuradoria-Geral da República (PGR) e dirigentes da Polícia Federal.
O caso também envolve questionamentos sobre contratos milionários, viagens, aeronaves, relações empresariais e tentativas de interlocução com autoridades. Cada episódio, porém, precisa ser analisado individualmente, porque a simples existência de uma conversa ou contato não constitui prova de crime.
O ponto central da controvérsia
O principal elemento político das revelações é que os diálogos desmontam a versão de que não havia qualquer contato entre Nikolas e Vorcaro.
O deputado reconheceu duas aproximações e explicou as circunstâncias de cada uma. Ao mesmo tempo, continua negando ter recebido dinheiro ou qualquer benefício financeiro do ex-banqueiro.
A investigação deverá esclarecer, entre outros pontos, se os voos mencionados por Vorcaro foram efetivamente pagos por ele, em quais circunstâncias ocorreram, quem foi beneficiado e se existiu alguma contrapartida.
Enquanto essas questões não forem comprovadas, não é possível transformar a existência dos contatos em prova de irregularidade.
O episódio, porém, já tem peso político. As mensagens mostram que Nikolas Ferreira não apenas conhecia Daniel Vorcaro, como recorreu diretamente ao empresário em uma questão de interesse de um advogado e ex-assessor ligado ao seu gabinete. E mostram também que a relação era suficientemente próxima para que o deputado tratasse o banqueiro pelo apelido “Dani” e buscasse sua intervenção.
Em um dos maiores escândalos financeiros e políticos em investigação no país, esse tipo de proximidade passou a ser examinado com atenção pelas autoridades e pela opinião pública.