
O Rio sitiado: forasteiros do crime reforçam o Comando Vermelho e desafiam o Estado
Operação nos complexos do Alemão e da Penha revela presença de bandidos de outros estados e escancara a expansão nacional do tráfico carioca
A guerra urbana que tomou conta do Rio de Janeiro ganhou contornos ainda mais preocupantes. A megaoperação realizada pelas forças de segurança nos complexos do Alemão e da Penha não apenas revelou o poder de fogo do Comando Vermelho (CV), mas também a presença crescente de criminosos vindos de outros estados — uma espécie de “importação do crime” que fortalece as facções cariocas.
Segundo a Polícia Civil, dos 133 presos na ação, 33 não eram do Rio de Janeiro. A lista inclui nomes da Bahia, Pernambuco, Pará, Santa Catarina, Espírito Santo e Maranhão. Esses forasteiros, segundo as investigações, encontram refúgio nas favelas cariocas e passam a integrar o exército do CV, atuando principalmente nas áreas de mata, como a Serra da Misericórdia, onde parte dos confrontos mais intensos ocorreu.
Um pastor local contou, sob anonimato, que é comum ver homens armados de outras regiões se escondendo na mata, fazendo “plantões” com fuzis para proteger os acessos. “Eles não conhecem o terreno e acabam se tornando alvos fáceis. Vivem com medo e raramente descem para o asfalto”, relatou.
O subsecretário da Polícia Civil, Carlos Oliveira, confirmou que há líderes do crime de fora do estado se instalando no Rio, aproveitando-se da complexidade das comunidades para se esconder e continuar operando seus negócios de longe. “Temos informações de que chefes de facções de outros estados estão ordenando execuções e movimentando o tráfico diretamente daqui”, disse.
A cena no Instituto Médico-Legal (IML) é o retrato mais cruel dessa expansão. Corpos vindos da mata da Vacaria, muitos ainda sem identificação, se amontoam à espera de reconhecimento. A Defensoria Pública montou uma tenda emergencial para ajudar familiares — e até amigos e namoradas — a localizar desaparecidos. Segundo a defensora Mirela Assad, o número de mortos de fora do estado é “surpreendente”, o que dificulta o trabalho de liberação dos corpos e traslado.
A dor também se espalha entre famílias de policiais mortos e parentes de jovens desaparecidos. “Perdi meu filho duas vezes: quando ele entrou pro tráfico e agora, que o enterro nem sei se vou poder fazer”, lamentou um pai, em lágrimas.
O que se desenha é um retrato de um Rio de Janeiro sitiado, onde o crime virou multinacional e o Estado luta para reconhecer o inimigo. Enquanto os corpos se acumulam e a insegurança cresce, o poder do Comando Vermelho mostra que as fronteiras do medo, no Brasil, já deixaram de ser geográficas — e agora são morais.