
Operação Exchange expõe engrenagem bilionária de lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional e outros crimes
Investigação da Polícia Federal revela esquema que teria movimentado mais de R$ 10 bilhões por meio de empresas de fachada, criptomoedas, remessas internacionais e operações financeiras clandestinas. Grupo é suspeito de atender desde traficantes de drogas até contrabandistas e envolvidos em grandes fraudes financeiras.
A Polícia Federal desferiu um dos maiores golpes já registrados contra estruturas de lavagem de dinheiro no Brasil. Deflagrada na sexta-feira (3), a Operação Exchange revelou uma sofisticada rede financeira suspeita de ocultar recursos provenientes de atividades criminosas, movimentando aproximadamente R$ 10,4 bilhões ao longo dos últimos anos.
As investigações apontam que a organização não se limitava ao tráfico internacional de drogas. Segundo os elementos reunidos pela Polícia Federal e pela Justiça Federal de São Paulo, o grupo também teria prestado serviços financeiros para operações ligadas ao contrabando de alho argentino, fraudes milionárias, movimentações ilegais de criptomoedas, evasão de divisas e outros crimes de grande impacto econômico.
Ao todo, a Justiça expediu 11 mandados de prisão temporária e 13 mandados de busca e apreensão em cidades paulistas como São Paulo, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba. Até o momento, sete pessoas foram presas, enquanto dois investigados permanecem foragidos.
Além das prisões, foi determinado o bloqueio de bens, contas bancárias, imóveis e criptoativos até o limite de R$ 10,4 bilhões, valor correspondente ao montante que, segundo a investigação, teria circulado pelo esquema.
Investigação começou nos Estados Unidos
O ponto de partida da operação ocorreu em outubro de 2023, quando autoridades norte-americanas apreenderam o celular de Ygor Fokin Saviolli durante uma fiscalização migratória em Fort Lauderdale, na Flórida.
O aparelho continha vídeos, fotografias, comprovantes bancários e conversas que indicavam uma complexa estrutura de lavagem de dinheiro ligada ao narcotráfico internacional. As informações foram compartilhadas com a Polícia Federal brasileira pelo Homeland Security Investigations (HSI), fortalecendo uma investigação que ganharia dimensão internacional.
Meses depois, outro personagem considerado central para o esquema chamou a atenção das autoridades. Em maio de 2024, Victor Henrique de Oliveira Shimada teria apagado aplicativos de mensagens do celular ao perceber que seria submetido a uma fiscalização migratória na mesma cidade norte-americana.
Já em janeiro deste ano, uma operação conduzida pelo FBI resultou na prisão de outros integrantes da organização em território americano, incluindo Saviolli, acusado de participar da lavagem de dezenas de milhões de dólares oriundos do tráfico de drogas.
Operador financeiro de diversos esquemas
Para os investigadores, Victor Shimada desempenhava um papel estratégico na engrenagem financeira da organização.
Sócio da empresa Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda. e de outra companhia sediada em Portugal, ele também foi alvo de sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos, que o classificou como um dos principais operadores financeiros responsáveis por conectar integrantes do PCC instalados na Flórida a traficantes internacionais.
As autoridades americanas afirmam que Shimada teria lavado mais de US$ 30 milhões, utilizando criptomoedas para transferir recursos ilícitos de volta ao Brasil. Ele também é investigado no país por suspeitas de participação em operações de lavagem relacionadas ao caso VaideBet.
Sua defesa informou que ainda não teve acesso completo aos autos e afirmou que somente irá se manifestar após analisar as decisões judiciais.
Estrutura profissional para esconder dinheiro ilícito
Segundo a Polícia Federal, o grupo operava como uma verdadeira empresa especializada em ocultar patrimônio criminoso.
As investigações identificaram o uso de:
- empresas de fachada;
- contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas;
- transporte de grandes quantias em dinheiro vivo;
- remessas internacionais;
- compra e venda de criptomoedas;
- transferências bancárias fracionadas;
- operações financeiras destinadas a dificultar o rastreamento dos recursos.
Os investigadores também descobriram uma linguagem codificada utilizada pelos integrantes para evitar que conversas interceptadas revelassem o conteúdo das negociações.
Dinheiro em espécie era chamado de “papel” ou “vivo”, dólares recebiam o apelido de “azul”, enquanto drogas eram identificadas pelo codinome “iPhone”, numa tentativa de despistar eventuais interceptações telefônicas.
Empresa movimentou bilhões sem funcionários
Um dos pontos que mais chamou a atenção dos investigadores foi a movimentação financeira atribuída à empresa Hi Quality.
Mesmo sem possuir funcionários registrados, a empresa apareceu em 645 comunicações enviadas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), envolvendo aproximadamente R$ 29,3 bilhões em operações consideradas atípicas.
Ao cruzar essas informações com as movimentações da Victory Trading e das contas atribuídas aos principais investigados, os peritos identificaram um fluxo financeiro superior a R$ 10 bilhões, valor compatível com o patrimônio bloqueado pela Justiça.
Esquema atendia diferentes modalidades criminosas
De acordo com a decisão judicial, a estrutura financeira investigada não servia exclusivamente ao tráfico internacional de drogas.
Há indícios de utilização do sistema para ocultar recursos provenientes do comércio ilegal de haxixe, do contrabando de alho argentino, de fraudes eletrônicas milionárias e até de um suposto esquema de pagamento de propina envolvendo um ex-integrante da cúpula da segurança pública paulista.
Outro ponto investigado envolve uma fraude contra o programa de fidelidade KMV, do Grupo Ultra. Segundo a investigação, criminosos exploraram vulnerabilidades em sistemas responsáveis pelo processamento das transações para desviar milhões de pontos e recursos financeiros.
Investigação continua
A Polícia Federal considera que a Operação Exchange representa apenas uma etapa de uma investigação muito mais ampla.
Os presos poderão responder, conforme o avanço das apurações, por crimes como lavagem de dinheiro, organização criminosa, evasão de divisas e outros delitos que eventualmente venham a ser confirmados durante a análise do vasto material apreendido.
A expectativa é de que os documentos, aparelhos eletrônicos e registros financeiros recolhidos durante a operação permitam identificar novos participantes e ampliar o rastreamento do patrimônio movimentado pela organização, considerada uma das mais sofisticadas estruturas de lavagem de dinheiro já investigadas pela Polícia Federal.