Moraes dá 30 dias para PGR analisar plano do Rio para reocupação de territórios dominados pelo crime

Moraes dá 30 dias para PGR analisar plano do Rio para reocupação de territórios dominados pelo crime

Ministro do STF determinou que Procuradoria-Geral da República avalie proposta apresentada pelo governo fluminense no âmbito da ADPF das Favelas; plano prevê operações integradas, bases de segurança 24 horas, ações sociais, urbanização, geração de emprego e participação comunitária

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) tenha prazo de 30 dias para analisar o Plano Estratégico de Reocupação Territorial apresentado pelo governo do Rio de Janeiro no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas.

A decisão foi assinada na segunda-feira (17) e representa mais uma etapa antes de uma eventual autorização do Supremo para a implementação da proposta. Moraes ressaltou que o plano apresentado pelo governo estadual precisa ser examinado de maneira detalhada para verificar se as medidas previstas são compatíveis com os parâmetros estabelecidos pelo STF no processo.

Segundo o ministro, a proposta de retomada das operações policiais, somada aos questionamentos apresentados pelas partes envolvidas e às manifestações posteriores, exige uma análise mais aprofundada antes de qualquer homologação.

Na prática, o envio dos autos à PGR significa que o Ministério Público Federal deverá se manifestar sobre o conteúdo do projeto antes que o Supremo decida os próximos passos.

Plano foi apresentado ao STF em dezembro de 2025

O governo do Rio de Janeiro apresentou o Plano Estratégico de Reocupação Territorial ao STF em 22 de dezembro de 2025, em cumprimento às determinações da própria Corte.

A proposta foi elaborada com o objetivo de recuperar áreas sob influência ou domínio de organizações criminosas por meio de uma atuação que, segundo o governo estadual, não se limitaria às operações policiais.

A estratégia prevê a atuação conjunta das forças de segurança com órgãos públicos responsáveis por serviços de saúde, educação, assistência social, infraestrutura, urbanismo e desenvolvimento econômico.

A ideia central é combinar a presença policial com a instalação permanente do Estado nas comunidades, evitando que a retomada territorial seja limitada a incursões pontuais.

O plano prevê que cada território tenha um plano tático específico, elaborado de acordo com suas características e necessidades.

Projeto-piloto prevê atuação na Zona Sudoeste

Uma das áreas escolhidas para o projeto-piloto reúne as comunidades de Rio das Pedras, Gardênia Azul e Muzema, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro.

De acordo com o governo estadual, a região concentra aproximadamente 85 mil moradores. A estimativa oficial é que, considerando a expansão da estratégia, o programa possa alcançar até 1,2 milhão de pessoas.

O projeto prevê a instalação das chamadas Bases Integradas de Segurança Territorial (BISTs), que deverão funcionar 24 horas por dia.

As bases terão policiamento comunitário e utilização de tecnologias de monitoramento. A proposta também prevê a presença de diferentes órgãos públicos nos territórios, numa tentativa de estabelecer uma estrutura permanente de atendimento à população.

Entre outras áreas apontadas como candidatas à implantação do projeto estão:

  • Fazenda Coqueiro, em Senador Camará;
  • Nova Cidade;
  • Parque União, no Complexo da Maré;
  • Vila Vintém;
  • Nova Holanda;
  • Vila Rica de Irajá.

A escolha das localidades leva em consideração, entre outros fatores, a densidade populacional e a presença de organizações criminosas.

Segurança pública é apenas um dos cinco eixos

O projeto foi estruturado em cinco grandes eixos. O primeiro deles trata diretamente da segurança pública e da Justiça.

Eixo 1 — Segurança Pública e Justiça

O objetivo declarado pelo governo é eliminar a presença armada de organizações criminosas, garantir a ordem pública e restabelecer a atuação do Estado nos territórios.

Entre as medidas previstas estão operações de retomada integradas envolvendo forças de segurança estaduais e federais e, caso necessário, participação das Forças Armadas.

As BISTs deverão funcionar permanentemente, combinando policiamento comunitário e sistemas de monitoramento.

O plano também prevê a instalação de estruturas de Justiça Itinerante, reunindo serviços da Defensoria Pública, do Ministério Público e dos Juizados.

Outra frente será o combate ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro, com participação de órgãos como a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

A proposta, portanto, pretende atuar não apenas sobre a presença ostensiva do crime organizado, mas também sobre suas estruturas financeiras e logísticas.

Desenvolvimento social entra no projeto de retomada

O segundo eixo é dedicado ao desenvolvimento social.

A proposta prevê a realização de mutirões voltados para cidadania, saúde, educação e assistência social nas comunidades incluídas no programa.

O governo também pretende requalificar escolas públicas, com ampliação do ensino em tempo integral e oferta de atividades extracurriculares.

Outro instrumento previsto são os Centros da Juventude e Oportunidades (CJO), destinados à oferta de cursos técnicos, orientação profissional e inclusão digital.

O plano ainda estabelece medidas de apoio às famílias e ações de prevenção ao aliciamento de crianças e adolescentes por organizações criminosas.

A lógica apresentada pelo governo é que a recuperação territorial não seja tratada exclusivamente como uma questão policial, mas como uma política de presença permanente do poder público.

Urbanização, saneamento e regularização fundiária

O terceiro eixo trata de urbanismo e infraestrutura.

Entre as ações previstas estão obras de saneamento, iluminação pública e moradia, além de intervenções destinadas a integrar os territórios à chamada cidade formal.

O projeto inclui ainda programas de regularização fundiária, com assistência técnica gratuita e possibilidade de entrega de títulos de propriedade.

Também estão previstas iniciativas de conectividade, incluindo Wi-Fi público em espaços coletivos, além de medidas relacionadas à mobilidade urbana e à oferta de transporte acessível e seguro.

A proposta estabelece que as obras deverão contar com participação da comunidade.

Governo prevê geração de emprego e estímulo a negócios locais

O quarto eixo é voltado ao desenvolvimento econômico.

O governo estadual propõe a criação das Zonas de Incentivo ao Empreendedorismo (ZIE), acompanhadas de benefícios fiscais e mecanismos de microcrédito.

Também estão previstas medidas para estimular polos produtivos, cooperativas comunitárias e parcerias com empresas para contratação de trabalhadores que vivem nos próprios territórios.

O turismo comunitário, cultural e gastronômico aparece igualmente entre as alternativas previstas para geração de renda.

A intenção é criar condições para que a população local tenha acesso a emprego, empreendedorismo e atividades econômicas formais.

Governança terá participação de União, estado, municípios e moradores

O quinto eixo estabelece mecanismos de governança e sustentabilidade do projeto.

A proposta prevê a criação de um Gabinete Integrado de Gestão Territorial (GIGT), com representantes dos governos federal, estadual e municipais.

Também deverão existir comitês locais responsáveis por acompanhar metas, cronogramas e resultados.

O governo propõe ainda a criação de conselhos populares de acompanhamento, com direito à participação e fiscalização das ações.

Outra medida prevista é uma plataforma digital de transparência, destinada a divulgar indicadores de desempenho do programa.

A intenção é estabelecer mecanismos de acompanhamento contínuo para que a atuação estatal não seja interrompida depois das primeiras operações de segurança.

Governo criou gabinetes para acompanhar o plano

No fim de julho, o governo do Rio publicou um decreto criando a Política Estadual de Reocupação Territorial e estruturas administrativas destinadas a coordenar e monitorar a execução do programa.

Os gabinetes deverão reunir representantes de órgãos públicos e da sociedade civil para acompanhar as ações nos territórios selecionados.

A criação dessas estruturas, entretanto, não significa que o plano esteja autorizado pelo STF.

A implementação continua condicionada à análise do Supremo, justamente porque a proposta está inserida no contexto da ADPF 635, processo que estabelece parâmetros para a atuação das forças de segurança em comunidades do Rio.

Pesquisa pretende ouvir moradores

O governo também preparou uma pesquisa com os moradores das áreas que poderão receber o projeto.

A pergunta central apresentada à população é direta: “O que você precisa?”

A proposta é identificar demandas locais e utilizar essas informações na execução das políticas públicas.

Segundo Victor dos Santos, citado na reportagem, a participação dos moradores integra o modelo de acompanhamento da iniciativa.

A declaração apresentada pelo governo reforça a ideia de que a intervenção não seria concebida apenas como uma operação policial, mas como uma ação destinada a permitir que outros serviços públicos alcancem as comunidades.

Moraes mantém decisão nas mãos do STF

Apesar de o governo fluminense já ter apresentado o plano e criado estruturas para sua execução, a decisão de Alexandre de Moraes deixa claro que ainda não há autorização definitiva para a implementação do projeto.

O ministro considera necessário verificar se as medidas propostas estão de acordo com as decisões anteriores do Supremo na ADPF das Favelas.

A manifestação da PGR será, portanto, uma etapa importante do processo.

Depois da análise da Procuradoria-Geral da República, o caso deverá retornar ao Supremo para que sejam avaliadas as próximas medidas.

O ponto central da discussão é como conciliar a necessidade de combater organizações criminosas e recuperar territórios sob influência armada com os parâmetros estabelecidos pelo STF para operações de segurança pública, além da garantia de direitos fundamentais dos moradores.

O plano apresentado pelo Rio tenta responder a essa questão propondo uma mudança de abordagem: a retomada territorial não terminaria com a entrada das forças de segurança. Ela seria seguida pela presença permanente do Estado por meio de policiamento, Justiça, saúde, educação, infraestrutura, assistência social e políticas de geração de renda.

Por enquanto, porém, o projeto permanece sob análise. A palavra final sobre sua compatibilidade com as determinações da ADPF 635 ainda caberá ao Supremo Tribunal Federal.

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