
Operação Unha e Carne: PF prende ex-chefe da Polícia Civil do Rio e deputado estadual eleito em investigação sobre esquema bilionário
Investigação aponta movimentação de R$ 7,6 bilhões em seis anos, suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis e possível participação de agentes públicos. Marcus Amim, Márcio Canella e quatro inspetores da Polícia Civil estão entre os alvos da oitava fase da operação.
A Polícia Federal prendeu, na manhã de 15 de outubro de 2026, o ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro Marcus Vinicius Amim Fernandes e Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito pelo União Brasil, durante a oitava fase da Operação Unha e Carne. A investigação apura a atuação de uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavar dinheiro na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
De acordo com informações divulgadas sobre a investigação, o esquema teria movimentado aproximadamente R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026. O valor é atribuído a um relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), encaminhado à Polícia Federal. A dimensão dos valores investigados e a presença de pessoas que ocuparam cargos públicos de destaque ampliaram a repercussão do caso.
As prisões preventivas foram autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A operação também incluiu mandados de busca e apreensão, medidas de bloqueio patrimonial e a suspensão das atividades econômicas de empresas apontadas pelos investigadores como integrantes da estrutura investigada. As suspeitas ainda precisam ser apuradas judicialmente, e a prisão não representa, por si só, uma condenação.
Seis pessoas presas e diligências em sete municípios
Além de Marcus Amim e Márcio Canella, foram presos quatro inspetores da Polícia Civil: Pablo Jukia Félix Ferreira, conhecido como Pablo Russo; José Carlos Alves de Souza Júnior; Christiano Gaspar Fernandes; e Giovanni Gaspar Fernandes.
A Polícia Federal cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão em sete municípios fluminenses: Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo. A Corregedoria da Polícia Civil acompanhou as diligências relacionadas aos policiais investigados.
As determinações judiciais também alcançaram 112 empresas, com suspensão de atividades econômicas. Desse total, 96 seriam postos de combustíveis. A Justiça determinou ainda medidas de sequestro de bens e valores, incluindo o bloqueio de até R$ 700 milhões, conforme as informações divulgadas sobre a decisão.
A Polícia Federal investiga se empresas, operações comerciais e pessoas interpostas — conhecidas como laranjas — teriam sido utilizadas para ocultar a origem de recursos e conferir aparência de legalidade a movimentações financeiras suspeitas.
Quem é Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil do Rio
Trajetória profissional e vínculos políticos mencionados na investigação
Marcus Vinicius Amim Fernandes é formado em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e ingressou na Polícia Civil em 2002. Ao longo da carreira, ocupou funções em unidades especializadas, incluindo a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), a Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme) e a 27ª Delegacia de Polícia, em Vicente de Carvalho.
Em junho de 2023, foi escolhido pelo então governador Cláudio Castro para presidir o Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro (Detran-RJ). Em outubro do mesmo ano, assumiu a Secretaria de Estado de Polícia Civil, cargo que ocupou por aproximadamente dez meses.
A nomeação foi precedida por uma mudança legislativa aprovada na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A alteração flexibilizou a exigência de tempo de carreira para que um delegado pudesse assumir a chefia da corporação. Com a mudança, Amim, que ainda não havia completado os 15 anos de carreira anteriormente exigidos, pôde assumir a função.
Após deixar o comando da Polícia Civil, em 2024, passou a atuar na área de segurança da Alerj. Também ficou conhecido por participações em programas de televisão e por sua presença nas redes sociais, onde ganhou notoriedade como comentarista de segurança pública.
Sua trajetória voltou ao centro das atenções em julho de 2026, quando foi alvo de buscas na sexta fase da Operação Unha e Carne. Na ocasião, a medida era de busca e apreensão; em outubro, ele acabou preso preventivamente na oitava fase da operação.
Segundo informações divulgadas anteriormente, a defesa de Amim sustentou que ele havia atuado dentro da legalidade durante sua gestão. Após a nova prisão, a defesa informou que aguardava acesso formal ao investigado e ao conteúdo integral da decisão judicial.
Márcio Canella: da Prefeitura de Belford Roxo à prisão pela Polícia Federal
Márcio Canella, do União Brasil, foi prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e presidente estadual da legenda. Nas eleições de 2026, foi eleito deputado estadual com 197.178 votos, tornando-se o segundo candidato mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, segundo os relatos publicados.
Canella também é apontado como um dos principais nomes políticos ligados à trajetória de Marcus Amim. Em 2018, propôs a concessão da Medalha Tiradentes ao delegado, uma das principais honrarias da Alerj. Posteriormente, apoiou sua ascensão a cargos de destaque na administração estadual.
A relação entre os dois passou a ser examinada no contexto das suspeitas investigadas pela Polícia Federal. Segundo os investigadores, Canella teria desempenhado um papel de articulação política em uma organização criminosa que teria conexões com agentes públicos, operadores econômicos e grupos criminosos.
A investigação também examina suspeitas de que nomeações para cargos públicos e relações políticas tenham sido utilizadas para favorecer interesses do grupo. Essas alegações constituem hipóteses investigativas e precisam ser demonstradas por provas submetidas ao devido processo legal.
Canella já havia sido preso em julho de 2026, durante a sexta fase da Operação Unha e Carne. Na ocasião, segundo as notícias publicadas, os agentes encontraram um fuzil de calibre restrito em seu veículo. A prisão preventiva foi posteriormente revogada.
Naquele mesmo período, a Procuradoria Regional Eleitoral questionou sua candidatura, mas a Justiça Eleitoral autorizou sua participação na disputa. Ele foi eleito em outubro e preso novamente em 15 de outubro, desta vez no âmbito da investigação sobre lavagem de dinheiro.
A defesa de Canella informou, após a nova prisão, que ainda não havia tido acesso à decisão judicial. Portanto, as acusações apresentadas pelos investigadores não devem ser confundidas com culpa definitivamente estabelecida.
Pablo Russo e a suspeita de controle da rede de postos
Pablo Jukia Félix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, é apontado pela Polícia Federal como uma figura central na estrutura econômica investigada. Segundo as informações divulgadas, ele teria exercido funções de administração e coordenação financeira da rede de postos de combustíveis, além de manter interlocução com agentes públicos e particulares.
A investigação também aponta que mais de 80 empresas estariam registradas em nome de parentes, o que teria servido para ocultar os verdadeiros responsáveis pelos negócios. A hipótese dos investigadores é que a estrutura empresarial tenha sido utilizada para dificultar o rastreamento da origem e do destino dos recursos.
Outro ponto investigado envolve o possível acesso antecipado a informações sobre fiscalizações do Procon. Segundo reportagem do portal Tempo Real RJ, investigadores identificaram uma mensagem de áudio encaminhada a Pablo Russo em abril de 2026, na qual um interlocutor mencionava uma fiscalização prevista para o dia seguinte em São Gonçalo. A mensagem indicava que a lista dos postos que seriam fiscalizados ainda seria obtida.
Caso comprovado, o compartilhamento antecipado de informações sigilosas poderia ter permitido que estabelecimentos se preparassem para as fiscalizações. Entretanto, a existência da mensagem, isoladamente, não comprova a responsabilidade criminal de todos os envolvidos nem demonstra, por si só, que cada fiscalização tenha sido efetivamente frustrada.
Licença remunerada após buscas policiais
Um dos aspectos que chamaram a atenção foi a concessão de licença-prêmio remunerada a Pablo Russo depois de ele ter sido alvo de buscas na sexta fase da operação.
Segundo o Tempo Real RJ, um boletim interno da Polícia Civil registrou a concessão do benefício entre 5 de agosto e 3 de novembro de 2026. A reportagem também informou que José Carlos Alves de Souza Júnior, outro inspetor preso na oitava fase, recebeu licença-prêmio com vigência de um ano, iniciada em 17 de agosto.
A concessão de licença remunerada não constitui, por si só, prova de irregularidade. O episódio, contudo, levanta questões administrativas sobre os procedimentos adotados pela corporação depois que policiais passaram a ser investigados. Para esclarecer o caso, seria necessário conhecer os fundamentos das concessões, as regras funcionais aplicáveis e as providências tomadas pela administração.
Os irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes
Os inspetores Christiano Gaspar Fernandes e Giovanni Gaspar Fernandes também foram presos na oitava fase da Operação Unha e Carne.
Os dois já haviam sido presos em 2011, durante a Operação Guilhotina, da Polícia Federal, que investigava suspeitas de corrupção e possíveis ligações de policiais com tráfico de drogas, milícias e exploração ilegal de jogos de azar.
É fundamental registrar que, segundo as informações publicadas sobre o histórico do caso, os irmãos foram condenados em primeira instância, mas posteriormente absolvidos em segunda instância e reintegrados à Polícia Civil. Portanto, aquela investigação anterior não pode ser apresentada como prova de culpa no caso atual.
Christiano Gaspar Fernandes também ocupava o cargo de secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo e era sócio de Marcus Amim em uma consultoria de segurança. A relação profissional entre os dois passou a integrar o contexto examinado pelos investigadores.
O fato de terem trabalhado juntos ou mantido relações empresariais não comprova, isoladamente, participação em organização criminosa. O que precisa ser esclarecido é se essas relações tiveram alguma ligação concreta com as movimentações financeiras suspeitas e com os possíveis mecanismos de proteção investigados pela Polícia Federal.
Como começou a Operação Unha e Carne
A Operação Unha e Carne teve início em dezembro de 2025, com investigações relacionadas à suspeita de vazamento de informações sigilosas de operações policiais. Um dos episódios iniciais envolveu suspeitas de que informações sobre a Operação Zargun, direcionada contra integrantes do Comando Vermelho, teriam sido repassadas ao então deputado estadual TH Joias.
Com o avanço das apurações, a investigação ampliou seu alcance e passou a examinar possíveis relações entre agentes públicos, políticos, operadores financeiros e grupos criminosos.
As fases seguintes passaram a abordar diferentes suspeitas, incluindo corrupção, lavagem de dinheiro e possíveis mecanismos de proteção a organizações criminosas. A oitava fase, deflagrada em 15 de outubro de 2026, concentrou-se, entre outros pontos, na rede de postos de combustíveis que teria movimentado R$ 7,6 bilhões ao longo de seis anos.
A investigação também se relaciona à Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para combater organizações criminosas no Rio de Janeiro. As ações foram descritas como alinhadas às diretrizes discutidas no âmbito da ADPF 635, processo no Supremo Tribunal Federal relacionado à política de segurança pública no estado.
A evolução da operação demonstra uma mudança de foco: de suspeitas envolvendo o vazamento de informações policiais para a apuração de uma possível estrutura mais ampla de relações políticas, econômicas e institucionais. A existência e a extensão dessa estrutura, assim como a responsabilidade individual dos investigados, dependem das provas reunidas e de sua avaliação judicial.
Bloqueio de bens e crimes investigados
A decisão judicial divulgada determinou o bloqueio de até R$ 700 milhões em bens e valores. A Polícia Federal havia solicitado medidas patrimoniais mais amplas, relacionadas ao volume de recursos sob investigação, mas o alcance efetivo da ordem judicial foi delimitado pela decisão do ministro Alexandre de Moraes.
Também foi determinada a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas, incluindo 96 postos de combustíveis, conforme as informações divulgadas sobre a operação.
Entre os crimes investigados estão:
- Organização criminosa armada.
- Lavagem de dinheiro.
- Corrupção ativa e passiva.
- Violação de sigilo funcional.
- Comercialização ilegal de combustíveis.
- Formação de cartel.
- Outras possíveis infrações que venham a ser identificadas no decorrer das investigações.
A responsabilização dependerá da participação atribuída a cada investigado e das provas produzidas. O valor total de R$ 7,6 bilhões se refere à movimentação financeira apontada na investigação, não necessariamente ao montante comprovadamente proveniente de crimes.
O que ainda precisa ser esclarecido
O caso reúne questões que ultrapassam a dimensão financeira da investigação. A apuração precisa esclarecer como a rede empresarial funcionava, quem controlava efetivamente os postos, quais operações teriam sido usadas para ocultar recursos e se houve participação de servidores públicos na proteção dos negócios investigados.
Também é necessário esclarecer se informações sigilosas foram repassadas indevidamente, qual teria sido o papel de cada policial e se eventuais decisões administrativas favoreceram pessoas sob investigação.
No campo político, as relações entre Márcio Canella e Marcus Amim, assim como os vínculos profissionais entre Amim e outros investigados, merecem ser examinados à luz de documentos, registros financeiros e atos administrativos. Relações políticas ou profissionais, por si sós, não demonstram a prática de crimes.
Outro ponto relevante é o tratamento administrativo dispensado aos policiais investigados, especialmente em relação às licenças remuneradas mencionadas nas reportagens. O esclarecimento depende da análise dos atos oficiais e das justificativas apresentadas pela administração pública.
Até as informações publicadas em 16 de outubro de 2026, as defesas dos principais investigados ainda buscavam acesso integral aos autos ou não haviam apresentado manifestações completas sobre as novas acusações. A Prefeitura de Belford Roxo também não havia se pronunciado, segundo uma das reportagens consultadas.
Conclusão
A oitava fase da Operação Unha e Carne colocou no centro das investigações um ex-chefe da Polícia Civil, um deputado estadual eleito e quatro inspetores da própria corporação, em uma apuração sobre possível lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis.
O montante de R$ 7,6 bilhões atribuído à movimentação financeira investigada, a quantidade de empresas alcançadas pelas medidas judiciais e as relações entre os envolvidos tornam o caso relevante para a segurança pública e para a fiscalização da administração estadual e municipal.
O esclarecimento definitivo exigirá a identificação da origem dos recursos, a análise das transações financeiras e a comprovação de eventuais atos de corrupção, vazamento de informações ou proteção indevida. A investigação deve avançar com transparência, respeito ao contraditório e responsabilização individual, sem transformar suspeitas em condenações antecipadas.
A questão central é saber se a rede de postos funcionava apenas como um conjunto de empresas comerciais ou se foi utilizada, como suspeita a Polícia Federal, para movimentar recursos ilícitos com eventual apoio de agentes públicos. É essa hipótese que a investigação precisa confirmar ou descartar com provas.