PAULA LAVIGNE PEDE A LULA: “ACABE COM ESSE HORROR” — MAS O ALERTA SOBRE AS BETS TAMBÉM REVELA A CRISE DOS GRANDES SHOWS

PAULA LAVIGNE PEDE A LULA: “ACABE COM ESSE HORROR” — MAS O ALERTA SOBRE AS BETS TAMBÉM REVELA A CRISE DOS GRANDES SHOWS

Produtora e presidente da associação Procure Saber cobra de Lula medidas contra plataformas de apostas, reclama de plateias vazias e defende que empresas do setor sejam impedidas de usar a Lei Rouanet; discurso provoca debate sobre cultura, dinheiro público e artistas que dependem de patrocínio

A produtora cultural Paula Lavigne, presidente da associação Procure Saber e mulher do cantor Caetano Veloso, fez um apelo direto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que o governo endureça o combate às chamadas bets, plataformas de apostas esportivas e jogos on-line.

Durante um evento dedicado ao debate sobre a presença dessas empresas no Brasil, Paula foi enfática ao pedir que Lula coloque um freio no avanço das apostas.

Acabe com esse horror no Brasil”, afirmou.

A declaração ganhou repercussão porque veio acompanhada de uma crítica mais ampla ao atual cenário do mercado cultural. Segundo Paula, ela trabalha há cerca de quatro décadas com produção de shows e nunca teria presenciado uma situação semelhante à atual, com plateias que, segundo sua avaliação, estariam cada vez mais vazias.

A produtora relacionou o problema ao excesso de oferta de entretenimento, à perda de poder de consumo e à concorrência por dinheiro que, na visão apresentada por ela, estaria sendo disputado também pelas plataformas de apostas.

Foi justamente nesse ponto que o discurso ganhou um componente político.

Paula não apenas criticou as bets. Ela dirigiu seu pedido diretamente a Lula e pediu que o presidente intervenha no setor.

E existe uma contradição que merece ser discutida.

As apostas on-line não surgiram como uma realidade criada pela oposição ou por governos anteriores. O atual modelo regulatório das bets foi estruturado durante o próprio governo Lula, com regras aprovadas a partir de 2023 e posterior regulamentação do mercado. Agora, diante dos efeitos sociais e econômicos das apostas, o governo discute novas restrições e mecanismos de controle.

“As plateias estão vazias”

Paula Lavigne apresentou uma queixa que vai além das bets.

Segundo ela, o setor de shows atravessa um momento particularmente difícil.

Eu promovo o show há 40 anos e eu nunca vi nada igual, as plateias estão vazias, vazias”, afirmou durante o evento.

A produtora também comparou eventos pagos com apresentações gratuitas financiadas ou apoiadas pelo poder público.

Na avaliação dela, quando o espetáculo é gratuito, o público aparece em grande quantidade.

Foi nesse momento que ela citou as chamadas emendas e os gastos públicos com apresentações de artistas sertanejos, fazendo uma crítica ao modelo de financiamento de eventos.

A declaração, porém, abre outra discussão: se existe público para eventos gratuitos bancados direta ou indiretamente pelo poder público, o problema talvez não seja simplesmente a falta de interesse pela cultura.

Pode haver também uma questão econômica.

O brasileiro que não consegue pagar ingresso, transporte, alimentação e outros custos associados a um espetáculo pode comparecer quando o evento é gratuito — justamente porque o custo é transferido para alguma fonte de financiamento.

E essa fonte, em determinados casos, é o próprio dinheiro público.

A crítica aos artistas pequenos

Paula também estabeleceu uma diferença entre os artistas de grande projeção e aqueles que estão começando ou têm menor poder de negociação.

Ela citou Caetano Veloso, Marisa Monte, Anitta e Emicida como exemplos de artistas que teriam condições de recusar patrocínios de empresas de apostas.

A lógica apresentada é simples: artistas com grande público, grandes contratos e marcas consolidadas teriam maior liberdade para dizer não.

Já os profissionais menores estariam em situação completamente diferente.

Segundo Paula, esses artistas muitas vezes precisam aceitar contratos porque, caso contrário, não conseguem sobreviver profissionalmente.

“Os artistas pequenos não”, afirmou, argumentando que eles acabam pressionados pela necessidade financeira.

Esse argumento tem força.

Mas também merece uma pergunta incômoda: por que a discussão sobre as bets precisa ser apresentada principalmente a partir da dificuldade de financiamento dos artistas?

As consequências das apostas vão muito além do mercado cultural.

O próprio Ministério da Saúde vem tratando o problema como uma questão de saúde pública. O ministro Alexandre Padilha defendeu recentemente que as bets sejam enfrentadas de maneira semelhante a outros produtos capazes de provocar dependência e informou que mais de 1,2 milhão de brasileiros já utilizaram uma plataforma de autoexclusão de apostas.

Portanto, o problema não é apenas o patrocínio de um show.

É endividamento, compulsão, perda de renda, impacto familiar e saúde mental.

“Artista que só pensa nele”?

É aqui que entra a crítica política mais contundente ao discurso.

Quando uma artista ou produtora cultural procura o presidente da República para pedir o fim das bets, é legítimo defender que se discuta o interesse coletivo.

Mas quando o argumento começa com plateias vazias, financiamento de shows e dificuldade dos artistas, existe o risco de a crítica parecer centrada no próprio setor.

A pergunta que fica é: Paula está pedindo o fim das bets porque o brasileiro está sendo prejudicado pelas apostas ou porque o mercado de shows está perdendo dinheiro e público?

Uma coisa não necessariamente exclui a outra.

Mas são problemas diferentes.

Se a preocupação é realmente social, a discussão deveria começar pelos brasileiros que perderam renda, entraram em dívidas ou desenvolveram comportamento compulsivo.

Se a preocupação é cultural, então é preciso assumir que também está sendo feita uma defesa do mercado de shows.

E não há nada de errado em defender a cultura.

O problema surge quando uma pauta de interesse público é apresentada de maneira que parece colocar o próprio setor artístico no centro de uma questão muito maior.

A Lei Rouanet entra no debate

Paula foi além e fez outro pedido a Lula.

Caso o governo não consiga proibir as bets, ela quer que as empresas de apostas sejam impedidas de utilizar a Lei Rouanet.

O argumento apresentado foi que a legislação possui regras rigorosas de prestação de contas, limites para cachês e exigências sobre aplicação dos recursos.

Na avaliação dela, empresas de apostas não deveriam utilizar o mecanismo de incentivo à cultura como instrumento de marketing.

Esse ponto é particularmente relevante.

A Lei Rouanet não funciona simplesmente como um cheque entregue pelo governo a um artista. Trata-se de um mecanismo de incentivo fiscal com regras próprias, prestação de contas e aprovação de projetos dentro das normas estabelecidas.

Por isso, qualquer discussão sobre sua utilização por empresas de determinado setor precisa ser feita com critérios objetivos e não apenas por pressão política.

A pergunta correta seria: qual é a justificativa jurídica e econômica para impedir especificamente as bets de utilizar determinado mecanismo de incentivo?

Se existe risco de conflito de interesses, influência sobre públicos vulneráveis ou associação indevida entre apostas e cultura, isso precisa ser demonstrado e regulamentado.

O governo Lula e a contradição das bets

A cobrança de Paula também coloca Lula diante de uma contradição política.

O governo que agora discute novas restrições às apostas foi também responsável pela regulamentação do mercado.

A legislação criou um ambiente regulado para as plataformas, com exigências de autorização, tributação e regras de publicidade.

Hoje, entretanto, o debate mudou.

O governo passou a defender mecanismos mais duros de proteção aos consumidores, especialmente diante dos impactos sobre famílias e pessoas vulneráveis.

O próprio presidente Lula já admitiu a possibilidade de endurecer significativamente a política para as bets.

Assim, quando Paula pede ao presidente que “acabe com esse horror”, ela encontra um governo que já percebeu que a regulamentação inicialmente construída não encerrou o problema.

Mas também surge uma questão política inevitável:

se as bets são tão nocivas a ponto de precisarem ser eliminadas, por que o governo permitiu a expansão desse mercado regulado?

Essa é uma pergunta que não pode ser ignorada.

O dinheiro das apostas e o dinheiro da cultura

Existe ainda uma discussão maior sobre financiamento cultural.

O setor artístico brasileiro possui diferentes fontes de receita: venda de ingressos, patrocínios privados, publicidade, plataformas digitais, contratos comerciais, recursos próprios e mecanismos públicos de incentivo.

As bets entraram nesse mercado justamente porque possuem enorme capacidade financeira e buscam associar suas marcas ao esporte, entretenimento e cultura.

O problema aparece quando uma indústria que lucra com apostas passa a financiar atividades culturais enquanto, simultaneamente, enfrenta críticas por possíveis impactos sociais negativos.

É legítimo perguntar se esse dinheiro deve ser aceito.

Mas também é legítimo perguntar quantos artistas, produtores, técnicos, músicos, profissionais de palco e trabalhadores do setor perderiam uma fonte de receita caso esses patrocínios fossem simplesmente eliminados.

A resposta não é simples.

O ponto mais delicado

O discurso de Paula Lavigne apresenta uma questão verdadeira: os grandes artistas conseguem impor limites que os pequenos muitas vezes não conseguem.

Um Caetano Veloso, uma Anitta, uma Marisa Monte ou um Emicida possui poder de negociação muito maior do que um músico desconhecido que depende de um cachê para pagar as contas.

Mas existe uma ironia nessa situação.

Os grandes artistas têm justamente maior capacidade de recusar.

Os pequenos, segundo o próprio argumento de Paula, seriam os mais dependentes do dinheiro.

Portanto, uma proibição completa de patrocínios das bets poderia produzir efeitos diferentes dentro do próprio mercado cultural.

Os grandes provavelmente encontrariam outras fontes de financiamento.

Os pequenos poderiam perder uma das poucas portas disponíveis.

É por isso que qualquer mudança precisa considerar não apenas o interesse das grandes estrelas, mas toda a cadeia produtiva da cultura.

O que Paula está pedindo a Lula

No fim das contas, o pedido de Paula Lavigne pode ser resumido em duas frentes.

A primeira é política: Lula deve endurecer ou até acabar com as bets no Brasil.

A segunda é cultural: caso elas continuem existindo, as empresas de apostas não deveriam ter acesso à Lei Rouanet.

É uma posição legítima.

Mas também é uma posição que precisa ser confrontada com perguntas difíceis.

Se as bets serão proibidas, o governo precisa explicar como substituirá a arrecadação tributária e como enfrentará o mercado ilegal.

Se serão apenas mais regulamentadas, será preciso explicar por que a regulação existente não foi suficiente.

Se forem proibidas de utilizar incentivos culturais, será necessário estabelecer critérios objetivos para essa exclusão.

E se o objetivo é proteger a população, a política pública não pode ficar restrita aos artistas.

Precisa proteger principalmente quem perde dinheiro, quem se endivida e quem desenvolve dependência.

Crítica: o interesse público não pode virar palco para interesses particulares

Paula Lavigne tem todo o direito de defender os artistas, os produtores e o mercado cultural.

Mas, quando alguém procura diretamente o presidente da República para pedir uma mudança de política pública, o argumento precisa ser muito maior do que a situação de seu próprio mercado.

A cultura não pode ser tratada apenas como negócio de grandes produtores.

E o combate às bets não pode ser tratado apenas como uma disputa por patrocínio de shows.

Existe um problema social real.

Existe um problema econômico real.

Existe um problema de saúde pública real.

E existe também um problema cultural.

Todos precisam ser discutidos.

A crítica que se pode fazer ao discurso de Paula é justamente essa: o artista não pode ser colocado como vítima principal de um fenômeno que atinge milhões de brasileiros muito além dos palcos.

Se o pedido é para acabar com as bets, que se fale também das famílias endividadas, dos trabalhadores que perderam renda e das pessoas que desenvolveram comportamento compulsivo.

Se o pedido é para proteger a cultura, então que se discuta abertamente como financiar os artistas pequenos sem transformar o Estado em financiador permanente ou permitir que empresas controversas ocupem esse espaço.

E, sobretudo, que o debate não se transforme em uma simples disputa entre quem pode ou não pode patrocinar determinado show.

Porque, no final, o problema das bets não é apenas quem coloca o nome no palco. É quem paga a conta quando a aposta termina — e, muitas vezes, quem paga essa conta é o cidadão comum.

Paula Lavigne pediu a Lula: “Acabe com esse horror.”

Agora, se o governo realmente quiser enfrentar o problema, terá de responder a uma pergunta muito maior do que a feita no palco:

vai combater as bets porque elas prejudicam a sociedade ou apenas controlar onde o dinheiro delas pode aparecer?

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