
PRESIDENTE DA COLÔMBIA EXIBE CORPOS E TRANSFORMA OPERAÇÃO CONTRA GUERRILHEIROS EM ESPETÁCULO DE PODER
Abelardo de la Espriella divulga imagens de corpos enfileirados após operações militares, comemora ofensiva contra grupos armados e adota discurso de guerra total; exposição provoca repúdio e reacende debate sobre limites da força do Estado, direitos humanos e uso político da morte
O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, provocou forte reação ao divulgar imagens nas redes sociais nas quais aparece diante de corpos de integrantes de grupos armados mortos durante operações das forças de segurança do país.
Nas imagens divulgadas nesta semana, o presidente colombiano aparece caminhando diante de fileiras de corpos cobertos. Segundo o governo, tratava-se de integrantes de organizações guerrilheiras mortos durante operações contra grupos armados. Uma das publicações mostrou 23 corpos apresentados pelas autoridades como integrantes desses grupos.
A cena é chocante não apenas pelo resultado da operação militar, mas principalmente pela decisão política de transformá-la em material de propaganda oficial.
Em vez de simplesmente anunciar o resultado de uma ação policial ou militar, o presidente decidiu aparecer diante dos cadáveres e utilizar as imagens para demonstrar força.
A mensagem política foi direta: o novo governo colombiano quer deixar claro que pretende abandonar qualquer postura considerada leniente diante de guerrilheiros, narcotraficantes e organizações criminosas.
De la Espriella assumiu o poder em 7 de agosto de 2026 e construiu sua política de segurança sobre uma promessa de endurecimento contra grupos armados ilegais. O presidente adotou uma retórica de confronto aberto e passou a apresentar as operações militares como demonstrações da capacidade do Estado de recuperar territórios dominados por organizações criminosas.
Mas uma pergunta inevitável surgiu diante das imagens:
até onde um presidente pode ir na celebração da morte de seus inimigos?
A imagem que causou indignação
O episódio ganhou repercussão justamente pela maneira como os corpos foram apresentados.
Os cadáveres estavam enfileirados e cobertos, enquanto o presidente caminhava diante deles.
A intenção política parecia evidente: mostrar ao público o resultado concreto da ofensiva contra as organizações armadas.
De la Espriella publicou a gravação em suas redes sociais e adotou um discurso de confronto.
Em uma das mensagens divulgadas, afirmou que os integrantes dos grupos ilegais teriam apenas duas alternativas: rendição ou morte em combate.
O governo colombiano classificou as operações como importantes golpes contra organizações criminosas.
O presidente também destacou a morte de um homem identificado pelas autoridades como Naín Andrés Pérez Toncel, conhecido como “Bendito Menor”, apontado pelo governo como liderança das Autodefensas Conquistadoras de la Sierra Nevada.
A ofensiva, portanto, não foi apresentada pelo governo como uma ação isolada.
Ela faz parte de uma estratégia mais ampla.
Um presidente que escolheu mostrar os mortos
É justamente nesse ponto que a crítica se torna inevitável.
Uma coisa é um governo combater guerrilhas, narcotraficantes e grupos armados.
Outra coisa é o próprio presidente da República transformar cadáveres em cenário para uma demonstração pública de poder.
O Estado tem obrigação de combater organizações criminosas.
Tem obrigação de proteger soldados, policiais e civis.
Tem obrigação de enfrentar grupos que sequestram, extorquem, assassinam, traficam drogas e recrutam crianças.
Mas isso não significa que o chefe de Estado precise transformar a morte de adversários em espetáculo.
O problema não está simplesmente na existência da operação militar.
Está na forma como a morte foi utilizada politicamente.
A imagem dos corpos não é necessária para provar que uma operação foi bem-sucedida.
Um governo pode apresentar números, apreensões, prisões, armas confiscadas, territórios recuperados e informações sobre os líderes neutralizados.
Quando o presidente escolhe aparecer diante dos cadáveres, a mensagem deixa de ser exclusivamente operacional.
Passa a ser simbólica.
É uma mensagem de força.
E, para seus críticos, uma mensagem de intimidação.
O limite entre firmeza e espetáculo
O presidente colombiano tem o direito — e, em determinadas circunstâncias, o dever — de defender uma política firme contra grupos armados.
Nenhum Estado democrático precisa aceitar que guerrilhas ou organizações criminosas determinem as regras do território.
Mas firmeza não é sinônimo de brutalidade visual.
Um governo forte não precisa humilhar mortos.
Um Estado eficiente não precisa transformar cadáveres em cenário.
Uma operação bem-sucedida pode ser apresentada com sobriedade.
Essa diferença é fundamental.
Porque existe uma linha entre comunicar uma vitória militar e utilizar a morte como instrumento de propaganda.
E De la Espriella, ao aparecer diante dos corpos e divulgar as imagens, aproximou-se perigosamente dessa linha.
A resposta do presidente: “guerra total”
A postura faz parte da estratégia política do novo governo.
Desde o início de seu mandato, De la Espriella vem prometendo uma ofensiva ampla contra as organizações armadas e o narcotráfico.
O governo adotou uma política descrita como uma espécie de “guerra total” contra os grupos ilegais.
A estratégia também inclui maior aproximação com os Estados Unidos.
A Colômbia passou recentemente a integrar uma coalizão liderada por Washington voltada ao combate ao crime organizado e ao narcotráfico, enquanto o governo colombiano busca ampliar cooperação em inteligência, equipamentos e operações de segurança.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, visitou a Colômbia nesta semana e manifestou apoio à cooperação de segurança com o governo De la Espriella. Os dois governos discutiram combate ao narcotráfico, compartilhamento de informações e fortalecimento das capacidades colombianas de segurança.
A mudança representa uma ruptura importante com a política externa adotada durante o governo anterior de Gustavo Petro.
O contraste com Gustavo Petro
Petro, que deixou a Presidência em agosto, tornou-se um dos críticos da exposição dos cadáveres.
O ex-presidente acusou o governo de transformar a morte em propaganda e criticou a maneira como De la Espriella apresenta suas operações militares.
O contraste é particularmente forte porque Petro também enfrentou grupos armados durante seu governo e autorizou operações militares.
A diferença está principalmente no discurso político e na maneira de comunicar as ações do Estado.
Enquanto Petro defendia uma política de negociação e buscava reduzir a intensidade do conflito por meio de sua política conhecida como “Paz Total”, De la Espriella adotou uma linguagem muito mais agressiva e rejeita a ideia de oferecer concessões aos grupos armados.
A mudança é evidente.
Sai a retórica de negociação.
Entra a retórica de guerra.
Sai a tentativa de apresentar o Estado como mediador.
Entra a imagem do Estado como força de combate.
Mas quem eram os mortos?
Essa é outra questão fundamental.
O governo afirma que os mortos eram integrantes de grupos armados ilegais.
Mas a simples classificação oficial não elimina a necessidade de investigação independente.
Em qualquer operação militar, especialmente quando há grande número de mortos, é necessário esclarecer:
quem eram as pessoas atingidas;
qual organização integravam;
se estavam armadas;
como ocorreu o confronto;
se houve possibilidade de rendição;
se houve vítimas civis;
e se todas as regras do Direito Internacional Humanitário foram respeitadas.
Essa preocupação não significa defender guerrilheiros.
Significa defender o Estado de Direito.
Uma democracia não pode exigir que seus soldados combatam criminosos abandonando as próprias regras.
A questão dos menores
A preocupação ganhou ainda mais peso diante de informações sobre mortes de menores em operações militares realizadas durante as primeiras semanas do novo governo.
Análises publicadas na imprensa colombiana apontaram que ofensivas aéreas contra grupos armados também produziram mortes de adolescentes que teriam sido recrutados por organizações ilegais.
Esse é um dos pontos mais delicados da guerra contra as guerrilhas.
O recrutamento de crianças e adolescentes por grupos armados é uma das práticas mais graves do conflito colombiano.
Mas justamente por isso o Estado precisa distinguir combatentes, recrutados à força, civis e membros efetivos das organizações criminosas.
Não basta vencer militarmente.
É preciso vencer respeitando a lei.
A propaganda da morte
A decisão de exibir os cadáveres também coloca o presidente colombiano diante de uma discussão sobre comunicação política.
A imagem é poderosa.
Mais poderosa do que números.
Mais poderosa do que relatórios.
Mais poderosa do que uma entrevista coletiva.
Mostrar corpos produz uma reação emocional imediata.
E é justamente por isso que a utilização desse tipo de imagem pode ser politicamente eficiente.
O cidadão vê a fotografia ou o vídeo e entende imediatamente a mensagem:
“O governo está matando aqueles que ameaçam o país.”
É uma linguagem simples, brutal e eleitoralmente poderosa.
Mas democracia não deveria ser construída sobre a exibição de cadáveres.
O presidente precisa demonstrar que o Estado é mais forte do que o crime.
Não que o Estado é simplesmente mais violento.
A inspiração de outros governos
A estratégia de comunicação adotada por De la Espriella lembra métodos utilizados por outros líderes latino-americanos que transformaram segurança pública em marca política.
A exibição de resultados policiais, imagens de operações e demonstrações ostensivas de força passou a ocupar espaço central na comunicação de governos que prometem combater o crime sem concessões.
Analistas apontam semelhanças com a comunicação política do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, conhecido por utilizar imagens e números de operações de segurança para demonstrar a ofensiva do Estado contra organizações criminosas.
O fenômeno não é exclusivamente colombiano.
É uma tendência regional.
A diferença, neste caso, é que De la Espriella avançou um passo além ao aparecer pessoalmente diante dos corpos.
A crítica necessária
É perfeitamente possível apoiar uma operação contra guerrilheiros e, ao mesmo tempo, criticar a maneira como o presidente colombiano apresentou o resultado.
São duas coisas diferentes.
Se os mortos realmente eram integrantes de organizações armadas e foram mortos em combate dentro da legalidade, o Estado colombiano tinha todo o direito de anunciar a operação como uma vitória.
Mas isso não transforma a exposição de cadáveres em uma prática automaticamente aceitável.
O combate ao crime não precisa ser acompanhado de culto à morte.
Um presidente deveria ser o símbolo da autoridade do Estado, mas também da responsabilidade do Estado.
Não é necessário esconder uma operação bem-sucedida.
Também não é necessário esconder os números.
Mas existe uma diferença enorme entre prestar contas à população e fazer propaganda diante de cadáveres.
Um presidente que precisa entender a responsabilidade do cargo
De la Espriella pode ser duro contra os grupos criminosos.
Pode ampliar operações militares.
Pode exigir rendição.
Pode aumentar a cooperação com os Estados Unidos.
Pode defender uma política de tolerância zero contra o narcotráfico e as guerrilhas.
Tudo isso pode fazer parte do debate democrático.
Mas o presidente da República não é um comandante de facção.
Ele representa o Estado.
E justamente por representar o Estado precisa demonstrar uma diferença fundamental entre o poder legítimo da República e a brutalidade das organizações que ela combate.
Quando um presidente coloca cadáveres no centro da propaganda política, corre o risco de apagar essa diferença.
A Colômbia diante de uma nova fase
A chegada de De la Espriella representa uma mudança importante na política colombiana.
O novo presidente assumiu prometendo romper com a política de negociação de Petro e recuperar pela força territórios dominados por organizações ilegais.
Sua aproximação com Donald Trump e com o governo norte-americano reforça essa mudança.
A Colômbia agora entra em uma fase de maior cooperação militar e de inteligência com Washington, ao mesmo tempo em que intensifica suas operações contra guerrilhas e organizações criminosas.
O desafio será descobrir se a estratégia produzirá segurança duradoura ou apenas uma escalada de violência.
Porque matar líderes de grupos criminosos pode produzir resultados imediatos.
Mas uma guerra prolongada, sem fortalecimento das instituições, educação, presença estatal, inteligência, Justiça e proteção das populações vulneráveis, pode simplesmente produzir novos grupos e novos líderes.
O presidente pode combater o crime sem celebrar cadáveres
A crítica mais dura a De la Espriella não é que ele esteja combatendo guerrilheiros.
É que ele parece acreditar que a melhor maneira de demonstrar força é colocar os mortos diante das câmeras.
Isso é desnecessário.
Um presidente pode ser firme sem ser grotesco.
Pode ser implacável contra criminosos sem transformar cadáveres em troféus.
Pode defender soldados e policiais sem transformar a morte em espetáculo.
E pode dizer aos grupos armados que o Estado não vai recuar sem precisar caminhar entre corpos.
A Colômbia precisa de segurança.
Precisa combater o narcotráfico.
Precisa enfrentar as guerrilhas.
Precisa proteger seus cidadãos.
Mas também precisa preservar aquilo que diferencia uma democracia de uma organização armada:
a lei.
A força do Estado não deveria ser medida pela quantidade de cadáveres exibidos em uma rede social.
Deveria ser medida pela capacidade de prender criminosos, proteger cidadãos, recuperar territórios e fazer Justiça — sem transformar a morte em propaganda política.
Porque quando o presidente precisa desfilar diante de corpos para provar que é forte, a pergunta deixa de ser apenas quantos criminosos foram derrotados.
A pergunta passa a ser:
que tipo de Estado está sendo construído?
E essa é uma pergunta que a Colômbia terá de responder enquanto De la Espriella avança com sua prometida política de confronto total contra os grupos armados.