Perícia afasta uso de dinheiro público no filme “Dark Horse”, mas origem dos recursos do fundo Havengate continua sob investigação

Perícia afasta uso de dinheiro público no filme “Dark Horse”, mas origem dos recursos do fundo Havengate continua sob investigação

Laudo contratado pela produtora GoUp Entertainment afirma que os recursos utilizados na produção foram privados e não tiveram vínculo identificado com verbas públicas, incentivos fiscais ou Lei Rouanet; documento, porém, não auditou a origem do dinheiro recebido do fundo ligado a Eduardo Bolsonaro

A polêmica em torno do filme “Dark Horse”, produção cinematográfica inspirada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou um novo capítulo com a divulgação de uma perícia financeira contratada pela própria produtora responsável pelo longa.

O laudo elaborado para a GoUp Entertainment concluiu que não foi identificado uso de dinheiro público na produção do filme. Segundo o documento, os recursos utilizados foram privados, movimentados por meios formais e rastreáveis e não apresentaram, na documentação analisada, vínculo com recursos públicos, incentivos fiscais ou a Lei Rouanet.

A conclusão representa uma resposta direta às suspeitas que surgiram depois que vieram a público conversas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.

Mas existe uma ressalva importante.

A perícia analisou os recursos movimentados pela produtora e as despesas relacionadas à realização do filme. O responsável pelo trabalho afirmou que não tinha autorização para auditar o fundo Havengate, apontado como veículo utilizado para os repasses destinados à produção.

Assim, o laudo afasta, dentro do universo documental examinado, a utilização de dinheiro público no financiamento das despesas do filme, mas não esclarece integralmente de onde vieram os recursos que abasteceram o fundo responsável pelos repasses.

O que exatamente a perícia analisou

O trabalho foi realizado pelo perito particular Anísio Castelo Branco, contratado pela GoUp Entertainment.

De acordo com o laudo, foram examinadas as movimentações financeiras relacionadas à produção de “Dark Horse”, incluindo despesas realizadas no Brasil e nos Estados Unidos.

O período analisado vai de 1º de junho de 2025 a 4 de junho de 2026.

Os números chamam atenção.

No Brasil, a produção gastou aproximadamente US$ 3,73 milhões.

Nos Estados Unidos, os gastos chegaram a aproximadamente US$ 9,66 milhões.

Somados, os valores representam cerca de US$ 13,39 milhões destinados à produção do filme no período analisado.

A maior parte das despesas, portanto, ocorreu fora do Brasil.

Mais de 70% dos gastos registrados pela perícia foram realizados nos Estados Unidos.

A conclusão do laudo

A perícia concluiu que os recursos destinados à produção tinham origem privada comprovada no âmbito da documentação analisada.

O documento afirma que os valores foram movimentados por meios formais, rastreáveis e documentalmente identificáveis.

Também não foi encontrada vinculação, no material examinado, com recursos públicos, incentivos fiscais ou mecanismos da Lei Rouanet.

Essa conclusão é importante porque uma das suspeitas levantadas no início do caso era a possibilidade de o filme ter recebido dinheiro proveniente de contratos públicos ou de emendas parlamentares.

A perícia, porém, não encontrou essa ligação.

O que o laudo não responde

É justamente aqui que a história fica mais complexa.

O responsável pela perícia esclareceu que o trabalho não investigou a origem do dinheiro dentro do fundo Havengate Development.

O fundo aparece como intermediário dos recursos utilizados para financiar a produção.

Segundo o perito, sua equipe não tinha acesso aos registros internos do Havengate e, portanto, não poderia afirmar quem colocou dinheiro no fundo antes dos repasses destinados ao filme.

Em outras palavras:

a perícia acompanhou o dinheiro a partir da documentação disponível para a produtora, mas não auditou toda a cadeia financeira anterior ao Havengate.

Essa diferença é fundamental para compreender corretamente o resultado.

O papel do Havengate

O Havengate Development é um fundo sediado nos Estados Unidos que passou a aparecer no centro das discussões sobre o financiamento de “Dark Horse”.

O fundo é associado a Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.

Documentos divulgados durante as investigações apontaram que aproximadamente R$ 61 milhões foram repassados por meio do Havengate para financiar a produção.

Flávio Bolsonaro confirmou posteriormente que havia solicitado recursos a Daniel Vorcaro para concluir o filme.

A questão que permanece em aberto é a origem desses recursos antes de chegarem ao fundo.

Daniel Vorcaro entra na história

O nome de Daniel Vorcaro ganhou enorme relevância porque o empresário era o controlador do Banco Master e passou a ser alvo de investigações da Polícia Federal.

Conversas reveladas pelo The Intercept Brasil mostraram Flávio Bolsonaro negociando com Vorcaro recursos para o filme.

Em um dos episódios mais comentados, o senador aparece solicitando R$ 61 milhões ao empresário.

Flávio posteriormente reconheceu que pediu o dinheiro, mas sustentou que os recursos tinham finalidade relacionada exclusivamente à produção cinematográfica.

A partir daí, a origem dos valores passou a ser questionada.

A investigação procura saber se o dinheiro utilizado no filme teve origem exclusivamente privada e legítima ou se houve algum tipo de desvio ou utilização indireta de recursos provenientes de outras fontes.

O primeiro repasse veio antes do contrato

Um dos elementos que continuam chamando atenção na investigação é a cronologia dos repasses.

Segundo documentos analisados pelo ICL Notícias, o primeiro repasse de Daniel Vorcaro para o Havengate ocorreu 11 dias antes da assinatura formal do contrato entre o fundo e a produtora.

Em 13 de fevereiro de 2025, teria ocorrido uma transferência de US$ 2 milhões da Entre Investimentos e Participações para o Havengate.

No dia seguinte, o empresário Fabiano Zettel teria encaminhado o comprovante da transferência a Daniel Vorcaro com a mensagem: “Filme!”.

O contrato entre o Havengate e a GoUp Entertainment, segundo a documentação citada, foi assinado posteriormente, em 24 de fevereiro de 2025.

Essa sequência temporal não prova, por si só, irregularidade.

Mas é um dos pontos que ajudam a explicar por que a origem e a movimentação dos recursos continuam sendo examinadas pelas autoridades.

As cobranças de Flávio Bolsonaro

As conversas reveladas também mostraram que Flávio Bolsonaro mantinha contato com Vorcaro para tratar dos pagamentos.

Os documentos apontam que havia uma previsão de repasses milionários destinados à produção.

A relação financeira ganhou ainda mais relevância quando o Banco Master entrou em crise.

Em novembro de 2025, pouco antes da prisão de Vorcaro, Flávio voltou a cobrar informações sobre os pagamentos.

Em uma das mensagens divulgadas, o senador escreveu ao banqueiro pedindo uma posição sobre o andamento dos repasses.

O conteúdo das mensagens passou a integrar o debate político e as investigações sobre o financiamento do longa.

Flávio Bolsonaro diz que o dinheiro foi usado no filme

Flávio Bolsonaro sustenta que os recursos obtidos junto a Vorcaro foram utilizados para a produção de “Dark Horse”.

O senador também passou a defender publicamente a divulgação da prestação de contas.

Mais recentemente, porém, afirmou que o assunto era uma “página virada” e que a produtora havia apresentado sua prestação de contas.

A declaração provocou críticas porque a documentação divulgada não detalha completamente a origem dos recursos dentro do Havengate.

A produtora GoUp Entertainment

A GoUp Entertainment é a empresa responsável pela produção do filme.

A produtora contratou a perícia financeira justamente para demonstrar a aplicação dos recursos utilizados na produção.

O laudo foi apresentado no contexto de uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo.

A investigação busca esclarecer se recursos públicos teriam sido desviados de contratos celebrados com empresas ou entidades relacionadas à produtora.

A defesa da empresa sustenta que o dinheiro empregado no filme foi privado e que não houve utilização de recursos públicos.

A investigação sobre contratos públicos

Uma das linhas investigativas surgiu a partir de um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo, durante a gestão de Ricardo Nunes, e o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, ligada à estrutura da produtora.

O contrato tinha como objetivo fornecer internet Wi-Fi gratuita para comunidades carentes.

A suspeita investigada é se recursos relacionados a contratos públicos poderiam ter sido desviados para outras finalidades.

A produtora nega a utilização desses recursos no filme.

O laudo particular apresentado agora reforça justamente essa defesa.

A perícia e o limite da conclusão

É importante compreender a natureza da conclusão.

A perícia não afirmou que ninguém ligado ao caso cometeu qualquer irregularidade.

Também não determinou que todas as suspeitas envolvendo o financiamento do filme são falsas.

O que ela concluiu é mais específico:

não identificou, na documentação examinada, utilização de dinheiro público na produção de “Dark Horse”.

A diferença entre essas duas afirmações é enorme.

A primeira seria uma absolvição geral.

A segunda é uma conclusão técnica limitada ao objeto e ao material analisado.

E foi justamente essa limitação que chamou atenção de outros investigadores e especialistas.

O dinheiro gasto nos Estados Unidos

Outro aspecto revelado pelo laudo é a dimensão dos gastos realizados nos Estados Unidos.

A produção gastou aproximadamente US$ 9,66 milhões em território americano, contra US$ 3,73 milhões no Brasil.

O filme tem participação internacional e conta com atores estrangeiros.

Um dos nomes mais conhecidos do elenco é o ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro.

A presença de uma estrutura internacional ajuda a explicar parte dos gastos realizados fora do Brasil.

Ainda assim, o volume financeiro movimentado nos Estados Unidos tornou-se um dos elementos que despertaram atenção das autoridades.

Por que a origem do dinheiro continua importante

Mesmo que o filme não tenha utilizado dinheiro público diretamente, a investigação ainda precisa esclarecer a origem dos recursos privados utilizados para financiá-lo.

É justamente esse o ponto que a perícia não respondeu.

Se o dinheiro veio de investidores privados legítimos, a questão tende a perder parte de sua dimensão criminal.

Mas, se a investigação identificar que recursos de origem ilícita foram colocados no Havengate e posteriormente utilizados para financiar o filme, a conclusão seria completamente diferente.

Por isso, a origem do dinheiro continua sendo uma peça importante do quebra-cabeça.

A investigação da Polícia Federal

A Polícia Federal também acompanha o caso.

A corporação investiga as relações financeiras envolvendo Daniel Vorcaro, o Banco Master, o Havengate e pessoas ligadas ao financiamento do filme.

O objetivo é descobrir se houve desvio de recursos, lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial ou utilização de estruturas financeiras para mascarar a verdadeira origem dos valores.

Até o momento, entretanto, essas hipóteses permanecem no campo investigativo.

Não se pode transformar uma suspeita em conclusão definitiva.

A disputa política

“Dark Horse” também se transformou em uma peça do confronto político entre bolsonaristas e lulistas.

O filme retrata a trajetória de Jair Bolsonaro e tem forte significado político para seus apoiadores.

Ao mesmo tempo, o financiamento envolvendo Daniel Vorcaro passou a ser explorado pelos adversários de Flávio Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2026.

O Partido dos Trabalhadores vem utilizando o episódio politicamente, inclusive com referências ao pedido de R$ 61 milhões feito por Flávio a Vorcaro.

O caso, portanto, deixou de ser apenas uma questão financeira.

Transformou-se em um dos temas da disputa eleitoral.

A resposta dos bolsonaristas

A defesa política de Flávio Bolsonaro é que o dinheiro foi utilizado para uma produção cinematográfica privada e que a prestação de contas demonstra isso.

A perícia contratada pela produtora é apresentada como principal argumento.

A conclusão de que não houve identificação de dinheiro público ajuda a enfraquecer uma das acusações mais diretas contra a produção.

Mas a oposição continua questionando a falta de transparência sobre a origem do dinheiro antes de chegar ao Havengate.

O caso chega ao Supremo

A disputa também alcançou o Supremo Tribunal Federal.

A defesa de Karina Gama e da produtora GoUp pediu ao ministro André Mendonça que suspendesse a investigação conduzida em São Paulo e levasse o caso para o STF.

A alegação é de que parte dos fatos já está relacionada a investigações sob competência da Suprema Corte.

Enquanto isso, o ministro Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a acessar provas obtidas pela Polícia Civil de São Paulo.

O movimento demonstra que o caso deixou de ser uma investigação exclusivamente estadual.

Uma conclusão importante, mas não definitiva

O laudo da GoUp representa uma informação relevante.

Até onde a perícia conseguiu verificar, não foi encontrada utilização de dinheiro público na produção de “Dark Horse”.

Essa conclusão deve ser registrada e considerada no debate.

Mas também é preciso registrar a segunda parte da história.

O perito não auditou o Havengate.

Não investigou como o fundo foi abastecido.

Não examinou toda a cadeia financeira anterior aos repasses feitos para a produtora.

Portanto, a perícia não consegue responder integralmente à pergunta mais ampla:

de onde veio todo o dinheiro que financiou o filme?

A diferença entre “não encontrou” e “não existiu”

Essa distinção é essencial em qualquer investigação jornalística.

Dizer que a perícia não encontrou vínculo com dinheiro público é correto.

Dizer que a perícia provou definitivamente que jamais houve qualquer recurso público na cadeia financeira inteira seria uma conclusão mais ampla do que o próprio laudo permite.

Da mesma maneira, afirmar que o dinheiro era necessariamente público seria igualmente incorreto.

O que existe hoje é uma conclusão técnica específica e uma investigação mais ampla ainda em andamento.

O que falta esclarecer

Ainda existem perguntas que permanecem abertas.

Qual foi exatamente a origem dos recursos que abasteceram o Havengate?

Qual foi o valor total efetivamente transferido para o fundo?

Quanto dinheiro Daniel Vorcaro colocou direta ou indiretamente na operação?

Quem eram os demais investidores?

O dinheiro utilizado no exterior teve a mesma origem dos recursos gastos no Brasil?

Houve recursos enviados para outras finalidades além do filme?

Essas respostas não estão integralmente presentes no laudo apresentado pela produtora.

O impacto político

Para Flávio Bolsonaro, o resultado da perícia representa um argumento importante.

A conclusão de que não foi identificado dinheiro público no financiamento enfraquece a narrativa de que o filme teria sido bancado diretamente por recursos públicos.

Mas o caso não desaparece.

A relação com Daniel Vorcaro permanece documentada.

O pedido de R$ 61 milhões permanece no centro do debate.

O Havengate continua sendo questionado.

E a origem dos recursos do fundo permanece como uma questão relevante para os investigadores.

Por isso, politicamente, a história está longe de ser encerrada.

O verdadeiro ponto de tensão

“Dark Horse” não é apenas um filme.

Tornou-se um caso sobre dinheiro, política, empresários, fundos de investimento, relações familiares e eleições.

A perícia agora oferece uma resposta para uma parte da controvérsia: não identificou dinheiro público na produção analisada.

Mas deixa outra pergunta em aberto: qual foi a origem do dinheiro privado que chegou ao filme por meio do Havengate?

É essa segunda pergunta que continuará alimentando a investigação.

O que os documentos permitem afirmar

Até o momento, é possível afirmar que:

  • a GoUp Entertainment contratou uma perícia financeira para examinar os recursos utilizados na produção;
  • o laudo analisou despesas realizadas entre junho de 2025 e junho de 2026;
  • aproximadamente US$ 3,73 milhões foram gastos no Brasil;
  • aproximadamente US$ 9,66 milhões foram gastos nos Estados Unidos;
  • a perícia não identificou vínculo dos recursos analisados com dinheiro público, incentivos fiscais ou Lei Rouanet;
  • o fundo Havengate aparece como veículo de financiamento;
  • Daniel Vorcaro está ligado às negociações que resultaram nos repasses;
  • Flávio Bolsonaro reconheceu ter pedido recursos a Vorcaro;
  • a perícia não auditou a origem dos recursos dentro do Havengate;
  • investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal continuam em andamento.

Um capítulo ainda aberto

O laudo muda parte do debate sobre “Dark Horse”.

A acusação de que o filme teria sido financiado diretamente com dinheiro público não encontrou respaldo na perícia contratada pela produtora.

Mas isso não encerra a investigação.

A origem dos recursos privados continua sendo uma questão relevante, principalmente porque parte deles passou pelo Havengate e porque documentos já divulgados apontam para transferências relacionadas a Daniel Vorcaro.

O caso, portanto, exige duas coisas ao mesmo tempo: não acusar sem provas e não considerar encerrada uma investigação que ainda possui perguntas sem resposta.

A perícia oferece uma resposta importante.

Mas não oferece todas as respostas.

E, enquanto Polícia Federal, Polícia Civil e Justiça analisam documentos, transferências e relações financeiras, “Dark Horse” continua sendo muito mais do que uma produção cinematográfica: tornou-se um dos episódios mais controversos da disputa política e financeira que envolve o Banco Master, Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro e os bastidores da eleição de 2026.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags