
Daniel Vorcaro fala por quase quatro horas à Polícia Federal e sinaliza disposição para colaborar em investigação sobre servidores do Banco Central
Ex-controlador do Banco Master foi ouvido por videoconferência diretamente da Papudinha; depoimento ocorreu após adiamento por problemas técnicos e depois de propostas de delação premiada não avançarem
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro prestou nesta sexta-feira (28) um longo depoimento à Polícia Federal no inquérito que investiga a suspeita de que servidores do Banco Central teriam atuado em favor do Banco Master mediante o recebimento de vantagens financeiras.
A oitiva durou quase quatro horas. A videoconferência começou por volta das 10h30 e terminou aproximadamente às 14h20, segundo informações divulgadas sobre o depoimento. Vorcaro participou diretamente da Papudinha, unidade onde está preso preventivamente, no Distrito Federal.
O depoimento representa uma etapa importante das investigações porque, pela primeira vez desde sua prisão preventiva, o ex-controlador do Banco Master foi formalmente ouvido pela Polícia Federal sobre a relação que mantinha com integrantes do Banco Central.
A oitiva também ocorre em um momento particularmente delicado para Vorcaro: duas propostas anteriores de colaboração premiada não avançaram. Mesmo assim, informações divulgadas nesta sexta-feira indicam que o empresário demonstrou disposição para colaborar com os investigadores e apresentar informações sobre o funcionamento do esquema que está sendo apurado.
O depoimento começou depois de um problema técnico
A história desta oitiva começou na quinta-feira (27).
Vorcaro deveria prestar depoimento naquele dia, também por videoconferência, diretamente da Papudinha.
O ex-banqueiro chegou a participar da conexão, mas problemas técnicos impediram que a audiência fosse realizada normalmente.
Segundo a defesa, a equipe aguardou até aproximadamente 12h30 pelo restabelecimento de uma conexão estável, mas isso não ocorreu.
A audiência acabou sendo remarcada para esta sexta-feira.
A nova tentativa finalmente funcionou.
Às 10h30, Vorcaro começou a responder às perguntas dos investigadores. Cerca de quatro horas depois, a oitiva foi encerrada.
O que a Polícia Federal quer saber
O foco principal da investigação está na relação de Daniel Vorcaro com dois ex-servidores do Banco Central: Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza.
Os dois são investigados sob suspeita de terem atuado em benefício do Banco Master durante um período de dificuldades financeiras e de fiscalização da instituição.
A Polícia Federal apura se os servidores teriam recebido vantagens indevidas e, em contrapartida, utilizado suas posições para favorecer interesses do banco.
Uma das linhas investigativas é verificar se Vorcaro recebeu informações privilegiadas sobre procedimentos internos do Banco Central e se funcionários da instituição funcionavam, na prática, como uma espécie de fonte interna para o banqueiro.
As suspeitas ainda são objeto de investigação.
As defesas dos servidores negam que eles tenham adotado medidas para favorecer o Banco Master.
Bellini Santana
Bellini Santana ocupou o cargo de chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central.
Sua posição é especialmente relevante para a investigação porque a área de supervisão acompanha a situação de instituições financeiras e pode ter acesso a informações sensíveis sobre a saúde e as operações dos bancos.
Segundo os elementos investigativos divulgados, Bellini é suspeito de ter mantido uma relação próxima com Vorcaro e de ter atuado como uma espécie de consultor do empresário dentro do Banco Central.
A defesa, contudo, sustenta que não houve favorecimento ilícito.
A apuração da PF deverá buscar determinar se os contatos eram decorrentes de atividade funcional legítima ou se ultrapassaram os limites da função pública.
Paulo Sérgio Neves de Souza
O outro personagem central é Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central.
A investigação atribui a ele uma relação ainda mais próxima com Vorcaro.
Informações reunidas pela Polícia Federal indicam que Paulo Sérgio teria atuado em favor dos interesses do Banco Master e mantido contato frequente com o banqueiro.
Reportagens sobre o caso chegaram a descrevê-lo como uma espécie de “empregado” de Vorcaro dentro do Banco Central.
A expressão, entretanto, é uma caracterização jornalística baseada nos elementos da investigação e não uma conclusão judicial definitiva.
Paulo Sérgio também está afastado das funções.
O que Vorcaro pode revelar
É justamente nesse ponto que o depoimento desta sexta-feira ganha importância.
A Polícia Federal quer ouvir a versão do próprio Daniel Vorcaro.
O ex-banqueiro estava no centro das relações investigadas e pode esclarecer como funcionavam seus contatos com servidores do Banco Central, quem participava das conversas, quais informações eram discutidas e se houve pagamentos ou outras vantagens.
Os investigadores também querem compreender se Vorcaro tinha conhecimento de eventual atuação irregular de servidores públicos.
Caso ele apresente documentos, mensagens, registros financeiros ou informações capazes de confirmar outros elementos já encontrados pela investigação, o depoimento poderá abrir novas frentes de apuração.
A sombra da delação premiada
A possibilidade de colaboração tornou-se um dos elementos mais importantes do depoimento.
A defesa de Vorcaro já havia tentado negociar um acordo de delação premiada.
As propostas, porém, não prosperaram.
Segundo as informações divulgadas, tanto a Polícia Federal quanto a Procuradoria-Geral da República rejeitaram formalmente duas propostas anteriores.
Isso não significa que Vorcaro esteja impedido de tentar uma nova negociação.
Uma eventual colaboração precisaria apresentar informações relevantes, úteis e verificáveis para as investigações.
Não basta confessar fatos já conhecidos.
Para que uma delação seja considerada efetiva, o colaborador precisa fornecer elementos capazes de produzir resultados concretos, como identificar outros envolvidos, revelar operações desconhecidas, localizar recursos ou apresentar provas que permitam avançar nas investigações.
Por que o depoimento pode ser importante
A diferença desta vez está no conteúdo que Vorcaro eventualmente esteja disposto a apresentar.
Se o ex-banqueiro apenas negar as acusações, o depoimento terá valor para registrar sua versão dos fatos, mas dificilmente provocará uma mudança radical na investigação.
Se, ao contrário, ele apresentar informações novas e documentos que possam ser confirmados pela PF, o cenário poderá mudar.
É justamente por isso que a disposição atribuída ao empresário para colaborar chama atenção.
Uma colaboração efetiva poderia atingir não apenas servidores do Banco Central, mas eventualmente outras pessoas que tenham participado de operações envolvendo o Banco Master.
Até o momento, contudo, não é possível afirmar que Vorcaro tenha fechado um acordo de delação.
Disposição para colaborar não significa delação premiada formalizada.
Essa diferença é fundamental.
O Banco Master no centro da crise
O depoimento não pode ser analisado isoladamente.
Ele faz parte de uma investigação muito maior sobre a trajetória do Banco Master e as operações que levaram a instituição a uma situação de grave crise.
O banco passou a ser alvo de investigações relacionadas a operações financeiras suspeitas e à atuação de diferentes agentes públicos e privados.
O Banco Master acabou entrando em processo de liquidação em novembro de 2025, e as investigações posteriores passaram a examinar como a instituição operava, quais ativos possuía e quais relações havia estabelecido com outras instituições financeiras e autoridades.
Daniel Vorcaro, como controlador do banco, tornou-se uma das principais figuras investigadas.
O Banco Central entra no foco
A investigação sobre Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza acrescenta uma dimensão institucional ao caso.
Não se trata apenas de investigar possíveis irregularidades cometidas dentro de uma instituição privada.
A Polícia Federal também tenta descobrir se agentes públicos teriam sido corrompidos ou utilizados para proteger interesses particulares.
É uma questão especialmente sensível porque o Banco Central exerce uma função de fiscalização e regulação do sistema financeiro.
Se servidores realmente tivessem atuado para favorecer uma instituição sob fiscalização, isso representaria uma quebra grave dos deveres funcionais.
Mas essa conclusão ainda depende da investigação e de eventual responsabilização judicial.
A prisão de Vorcaro
Daniel Vorcaro está preso preventivamente na Papudinha, no Distrito Federal.
Foi dali que participou da audiência desta sexta-feira.
A prisão preventiva não equivale a uma condenação.
Trata-se de uma medida cautelar determinada pela Justiça durante a investigação.
A situação jurídica do empresário, portanto, deve ser diferenciada das suspeitas investigadas pela Polícia Federal.
O depoimento desta sexta-feira também não representa uma confissão.
É uma etapa formal de investigação na qual o investigado apresenta sua versão dos acontecimentos.
O novo time de defesa
O momento também coincide com uma mudança na estratégia jurídica de Vorcaro.
O empresário passou a contar com uma nova equipe de advogados, entre eles Sérgio Leonardo, Daniel Bialski, Bruno Borragine e André Bialski.
A nova defesa participa das discussões relacionadas ao depoimento e às tentativas de colaboração.
A estratégia parece estar concentrada em duas frentes: apresentar a versão de Vorcaro sobre as acusações e avaliar a possibilidade de uma colaboração com as autoridades.
O que a PF deverá confrontar
Durante um depoimento dessa natureza, os investigadores não dependem apenas das respostas do investigado.
A PF já dispõe de documentos, mensagens, informações bancárias e outros elementos reunidos durante a investigação.
A função do interrogatório é confrontar esses dados com a narrativa apresentada pelo investigado.
Se Vorcaro disser que determinado contato ocorreu por uma razão legítima, os investigadores poderão comparar sua versão com mensagens, registros telefônicos ou documentos.
Se negar determinado pagamento, a PF poderá confrontar a declaração com informações financeiras.
É esse cruzamento que determinará a importância prática do depoimento.
A possibilidade de novas revelações
Um dos maiores interesses dos investigadores está justamente na possibilidade de Vorcaro explicar como funcionavam suas relações dentro do Banco Central.
Se ele confirmar que recebia informações privilegiadas, será necessário identificar quem fornecia essas informações, quando elas foram repassadas e qual era o objetivo.
Se admitir pagamentos, a investigação terá de rastrear a origem e o destino dos recursos.
Se apresentar nomes de outras pessoas, esses nomes precisarão ser confrontados com documentos e demais provas.
E se negar tudo, a PF terá de verificar se sua versão é compatível com os elementos já reunidos.
Um caso que pode se ampliar
O Banco Master já provocou investigações que alcançam diferentes instituições e pessoas.
A própria Polícia Federal investiga operações relacionadas a outras instituições financeiras e recentemente apontou suspeitas envolvendo dirigentes do Banco de Brasília (BRB).
A apuração sobre o Master, portanto, está longe de ser um episódio restrito à relação entre Daniel Vorcaro e dois servidores do Banco Central.
Quanto mais documentos forem analisados, maior poderá ser o número de personagens envolvidos ou citados nas investigações.
O fator político
O caso também ganhou dimensão política.
Daniel Vorcaro aparece em diferentes investigações e relações políticas que passaram a ser exploradas no debate eleitoral de 2026.
Ao mesmo tempo, investigações envolvendo pessoas próximas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ex-presidente Jair Bolsonaro aumentaram a pressão sobre a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal.
O próprio diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou nesta sexta-feira que a instituição atua com autonomia, imparcialidade e foco técnico, sem proteger ou perseguir indivíduos.
A declaração ocorre em meio a críticas sobre vazamentos e disputas em torno de diferentes investigações.
O que acontece agora
O depoimento terminou por volta das 14h20.
Agora, os investigadores deverão comparar as declarações de Vorcaro com os elementos já reunidos.
Caso tenham sido apresentadas informações novas, a PF poderá abrir diligências para verificar sua autenticidade.
Também poderá ouvir novamente servidores, empresários ou outras pessoas mencionadas durante a oitiva.
Se surgirem documentos ou informações relevantes, o inquérito poderá ganhar novos capítulos.
E, se a defesa voltar a apresentar uma proposta de colaboração premiada, PF e Ministério Público terão de avaliar se o conteúdo oferecido atende aos requisitos legais.
O ponto decisivo
O depoimento de quase quatro horas não significa, por si só, que Daniel Vorcaro tenha conseguido um acordo de delação.
Também não significa que todas as acusações contra ele tenham sido comprovadas.
O que existe, neste momento, é um investigado que decidiu falar durante horas diante da Polícia Federal, depois de duas tentativas de colaboração premiada não terem avançado.
A partir de agora, a importância do depoimento dependerá menos da duração da conversa e mais da qualidade das informações fornecidas.
Se Vorcaro tiver apenas versões defensivas, o efeito será limitado.
Se tiver documentos, nomes, registros e informações novas capazes de serem confirmadas, o depoimento poderá representar uma virada importante no caso.
A investigação entra em uma nova fase
O episódio desta sexta-feira coloca Daniel Vorcaro novamente no centro das investigações.
O ex-controlador do Banco Master falou durante quase quatro horas.
Falou da Papudinha.
Falou diante dos investigadores da Polícia Federal.
E falou em um momento em que sua defesa tenta encontrar uma saída jurídica depois de propostas anteriores de colaboração não terem prosperado.
Agora, cabe à investigação separar confissão de versão, informação de narrativa e acusação de prova.
O que Vorcaro disse poderá ter consequências importantes, mas somente a confirmação independente dos elementos apresentados poderá determinar o peso real de suas declarações.
Por enquanto, uma coisa é certa: o silêncio deixou de ser a principal estratégia de Daniel Vorcaro.
O ex-banqueiro falou — e agora a Polícia Federal terá de conferir, linha por linha, se aquilo que foi dito pode ajudar a revelar como funcionavam as relações entre o Banco Master, seus operadores e os servidores que deveriam fiscalizá-lo.