Perícia aponta que Dark Horse não recebeu dinheiro público e reforça defesa de Mário Frias e da produtora

Perícia aponta que Dark Horse não recebeu dinheiro público e reforça defesa de Mário Frias e da produtora

Laudo contratado pela defesa da produtora afirma ter rastreado os recursos utilizados na produção e não identificado repasses públicos, enquanto Polícia Federal ainda apura possíveis conexões financeiras

Uma perícia privada apresentada pela defesa de Karina Gama, produtora responsável pela Go Up Entertainment, aponta que o filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), não recebeu dinheiro público para sua produção.

De acordo com o laudo divulgado pelo Diário 360, os recursos utilizados na realização do longa teriam origem privada e os valores analisados seriam rastreáveis por meio da documentação financeira apresentada aos peritos. A perícia afirma não ter encontrado entradas de recursos provenientes de governos, emendas parlamentares, incentivos fiscais, Lei Rouanet ou patrocínios públicos.

O resultado representa um importante contraponto às suspeitas investigadas pela Polícia Federal, que apura se recursos de emendas parlamentares destinados ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, poderiam ter sido desviados ou posteriormente utilizados na produção do filme.

A existência de versões diferentes torna o caso ainda mais complexo.

O que diz a perícia

Segundo o laudo contratado pela defesa, os peritos analisaram documentos financeiros relacionados à produção e concluíram que não foram identificadas entradas de caixa provenientes de recursos públicos.

A perícia também afirma não ter encontrado recursos oriundos de repasses governamentais, incentivos fiscais ou patrocínios.

O trabalho aponta ainda que os recursos destinados à produção teriam origem privada, com parcela significativa dos valores movimentada por meio da estrutura internacional da Go Up Entertainment.

A produtora sustenta, portanto, que o filme foi financiado por investidores privados e que não houve utilização de dinheiro público.

Esse ponto é particularmente relevante porque uma das principais suspeitas levantadas pela investigação oficial é justamente a possibilidade de que dinheiro de emendas parlamentares tenha percorrido empresas intermediárias antes de chegar à produtora.

Os valores e a produção

Segundo informações divulgadas anteriormente sobre a perícia, o custo total de Dark Horse teria alcançado aproximadamente US$ 13,4 milhões, equivalentes a cerca de R$ 75 milhões, considerando a conversão utilizada no levantamento.

Desse montante, aproximadamente US$ 9,6 milhões teriam sido gastos nos Estados Unidos.

No Brasil, o custo teria sido de aproximadamente US$ 3,7 milhões, equivalentes a cerca de R$ 20,9 milhões.

A perícia analisou um período mais amplo das movimentações financeiras relacionadas ao projeto.

O levantamento buscou identificar a origem dos recursos utilizados na produção e estabelecer uma trilha documental para os pagamentos.

A versão da Polícia Federal

A investigação da Polícia Federal, entretanto, trabalha com outra linha de análise.

Dados do Coaf apontaram que a Go Up recebeu aproximadamente R$ 9 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período que coincide com as filmagens do longa no Brasil.

Desse total, cerca de R$ 3,9 milhões foram movimentados por meio de uma casa de câmbio.

Outros R$ 5,1 milhões teriam sido enviados por quatro remetentes localizados no Brasil:

  • GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, empresa ligada a Karina Gama — aproximadamente R$ 2,6 milhões;
  • Marcello de Oliveira Lopes, ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro — aproximadamente R$ 1 milhão;
  • NTT Brasil — aproximadamente R$ 750 mil;
  • Mário Frias — aproximadamente R$ 645 mil.

Esses valores são justamente parte da movimentação que está sendo examinada pela PF.

A questão dos R$ 750 mil

Um dos pontos centrais da investigação é uma transferência de aproximadamente R$ 750 mil da NTT Brasil para a Go Up Entertainment.

A PF identificou vínculos entre a NTT Brasil e empresas que haviam recebido recursos do Instituto Conhecer Brasil.

Segundo a investigação, duas empresas ligadas a fornecedores do ICB receberam aproximadamente R$ 700 mil provenientes de emendas parlamentares destinadas ao instituto.

Posteriormente, uma empresa relacionada a esse mesmo núcleo empresarial transferiu R$ 750 mil para a produtora de Dark Horse.

A PF considera essa sequência relevante para a investigação.

Mas existe uma ressalva fundamental: a própria Polícia Federal registrou que os elementos disponíveis não permitiam afirmar que os R$ 750 mil tinham origem direta nas emendas parlamentares. A corporação apontou as coincidências de valores, empresas e períodos como circunstâncias que precisavam ser analisadas.

É justamente nesse ponto que a perícia privada apresentada pela defesa tenta desmontar a suspeita.

Mário Frias também aparece na movimentação

O deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e produtor executivo do filme, também aparece nas movimentações financeiras.

Segundo os dados divulgados pela investigação, Frias transferiu aproximadamente R$ 645 mil para a Go Up Entertainment.

A PF questionou a capacidade financeira para realizar os repasses, considerando que os rendimentos mensais declarados do parlamentar seriam de aproximadamente R$ 44 mil.

Frias, entretanto, nega irregularidades e afirma que os recursos utilizados no projeto são privados.

O deputado também criticou a operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, classificando-a como uma espécie de “cortina de fumaça” e questionando a motivação da investigação em período eleitoral.

Flávio Bolsonaro também nega uso de dinheiro público

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou das negociações para obtenção de financiamento para Dark Horse e afirmou reiteradamente que o filme foi financiado com recursos privados.

Em declarações recentes, Flávio classificou a operação da PF como política e afirmou que não havia dinheiro público na produção.

A investigação, contudo, continua analisando as movimentações financeiras relacionadas ao projeto.

Flávio não é alvo da investigação específica que levou às buscas contra Mário Frias e Karina Gama, embora apareça em outra apuração relacionada ao financiamento do filme.

A crítica à narrativa de condenação antecipada

É justamente nesse ponto que surge uma questão importante.

Uma coisa é investigar.

Outra completamente diferente é apresentar uma suspeita como se já fosse uma conclusão definitiva.

A perícia apresentada pela defesa afirma que não encontrou dinheiro público na produção de Dark Horse. A Polícia Federal, por sua vez, identificou movimentações que considera suspeitas e continua tentando estabelecer a origem dos recursos.

As duas informações precisam ser apresentadas ao público.

Não é correto esconder a investigação oficial.

Mas também não é correto ignorar uma perícia financeira que, segundo seus responsáveis, analisou os documentos da produção e chegou a uma conclusão favorável à defesa.

E Flávio Dino?

O caso também coloca novamente o ministro Flávio Dino, do STF, no centro de uma discussão política.

Foi Dino quem autorizou a operação que atingiu Mário Frias e determinou medidas relacionadas à investigação.

O ministro também levantou o sigilo de parte dos documentos do caso, afirmando que a publicidade seria necessária para evitar uma divulgação seletiva das informações.

A crítica que pode ser feita à atuação de Dino é justamente sobre a necessidade de extremo cuidado para que uma investigação não seja confundida com uma condenação pública.

Quando uma decisão judicial apresenta uma hipótese investigativa como possibilidade de uma “arquitetura criminosa”, existe o risco de a opinião pública interpretar a suspeita como fato consumado.

No caso de Dark Horse, entretanto, ainda existem perguntas sem resposta definitiva.

A PF precisa demonstrar, documentalmente, se houve ou não utilização indireta de recursos públicos.

E, se a perícia privada estiver correta, a investigação precisará explicar por que as movimentações financeiras identificadas não representam dinheiro público chegando ao filme.

O ponto central da controvérsia

O debate agora está justamente na origem dos recursos.

De um lado, a defesa afirma:

“O filme foi financiado com dinheiro privado.”

De outro, a Polícia Federal investiga se determinados recursos que passaram por empresas relacionadas ao Instituto Conhecer Brasil poderiam ter origem em emendas parlamentares.

Até o momento, a existência dessas movimentações não permite concluir automaticamente que Dark Horse tenha sido financiado com dinheiro público.

Também não permite afirmar que a perícia privada encerrou a investigação.

São questões que precisam ser confrontadas com documentos, extratos, contratos, notas fiscais e demais provas.

Conclusão

A nova perícia representa uma importante peça de defesa para Karina Gama, Mário Frias e os demais envolvidos na produção de Dark Horse.

O laudo afirma que os recursos destinados ao filme eram privados e que não foram encontrados repasses públicos, incentivos governamentais ou dinheiro proveniente da Lei Rouanet.

Ao mesmo tempo, a Polícia Federal continua investigando movimentações financeiras que considera relevantes e possíveis conexões entre recursos de emendas, empresas relacionadas ao ICB e a produtora do filme.

Portanto, o caso ainda não terminou.

Mas uma coisa é fundamental: suspeita não é prova, investigação não é condenação e uma operação policial não substitui a apresentação das evidências.

Se houve desvio de dinheiro público, que os responsáveis sejam identificados e punidos.

Se não houve, que isso também seja reconhecido publicamente.

No fim das contas, a melhor resposta para o caso Dark Horse não será dada por narrativas políticas de direita ou esquerda.

Será dada pelos documentos

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