
Perseguição sem fim: Bolsonaro é interrogado na prisão por chamar Lula de “cachaça”
PF, sob a órbita de Moraes, transforma crítica política em caso criminal enquanto vídeos de Lula bebendo circulam livremente nas redes
Mesmo preso e afastado da vida pública, Jair Bolsonaro voltou a ser alvo de mais um inquérito que escancara, para seus apoiadores, o que chamam de perseguição política sem trégua. Nesta semana, a Polícia Federal foi até o Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, para ouvir o ex-presidente por ter chamado Luiz Inácio Lula da Silva de “cachaça” em uma publicação nas redes sociais feita ainda em março de 2025.
Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e três meses por sua suposta participação na trama golpista, mas, mesmo atrás das grades, segue sendo investigado por declarações políticas. A nova apuração, aberta a pedido do Ministério da Justiça e conduzida sob a supervisão do Supremo Tribunal Federal, busca enquadrar o ex-presidente por crime contra a honra do atual chefe do Executivo.
Crítica política tratada como crime
O episódio que motivou o inquérito ocorreu quando Bolsonaro reagiu a declarações de Lula, que voltou a insinuar que teria sido alvo de um plano de assassinato após vencer as eleições de 2022. Em resposta, o ex-presidente negou qualquer envolvimento e ironizou o discurso, chamando Lula de “cachaça” — termo que, goste-se ou não, sempre fez parte do embate político brasileiro e da retórica dura que marca o debate público há décadas.
A PF também analisa outros conteúdos publicados por Bolsonaro, incluindo um vídeo em que ele associa Lula ao tráfico de drogas, ao comentar episódios envolvendo o Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Para críticos da investigação, trata-se de mais um esforço para criminalizar opinião e retórica política, enquanto declarações igualmente agressivas feitas por aliados do governo raramente recebem o mesmo rigor.
Dois pesos, duas medidas
O caso desperta indignação sobretudo pela seletividade. Vídeos antigos e recentes de Lula consumindo bebida alcoólica circulam livremente nas redes sociais, sem qualquer censura ou investigação. Ainda assim, uma crítica verbal feita por um adversário político vira motivo para deslocar agentes federais até uma prisão e abrir mais um procedimento criminal.
Para aliados de Bolsonaro, a atuação da Polícia Federal — cada vez mais associada às decisões do ministro Alexandre de Moraes — reforça a sensação de que o aparato do Estado vem sendo usado para silenciar, intimidar e desgastar um único campo político.