
“Pior que a Gestapo”: Câmara debate “Vaza Toga” e acusa Moraes de comandar aparato secreto de vigilância
Audiência pública reúne parlamentares, advogados e jornalista americano para denunciar suposta estrutura paralela no TSE voltada a monitorar e perseguir opositores políticos.
A Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados se transformou, nesta quinta-feira (7), em palco para um embate explosivo. O tema foi o chamado “Vaza Toga”, um conjunto de supostas mensagens e documentos que, segundo aliados de Jair Bolsonaro, revelaria um esquema de investigações clandestinas envolvendo os atos de 8 de janeiro.
A audiência contou com a presença de parlamentares, advogados e do jornalista americano Michael Shellenberger, que recentemente divulgou diálogos atribuídos a membros do Judiciário brasileiro. O material indicaria que, dentro do Tribunal Superior Eleitoral, teria sido montada uma estrutura sigilosa para vasculhar redes sociais e produzir dossiês contra investigados — supostamente por motivação política.
De acordo com Shellenberger e com os jornalistas David Ágape e Eli Vieira, as postagens coletadas, muitas delas críticas ao STF e às urnas eletrônicas, teriam sido anexadas aos processos sem que as defesas fossem avisadas. As mensagens vazadas sugerem ainda que Cristina Kusahara, chefe de gabinete de Alexandre de Moraes no STF, teria dito que só liberaria investigados após o grupo examinar suas publicações nas redes.
O relatório menciona também Eduardo Tagliaferro, ex-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED), preso em 2023 por violência doméstica, apontado como um dos responsáveis pela varredura digital. Ele teria atuado, inclusive, no uso do banco de dados biométrico do TSE, o GestBio, para cruzar imagens e identificar suspeitos, relacionando-os a perfis online.
Para o advogado Jeffrey Chiquini, que defende Filipe Martins, ex-assessor de Bolsonaro, o caso seria um exemplo de “perseguição política com aparência de legalidade”. Ele comparou a prática a métodos autoritários: “É muito caro politicamente derrubar um avião ou eliminar fisicamente um opositor. A nova forma de perseguição é fabricar um processo criminal para dar aparência de legitimidade.”
Shellenberger foi além e defendeu a anulação de todos os processos ligados ao 8 de janeiro, com anistia aos réus.
Quem elevou o tom foi o senador Flávio Bolsonaro, acusando Moraes de agir “fora da lei” e afirmando que o esquema seria “pior que a Gestapo” — a temida polícia política nazista. Segundo ele, parte da imprensa brasileira teria ignorado o caso por medo de retaliações do ministro. “Ele diz que está salvando a democracia, mas está destruindo-a. Se estivesse certo, por que não consegue andar nas ruas ou entrar em um restaurante?”, provocou.
Flávio também defendeu Tagliaferro, dizendo que ele apenas seguiu ordens e guardou provas “por orientação divina”.
O deputado Alexandre Ramagem, também réu nos processos do 8 de janeiro, acusou o STF de desrespeitar o devido processo legal. “Não respeita o juiz natural, a competência de primeira instância, a ampla defesa… não respeitam nada”, afirmou.
A audiência aconteceu em meio à pressão para que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, leve a votação o pedido de impeachment de Moraes, que já reúne 41 assinaturas. Apesar disso, Alcolumbre declarou que não colocará o assunto em pauta e que não aceitará “intimidações ou tentativas de constrangimento”.