
Quatro meses de silêncio: quem desviou bilhões do INSS continua sem nome e sem rosto
Apesar das provas, das operações e do escândalo nacional, responsáveis por fraudes bilionárias contra aposentados ainda não foram identificados — e especialistas apontam falta de vontade política
Já se passaram quatro meses desde que a Polícia Federal revelou uma das maiores fraudes da história do INSS — um esquema que drenou R$ 6,3 bilhões dos benefícios de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024. Mesmo com mandados de busca e apreensão cumpridos em 13 estados e no Distrito Federal, ninguém foi formalmente responsabilizado até agora.
A Operação Sem Desconto, como foi batizada, escancarou um sistema que se aproveitou de associações e sindicatos para aplicar descontos indevidos, sem consentimento dos segurados. O então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, caiu. Três servidores foram afastados. O estrago está feito. Mas os nomes por trás da engrenagem continuam no escuro.
Complexidade ou omissão?
Especialistas ouvidos pelo R7 reconhecem que o esquema é complexo: envolve quebra de sigilos bancários e fiscais, uso de laranjas, contratos com entidades de fachada e até suspeitas de envolvimento de figuras políticas com foro privilegiado. Mas a demora na responsabilização vai além da burocracia. Para muitos, falta vontade política e coragem institucional.
“A gente já tem movimentações financeiras suspeitas, conexões com políticos, evidências de contratos irregulares. Mas ninguém é diretamente responsabilizado. Estamos lidando com os sintomas, não com a raiz do problema”, afirma a advogada Lisiane Ribeiro.
Ela também destaca outro desafio: muitas das autorizações usadas para justificar os descontos eram genéricas e assinadas por engano. “Provar que a vítima não deu consentimento real é uma batalha jurídica por si só.”
Blindagem e impunidade
O presidente da Abradeb (Associação Brasileira de Defesa dos Clientes e Consumidores de Operações Financeiras e Bancárias), Raimundo Nonato, alerta para a existência de obstáculos processuais, principalmente quando há suspeita de envolvimento de autoridades. “É um crime que envolve grandes interesses, estruturas de poder e agentes com prerrogativas especiais. Isso cria um ambiente de blindagem.”
A lentidão nos indiciamentos alimenta suspeitas de que a proteção a nomes influentes está atrasando os desdobramentos do caso. Enquanto isso, o ressarcimento das vítimas segue em ritmo lento. Apenas 40% dos aposentados aptos aderiram ao acordo até agora.
CPMI travada no Congresso
Em maio, a oposição tentou instalar uma CPMI para investigar os descontos ilegais. A comissão chegou a ser lida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, mas os trabalhos estão emperrados. A definição dos nomes dos membros virou disputa política, especialmente após medidas cautelares contra Bolsonaro colocarem a pauta da oposição em modo de espera.
A presidência da comissão deve ficar com o senador Omar Aziz (PSD-AM), e a relatoria, com um deputado ainda a ser definido. O PL quer Nikolas Ferreira (MG) no posto, mas nada foi fechado.
A promessa do reembolso
Enquanto os culpados seguem incógnitos, o Ministério da Previdência iniciou o pagamento dos ressarcimentos nesta quinta-feira (24). Os valores, corrigidos pelo IPCA, serão depositados diretamente nas contas dos aposentados prejudicados — sem necessidade de novo cadastro bancário. O pedido deve ser feito via aplicativo Meu INSS ou nos Correios.
Apesar do avanço, o sentimento entre as vítimas é de abandono: foram enganadas por anos e, agora, precisam confiar em um sistema que ainda não nomeou seus algozes.