
Raquel Lyra muda o tom e se aproxima de Lula em ano decisivo
Governadora de Pernambuco recalcula rota política, sinaliza apoio ao presidente e aceita perder espaço no eleitorado bolsonarista
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, dá sinais claros de que entrou em uma nova fase política. Diferente da postura cautelosa adotada em 2022, ela agora avalia declarar apoio ao presidente Lula na disputa nacional, mesmo que isso signifique abrir mão de parte do eleitorado conservador no estado.
A mudança de rumo está diretamente ligada à sua filiação ao PSD. Nos bastidores, aliados afirmam que a ida para a sigla foi costurada com uma garantia fundamental: liberdade para caminhar politicamente ao lado de Lula no plano nacional, sem amarras partidárias formais. O partido, comandado por Gilberto Kassab, até pode lançar nome próprio ao Planalto, mas não deve embarcar oficialmente na candidatura petista.
Na prática, o desenho que se forma é um acordo informal: Raquel declara apoio a Lula, mas sem o carimbo institucional do PSD. Um gesto calculado, que tenta equilibrar interesses locais e nacionais.
O contraste com 2022 é evidente. Naquele ano, ainda filiada ao PSDB, Raquel adotou uma neutralidade estratégica, evitando ataques e apoios explícitos. Assim, manteve diálogo aberto tanto com eleitores de Lula quanto com os de Jair Bolsonaro, então candidato à reeleição.
Agora, o cenário mudou. Sem Bolsonaro na disputa, a governadora avalia que o capital eleitoral de Flávio Bolsonaro não tem o mesmo peso que o do pai teve quatro anos atrás. Isso abriu espaço para um reposicionamento mais claro.
Nos últimos meses, Raquel tem intensificado gestos públicos de aproximação com Lula: agendas conjuntas, fotos oficiais e aparições lado a lado. O objetivo é duplo — fortalecer pontes com o Planalto e reduzir o risco de interferência federal na disputa estadual.
Mas o movimento não é isento de tensão. Em Pernambuco, o PT tende a apoiar formalmente o prefeito do Recife, João Campos, do PSB, principal adversário de Raquel na corrida pelo governo estadual.
A recente imagem dos dois no mesmo espaço durante o Carnaval, ao lado de Lula, foi lida nos bastidores como sinal de desconforto e disputa silenciosa por espaço político. Interlocutores avaliam que o presidente só manterá neutralidade em Pernambuco se houver um gesto explícito da governadora em seu favor. Sem isso, Lula teria poucos motivos para se afastar da disputa local.
No fim das contas, Raquel Lyra parece apostar que o alinhamento nacional com Lula pode pesar mais do que a perda de um eleitorado que, aos poucos, já não tem o mesmo protagonismo de eleições passadas.