
Réu do 8 de Janeiro morre aos 63 anos antes de acompanhar o desfecho do processo no STF
Ronaldo Édison Richard morreu em Santa Rosa (RS), após um suposto infarto; denunciado pela PGR por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro, ele respondia ao processo em liberdade e negava ter financiado a caravana que levou manifestantes a Brasília
Ronaldo Édison Richard, de 63 anos, morreu na segunda-feira, 10 de agosto de 2026, em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul. Ele era réu em uma ação que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposta participação nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Segundo as informações divulgadas pela Associação de Familiares e Vítimas do 8/1 (Asfav) e reproduzidas por veículos de imprensa, a causa da morte teria sido um infarto.
Ronaldo respondia ao processo em liberdade e morreu antes de conhecer o resultado definitivo da ação judicial que havia marcado os últimos anos de sua vida.
A morte acrescenta mais um capítulo ao complexo e ainda controverso conjunto de processos relacionados aos atos de 8 de janeiro. No caso de Ronaldo, havia uma divergência central entre a acusação e a defesa: enquanto a Procuradoria-Geral da República (PGR) sustentava que ele havia contribuído financeiramente para uma caravana que levou um participante dos ataques a Brasília, seus advogados negavam que ele tivesse financiado a viagem.
Denúncia da Procuradoria-Geral da República
Ronaldo foi denunciado pela PGR no ano anterior à sua morte. A denúncia foi posteriormente recebida pelo STF, fazendo com que ele passasse à condição de réu.
Segundo a acusação apresentada ao Supremo, ele responderia por crimes relacionados à suposta participação na articulação que antecedeu os atos de 8 de janeiro.
Entre os crimes atribuídos a ele estavam:
- golpe de Estado;
- associação criminosa;
- dano ao patrimônio público;
- depredação do patrimônio público.
A acusação tinha como um dos principais elementos a suspeita de que Ronaldo teria participado do financiamento de uma caravana que saiu do Rio Grande do Sul em direção a Brasília.
Segundo a versão apresentada pela PGR, ele teria pago a viagem de pelo menos um dos integrantes da excursão. Esse participante teria chegado à capital federal e posteriormente participado dos ataques às sedes dos Três Poderes.
A acusação, portanto, procurava estabelecer uma ligação entre a atuação atribuída a Ronaldo e a mobilização de pessoas que viajaram para Brasília durante o período que antecedeu os ataques.
Mas essa versão foi contestada pela defesa.
Defesa negava financiamento da caravana
Os advogados de Ronaldo apresentaram ao STF uma versão diferente dos acontecimentos.
A defesa negava que ele tivesse financiado a chamada excursão golpista.
Segundo os defensores, Ronaldo teria apenas assinado uma autorização necessária para que um ônibus deixasse uma garagem.
Ou seja, a defesa sustentava que o ato atribuído ao empresário não representava financiamento da viagem nem participação na organização dos atos de 8 de janeiro.
Os advogados também ressaltavam que Ronaldo era réu primário e possuía bons antecedentes.
A diferença entre as duas versões era fundamental para o processo.
De um lado, a acusação buscava demonstrar que a autorização e a participação atribuídas a Ronaldo estavam relacionadas à mobilização de pessoas que seguiram para Brasília.
De outro, a defesa sustentava que a assinatura de uma autorização administrativa não poderia ser interpretada como prova de financiamento ou participação em uma conspiração para atacar as instituições.
Como o processo ainda estava em andamento, Ronaldo não havia recebido uma decisão final sobre sua responsabilidade pelos fatos quando morreu.
Morreu antes de conhecer o desfecho
A morte ocorreu enquanto o processo ainda estava pendente de desfecho.
Esse aspecto foi destacado pela Asfav, que divulgou uma nota lamentando a morte de Ronaldo.
A entidade classificou-o como mais uma pessoa ligada aos acontecimentos de 8 de janeiro que morreu enquanto aguardava uma definição da Justiça.
Em sua manifestação, a associação afirmou que Ronaldo partiu sem poder acompanhar o resultado de um processo que, segundo a entidade, havia provocado profundas consequências para ele e sua família.
A Asfav também manifestou solidariedade aos familiares e amigos.
A associação afirmou ainda que continuará defendendo a memória e a dignidade das pessoas envolvidas nos processos relacionados ao 8 de janeiro.
Uma morte que interrompe uma disputa judicial
O caso de Ronaldo apresenta uma característica importante do ponto de vista jurídico: a acusação existia, mas não havia uma condenação definitiva quando ele morreu.
Essa distinção é essencial.
Ser denunciado pela PGR e tornar-se réu significa que a acusação foi formalmente apresentada e que o processo foi admitido pela Justiça. Não significa, por si só, que o acusado tenha sido considerado culpado.
No caso de Ronaldo, a defesa continuava sustentando que ele não havia financiado a viagem e que sua participação havia sido interpretada de maneira equivocada pela acusação.
Com a morte, o processo contra ele não poderá produzir uma condenação criminal em relação à sua pessoa, já que a responsabilidade penal é pessoal e se extingue com a morte do acusado.
O que permanece são os registros processuais, os argumentos apresentados pelas partes e a documentação relacionada à investigação.
O contexto do 8 de Janeiro
Os atos de 8 de janeiro de 2023 foram um dos episódios mais graves da história política recente do Brasil.
Naquele domingo, grupos de manifestantes que não aceitavam o resultado das eleições de 2022 invadiram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.
Os prédios foram depredados e diversos objetos, móveis, obras de arte e equipamentos foram danificados.
A resposta das instituições ocorreu em várias frentes.
A Polícia Federal abriu investigações; a PGR apresentou denúncias; e o STF passou a julgar centenas de pessoas acusadas de participação nos acontecimentos.
Os processos atingiram diferentes níveis de envolvimento atribuídos aos investigados.
Há casos de pessoas acusadas de executar diretamente a depredação, enquanto outras são investigadas ou processadas por suposto financiamento, organização, transporte ou apoio aos atos.
O processo de Ronaldo estava relacionado justamente a essa segunda dimensão: a suposta contribuição para o transporte de participantes até Brasília.
A questão do financiamento
A investigação sobre quem financiou caravanas para Brasília tornou-se uma das frentes importantes da apuração sobre os atos.
A lógica dos investigadores é identificar não apenas quem esteve fisicamente nos prédios públicos, mas também quem eventualmente teria ajudado a organizar ou financiar a mobilização.
No caso de Ronaldo, entretanto, a defesa contestava exatamente essa interpretação.
Para os advogados, a assinatura de uma autorização para que o ônibus deixasse uma garagem não equivaleria ao pagamento da viagem ou ao financiamento dos atos.
Essa divergência teria de ser analisada durante o processo, caso ele tivesse continuado.
A morte, porém, encerrou a possibilidade de uma conclusão judicial criminal contra Ronaldo.
A nota da Asfav
Ao comunicar o falecimento, a Associação de Familiares e Vítimas do 8/1 adotou um tom de pesar e destacou que Ronaldo morreu enquanto aguardava a conclusão do processo.
A entidade também afirmou que o caso havia afetado profundamente a vida do réu e de sua família.
A manifestação terminou com uma mensagem de solidariedade aos parentes e amigos.
A posição da associação, contudo, representa a perspectiva da própria entidade e não substitui a avaliação judicial das acusações feitas pela PGR.
Um processo que termina sem sentença
A morte de Ronaldo Édison Richard deixa uma situação juridicamente distinta daquela enfrentada pelos réus que chegaram a ser julgados e condenados pelo STF.
Ele morreu sem sentença definitiva que estabelecesse sua culpa pelos crimes atribuídos pela PGR.
Ao mesmo tempo, a acusação não desaparece da história do processo: permanecem os documentos, depoimentos, provas e argumentos que integravam a ação.
A defesa continuará registrada nos autos com sua contestação à versão apresentada pelo Ministério Público.
O episódio também evidencia a dimensão humana de processos que se prolongam por anos.
Para Ronaldo e sua família, a investigação e a ação penal deixaram de ser apenas um procedimento judicial. Tornaram-se parte da rotina familiar, das preocupações pessoais e da expectativa por uma decisão que nunca chegou a acompanhar.
Aos 63 anos, ele morreu em Santa Rosa, no interior do Rio Grande do Sul, antes de saber como a Justiça avaliaria definitivamente sua participação nos acontecimentos de 8 de janeiro.
E essa é a principal circunstância que marca o caso: não se trata da morte de alguém condenado definitivamente pelo STF, mas de um réu que morreu enquanto ainda respondia ao processo e sustentava, por meio de seus advogados, que não havia cometido os crimes que lhe eram atribuídos.