
Roberta Luchsinger apaga perfil após fala de Lula e transforma silêncio nas redes em novo capítulo da crise
Empresária e lobista retirou do ar sua conta em uma rede social depois de o presidente afirmar que não a conhecia e chamá-la de “pilantra”; medida chama atenção porque o perfil reunia fotografias com Lula e registros de sua trajetória pública
A Roberta Luchsinger, empresária e lobista que passou a ocupar posição central nas investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e pessoas próximas ao governo federal, apagou sua conta em uma rede social depois da repercussão das declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a sabatina da TV Globo.
A exclusão do perfil ocorreu depois de Lula afirmar que não conhecia Roberta, apesar de existirem fotografias publicadas anteriormente pela própria empresária nas quais os dois aparecem juntos. A reportagem do ND Mais informa que a conta foi posteriormente reativada com restrições aos comentários.
A atitude chamou atenção porque o perfil de Roberta Luchsinger não funcionava apenas como uma página pessoal. Ao longo dos anos, as redes sociais também serviram como um registro de sua circulação em ambientes políticos, empresariais e sociais. Entre as imagens que ganharam repercussão estão fotografias ao lado de Lula, inclusive uma registrada em 2022.
Nesse cenário, apagar a conta pode parecer um gesto simples. Politicamente, porém, tornou-se uma atitude carregada de significado.
O choque entre a declaração de Lula e as fotografias
O episódio começou a ganhar força quando Lula declarou durante o Jornal Nacional que não conhecia Roberta Luchsinger.
A afirmação produziu repercussão imediata porque havia imagens publicadas pela própria empresária mostrando os dois juntos.
Segundo levantamento divulgado pelo UOL, havia pelo menos três fotografias de Roberta com Lula em suas redes sociais. Uma delas foi feita em 2022, durante um encontro ligado à campanha do então candidato.
As fotografias, evidentemente, não provam que Lula e Roberta mantivessem amizade ou relacionamento político próximo. Uma fotografia demonstra que duas pessoas estiveram juntas em determinado momento, mas não esclarece, sozinha, qual era a natureza da relação.
É justamente aí que está a controvérsia.
A frase presidencial — “não conheço” — pode ser interpretada de maneira política ou pessoal. Aliados de Lula afirmam que ele poderia ter sido fotografado com Roberta sem saber quem ela era. Segundo relatos publicados pela imprensa, integrantes do PT sustentam que o presidente não teria sido formalmente apresentado à empresária e que somente depois das notícias passou a procurar informações sobre ela.
Roberta havia construído uma presença pública
A retirada do perfil ganhou ainda mais atenção porque Roberta Luchsinger já possuía uma presença pública antes de se tornar personagem das atuais investigações.
Em 2017, por exemplo, ela ganhou notoriedade ao anunciar que pretendia doar ao então ex-presidente Lula cerca de R$ 500 mil em dinheiro e bens, quando ele enfrentava o bloqueio de patrimônio decorrente da Operação Lava Jato.
Segundo reportagem publicada pela Gazeta do Povo, Roberta apareceu com um cheque ao portador de 28 mil francos suíços, além de objetos de luxo, dizendo que pretendia ajudar Lula. Ela também fez comentários irônicos sobre as investigações da Lava Jato.
Esse episódio mostra que a relação de Roberta com o universo político não começou agora.
Sua exposição pública antecede em vários anos a investigação atual.
Uma personagem que passou a chamar atenção da Polícia Federal
Hoje, entretanto, o nome de Roberta Luchsinger aparece por razões muito mais graves.
A Polícia Federal investiga sua atuação em apurações relacionadas a possíveis práticas de tráfico de influência e corrupção.
Mensagens atribuídas à empresária foram utilizadas para abrir três inquéritos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. As investigações analisam mensagens, viagens, pagamentos e contatos com pessoas que teriam interesse em negociar com órgãos do governo federal.
Segundo a interpretação apresentada pelos investigadores, Roberta teria atuado em conjunto com Lulinha e Fernando Bittar na interlocução de interesses privados perante órgãos públicos.
A defesa dos investigados contesta essa interpretação e nega irregularidades.
A questão do canabidiol
Um dos episódios analisados pela PF envolve uma proposta relacionada ao fornecimento de produtos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.
Roberta admitiu ter procurado o ex-chefe de gabinete presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, para pedir apoio à proposta.
Segundo ela, foi um erro recorrer ao então auxiliar de Lula.
A empresária também afirmou que poderia ter pedido ajuda a Lulinha para levar o assunto ao pai, mas disse que nunca fez isso.
Essa versão é relevante porque a investigação tenta justamente determinar qual era o papel de cada personagem e até que ponto relações pessoais foram utilizadas para tentar influenciar decisões administrativas.
A relação com Lulinha
Roberta afirma que sua amizade com Fábio Luís Lula da Silva é antiga e começou antes de Lula voltar à Presidência.
Segundo declaração dada ao g1, ela disse que Lulinha é seu amigo, afirmou que Renata, mulher dele, é sua melhor amiga e negou ter usado a proximidade para obter benefícios junto ao governo.
A Polícia Federal, porém, analisa as relações de maneira mais ampla.
Reportagem da Folha de S.Paulo afirma que os inquéritos foram abertos a partir de mensagens, viagens pagas e movimentações financeiras relacionadas à empresária. Os investigadores apontam, segundo o jornal, sinais de uma atuação coordenada em torno de interesses privados.
Isso não significa que a hipótese investigativa esteja comprovada judicialmente.
Ainda é necessário estabelecer o conteúdo, a finalidade e a legalidade de cada operação.
A palavra que agravou a crise: “pilantra”
A situação ficou ainda mais tensa quando Lula, diante de perguntas de César Tralli e Renata Vasconcellos, passou a falar diretamente sobre Roberta.
Em tom duro, o presidente chamou a empresária de “pilantra” ao questionar a credibilidade de mensagens e telefonemas apresentados como elementos da investigação.
O uso da palavra foi uma surpresa até mesmo dentro da equipe de campanha. Segundo apuração da Folha de S.Paulo, assessores esperavam uma postura crítica de Lula em relação a Roberta, mas não contavam com o termo, considerado arriscado politicamente.
A partir dali, a história ganhou uma dimensão pessoal.
Não era mais apenas uma discussão sobre documentos.
Era uma disputa entre duas narrativas.
O silêncio digital de Roberta
Foi depois dessa sequência de acontecimentos que Roberta Luchsinger retirou sua conta do ar.
Não está comprovado que ela tenha apagado o perfil exclusivamente por causa da declaração de Lula. Essa é uma interpretação associada à cronologia dos fatos.
O que está documentado é a sequência: Lula negou proximidade, fotografias antigas voltaram a circular, Roberta sofreu intensa exposição pública e, em seguida, o perfil desapareceu temporariamente.
Posteriormente, segundo a mesma reportagem, a conta foi reativada, mas com restrições nos comentários.
É uma mudança pequena na aparência.
Mas significativa na comunicação.
Quem antes exibia imagens, registros pessoais e momentos públicos passou a controlar mais rigidamente o acesso ao próprio conteúdo.
Apagar não significa admitir
É importante evitar conclusões precipitadas.
Apagar uma rede social não prova culpa.
Também não significa confissão.
Uma pessoa pode excluir seu perfil por inúmeros motivos: privacidade, pressão pública, orientação jurídica, segurança, ataques virtuais ou decisão pessoal.
No caso de Roberta, não há, nas informações disponíveis, uma declaração pública dela afirmando que eliminou o perfil para esconder provas ou documentos.
Essa interpretação seria especulativa.
O que pode ser analisado é o contexto.
E o contexto é excepcionalmente delicado.
O perfil também era um arquivo
Há, porém, uma dimensão jornalística importante.
Quando uma pessoa envolvida em uma investigação possui um perfil público repleto de fotografias e registros de encontros, as redes sociais acabam funcionando como um arquivo documental.
No caso de Roberta, imagens com Lula e outras personalidades ajudaram a reconstruir sua trajetória de relações públicas.
A exclusão temporária do conteúdo significa que parte desse arquivo deixou de ficar imediatamente disponível ao público.
Isso não altera o que já foi capturado, publicado ou preservado por veículos de comunicação.
Mas reduz a transparência espontânea.
A contradição política permanece
Mesmo com a retirada do perfil, a questão central não desapareceu.
Lula diz que não conhecia Roberta.
Existem fotografias de ambos.
Aliados do presidente afirmam que as fotos não significam que ele soubesse quem ela era.
Roberta afirma manter uma antiga amizade com Lulinha.
A PF investiga relações dela com pessoas próximas ao governo.
E agora a empresária restringiu sua exposição nas redes.
São fatos diferentes que precisam permanecer separados.
A versão da investigação
A investigação policial trata o caso de forma mais ampla do que o simples relacionamento social.
Segundo os investigadores, as mensagens e demais elementos reunidos indicariam uma tentativa coordenada de aproximar interesses privados de órgãos do governo.
As apurações envolvem propostas no Ministério da Saúde, relações empresariais e contatos com agentes públicos.
Esse é o ponto que precisa ser esclarecido.
Não basta determinar se Roberta esteve com Lula.
É necessário saber o que ela fez, para quem trabalhou, quais interesses representava, quais negócios tentou viabilizar e se algum agente público foi efetivamente influenciado ou beneficiado.
O papel de Marcola
Nesse quebra-cabeça também aparece Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, antigo chefe de gabinete de Lula.
A relação entre Roberta e Marcola inclui conversas sobre negócios e pagamentos que estão sob análise.
Marcola sustenta que os valores recebidos estavam ligados a um empréstimo pessoal.
A Polícia Federal investiga se havia outra finalidade.
Lula afirmou confiar no ex-assessor, mas admitiu que a relação com a empresária trouxe “suspeita” e “desconfiança” para o governo.
A diferença de tratamento incomoda
Esse contraste ajuda a entender por que a exclusão da rede social ganhou repercussão.
Lula defendeu Lulinha.
Disse confiar em Marcola.
Afirmou ter convicção da honestidade do senador Jaques Wagner, também citado no contexto das investigações do Banco Master.
Mas atacou frontalmente Roberta Luchsinger.
Para a empresária, segundo relatos publicados anteriormente, essa diferença de tratamento teria provocado forte reação emocional. O uso da palavra “pilantra” foi considerado particularmente agressivo.
Uma crise que agora acontece também nas redes
A política brasileira transformou as redes sociais em extensão das instituições.
Antes, uma fotografia precisava ser procurada em jornais.
Hoje, ela está no perfil do próprio personagem.
Antes, um discurso dependia de uma reportagem.
Hoje, pode ser publicado em tempo real.
Por isso, apagar uma conta também se tornou um ato político, ainda que não seja necessariamente essa a intenção de quem faz.
No caso de Roberta, o gesto foi imediatamente interpretado à luz da crise.
O que o silêncio pode significar
O silêncio digital pode representar cautela.
Pode ser uma estratégia jurídica.
Pode ser apenas uma reação ao excesso de exposição.
Mas também produz uma consequência involuntária: aumenta a curiosidade pública.
Quanto mais uma figura desaparece de seu próprio espaço de comunicação, maior tende a ser a atenção sobre aquilo que deixou para trás.
No caso de Roberta, as fotografias já haviam circulado.
As reportagens já haviam reconstruído parte de sua trajetória.
As investigações já estavam em andamento.
A exclusão do perfil não apaga nada disso.
O momento político
Tudo isso acontece em meio à campanha presidencial de 2026.
Lula disputa a reeleição.
Flávio Bolsonaro lidera o principal campo adversário.
O escândalo do Banco Master ganhou dimensão política.
As investigações relacionadas a Lulinha e Roberta entraram no debate eleitoral.
E cada novo detalhe passou a ser utilizado como argumento por um lado ou pelo outro.
Nesse ambiente, qualquer atitude de Roberta será imediatamente interpretada politicamente.
Observação em destaque
OBSERVAÇÃO: o fato de Roberta Luchsinger ter apagado temporariamente sua rede social não permite concluir, por si só, que ela estivesse tentando ocultar provas ou que tenha cometido qualquer irregularidade. A razão exata da retirada do perfil não foi estabelecida nas informações disponíveis. O que pode ser afirmado é que a exclusão ocorreu após a forte repercussão das declarações de Lula e das fotografias que a mostravam com o presidente, e que o perfil foi posteriormente reativado com restrição aos comentários.
A mulher que passou da fotografia à investigação
A trajetória recente de Roberta Luchsinger é emblemática da política brasileira contemporânea.
Ela já havia aparecido publicamente ao lado de Lula.
Anos depois, passou a ser investigada pela Polícia Federal.
Sua relação com Lulinha tornou-se objeto de apuração.
Seu contato com Marcola entrou nos inquéritos.
Seu nome apareceu associado a negociações com órgãos públicos.
E, depois de ser chamada publicamente de “pilantra” pelo presidente, sua presença digital desapareceu por um período.
É uma transformação extraordinária.
Em poucos dias, uma empresária que se comunicava pelas redes passou a ser observada como personagem de uma investigação nacional.
A história ainda está aberta
Nada disso, contudo, encerra as perguntas.
A Polícia Federal continua analisando documentos e mensagens.
Os investigados continuam tendo direito à defesa.
O Supremo supervisiona parte dos inquéritos.
E a sociedade continua tentando entender o grau de proximidade entre os personagens.
O desaparecimento temporário da rede social de Roberta acrescentou mais um capítulo à história, mas não forneceu respostas definitivas.
Talvez, no fim, a imagem mais poderosa de todo o episódio seja justamente essa:
uma mulher que antes fazia questão de mostrar sua circulação entre pessoas poderosas decidiu, depois de entrar no centro da tempestade política, fechar as janelas de sua própria exposição.
O gesto pode ter sido apenas cautela.
Pode ter sido estratégia.
Pode ter sido reação emocional.
Mas uma coisa é certa: Roberta Luchsinger deixou de ser apenas uma figura fotografada ao lado do poder e passou a ser uma das mulheres mais observadas da atual crise política brasileira.
E, enquanto as imagens continuam circulando, a pergunta que permanece não é apenas por que ela apagou as redes.
É o que ainda poderá surgir quando investigadores, documentos e depoimentos reconstruírem, sem filtros, a história por trás dessas fotografias.