
“Taxa das Blusinhas”: Haddad tenta dividir desgaste e mira Tarcísio após rejeição popular ao imposto federal
Depois de defender a cobrança por meses, ex-ministro de Lula agora tenta repartir a responsabilidade por uma medida criada dentro do governo federal e que virou símbolo da revolta do consumidor brasileiro
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad mudou o discurso sobre a chamada “taxa das blusinhas” depois que a medida virou um dos assuntos mais rejeitados entre consumidores e eleitores. Agora, em meio à pré-campanha para o governo de São Paulo, Haddad tenta dividir o desgaste político e passou a apontar o governador Tarcísio de Freitas como corresponsável pela cobrança.
A declaração foi feita durante evento em Sorocaba, no interior paulista, quando Haddad afirmou que “todos os governadores cobram taxa das blusinhas”, citando Tarcísio no discurso. A tentativa de empurrar parte da responsabilidade para os estados, porém, ignora um detalhe central que muitos brasileiros perceberam rapidamente: o imposto que gerou revolta nacional era federal e foi defendido publicamente pelo próprio Haddad enquanto comandava o Ministério da Fazenda do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
A chamada “taxa das blusinhas” previa a cobrança de 20% de imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50 feitas em plataformas estrangeiras. O governo argumentava que a medida protegeria o varejo nacional e equilibraria a concorrência com empresas brasileiras. Mas, para milhões de consumidores, especialmente os de baixa renda, a decisão foi vista como mais uma tentativa de aumentar a carga tributária justamente sobre quem busca produtos baratos pela internet.
O próprio Lula admitiu recentemente que Haddad defendia a medida com “convicção”, acreditando que ela seria positiva para a indústria nacional. O presidente também reconheceu que o governo percebeu tarde demais o desgaste político causado pela cobrança, principalmente entre consumidores populares que utilizam aplicativos internacionais para comprar roupas, acessórios e eletrônicos mais baratos.
A pressão cresceu nas redes sociais, no Congresso e entre os eleitores. O desgaste foi tão intenso que o Palácio do Planalto decidiu recuar e zerar novamente a alíquota sobre compras de até US$ 50. A mudança contrariou integrantes da equipe econômica e mostrou que o governo identificou a taxa como um dos fatores de aumento da rejeição popular.
Agora, às vésperas da disputa eleitoral em São Paulo, Haddad tenta reconstruir a narrativa. Ao incluir Tarcísio no debate, o petista busca escapar do rótulo de “taxador”, que se espalhou rapidamente entre adversários e parte do eleitorado. O problema é que o ICMS estadual já existia nas compras internacionais, enquanto a criação do imposto de importação partiu da esfera federal — exatamente da área comandada por Haddad na época.
A fala do ex-ministro acabou sendo interpretada por críticos como uma tentativa de diluir responsabilidades por uma medida extremamente impopular. Para opositores, Haddad tenta agora reescrever a história de uma decisão que teve apoio explícito da Fazenda e que só foi revista após a reação negativa da população.
Durante o evento, Haddad afirmou que a decisão foi “conjunta” entre Congresso, governadores e varejistas. Embora o texto tenha recebido apoio político amplo em Brasília, o desgaste acabou recaindo principalmente sobre o então ministro da Fazenda, que virou o rosto mais associado ao aumento da tributação sobre compras internacionais.
Nos bastidores políticos, aliados já demonstram preocupação com o impacto eleitoral do tema. A “taxa das blusinhas” se transformou em um símbolo da insatisfação de consumidores que enxergaram na medida mais um peso no bolso em um cenário já marcado por inflação, juros altos e perda do poder de compra.
Enquanto isso, adversários devem continuar explorando o episódio durante a campanha paulista. E a tentativa de dividir a responsabilidade com governadores pode não ser suficiente para apagar a imagem construída durante meses: a de que o imposto nasceu dentro do governo federal e teve em Haddad um de seus principais defensores.