Três anos depois: mais de 140 presos do 8 de janeiro ainda aguardam justiça

Três anos depois: mais de 140 presos do 8 de janeiro ainda aguardam justiça

Advogada denuncia irregularidades, condições desumanas e defende anistia ampla para vítimas e familiares dos detidos

Quase três anos após os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes ocuparam prédios públicos em Brasília, mais de 140 pessoas continuam presas. A denúncia vem de Carolina Siebra, advogada e representante da Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav). Ela relata um cenário de processos cheios de falhas, prisões arbitrárias e sofrimento prolongado de famílias que ainda esperam por respostas.

Em entrevista ao Arena Oeste, Carolina lembrou o início de sua atuação, um dia depois dos atos, quando recebeu uma ligação desesperada de uma mulher que havia perdido o contato com a irmã. “Eu fui até a porta da Colmeia, a penitenciária feminina de Brasília, e lembro das listas com os nomes sendo divulgadas aos poucos. Era como uma tragédia aérea — famílias na calçada, rezando para que o nome do seu parente não aparecesse ali.”

Prisões em meio ao caos

Segundo a advogada, as prisões ocorreram em dois momentos distintos. No dia 8, parte dos manifestantes teria entrado em prédios públicos apenas para se proteger das bombas lançadas de helicópteros. “Quem depredou alguma coisa teve tempo de fugir. Os que ficaram, ficaram acuados, com medo.”

No dia seguinte, o cenário mudou: quem estava no entorno do Quartel-General do Exército acabou impedido de sair. “A partir de certo momento, ninguém mais podia deixar o QG. Quando os ônibus chegaram, disseram que iriam levar para triagem, mas na prática, era o caminho para o encarceramento”, contou.

Comida estragada e ausência de direitos básicos

Carolina também denunciou as condições precárias enfrentadas pelos presos nas penitenciárias do Distrito Federal. “A comida chegava de manhã com o almoço e o jantar. Quando o dia terminava, já estava estragada, mas era o que havia para comer.”

Ela ainda destacou que as audiências de custódia, que deveriam ocorrer em até 24 horas após a prisão, demoravam mais de 15 dias. E os advogados sequer tinham direito a falar com seus clientes em local reservado — tudo era feito diante de outras pessoas.

A morte que expôs o abandono

Um dos episódios mais dolorosos, segundo Carolina, foi a morte de Clezão, em novembro de 2023. O preso já tinha pareceres favoráveis do Ministério Público para ser solto, mas nada foi feito. “A morte de Clezão foi causada pela omissão do Estado. Não foi um acidente, foi negligência.”

Ela relata ainda casos de detentos com doenças graves, crises psicóticas e tentativas de suicídio, consequências diretas do abandono e das más condições nas prisões.

Contra o PL da Dosimetria e a favor da anistia

A advogada entregou um relatório ao deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator do projeto que trata de anistia. No documento, ela detalha as ilegalidades enfrentadas pelos presos e suas famílias, deixando clara sua oposição ao PL da Dosimetria.

“Eles tratam essas pessoas como números”, disse. Para Carolina, a única saída é uma anistia ampla, que devolva dignidade aos que perderam tudo. “Anistia é recomeçar. É limpar o nome. É permitir que essas pessoas — muitas delas idosas — tenham um fim de vida digno.”

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