
Urnas mandam Marina Silva e Simone Tebet para casa: derrota em SP engrossa lista de políticos tradicionais fora do Senado
Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) chegaram à disputa pelo Senado com peso político, experiência e trajetórias de destaque em governos anteriores. Mas São Paulo decidiu diferente: Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) ficaram com as duas vagas e deixaram duas ex-ministras longe do Congresso. E elas não foram as únicas figuras conhecidas a perder espaço nas urnas.
As urnas de São Paulo deram um recado claro na eleição para o Senado de 2026: nome conhecido, currículo extenso e passagem por ministério não garantem cadeira no Congresso.
Na disputa pelas duas vagas paulistas, Guilherme Derrite (PP) terminou em primeiro lugar, com 13.273.880 votos, equivalentes a 30,59%, enquanto André do Prado (PL) ficou em segundo, com 12.703.089 votos, ou 29,28%.
Do outro lado, duas figuras de enorme projeção nacional ficaram pelo caminho.
Simone Tebet (PSB) terminou em terceiro lugar, com 8.342.968 votos, 19,23%. Já Marina Silva (Rede) ficou em quarto, com 7.862.400 votos, 18,12%. Os números são da totalização oficial em São Paulo.
Ou seja: para quem imaginava que a experiência acumulada em Brasília seria suficiente para garantir uma vaga, veio a velha e implacável resposta das urnas: é o eleitor quem decide.
Marina Silva fica fora do Senado
Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, possui uma das trajetórias mais conhecidas da política brasileira.
Ex-ministra do Meio Ambiente, ex-senadora pelo Acre e candidata à Presidência da República em diferentes eleições, Marina chegou à disputa paulista carregando uma longa história política.
Mas o eleitor paulista não comprou a ideia.
Com 7,86 milhões de votos, Marina terminou atrás não apenas dos dois eleitos, mas também de Simone Tebet.
O resultado a deixou sem a cadeira que buscava no Senado.
E há uma ironia política no resultado: uma candidata que durante décadas ocupou espaço privilegiado no debate nacional agora terá de assistir ao novo Senado de fora.
São Paulo não lhe deu uma vaga.
Simone Tebet também fica pelo caminho
A derrota de Simone Tebet (PSB) também chama atenção.
Ex-ministra do Planejamento e Orçamento do governo Luiz Inácio Lula da Silva e candidata à Presidência da República em 2022, Tebet tinha uma trajetória consolidada e uma presença frequente no cenário político nacional.
Mas terminou apenas na terceira colocação.
Foram 8,34 milhões de votos, equivalentes a 19,23%.
Não foi suficiente.
A eleição mostrou que o eleitorado paulista preferiu colocar no Senado dois nomes de outros campos políticos: Guilherme Derrite, do PP, e André do Prado, do PL.
Derrite e André do Prado ocupam as duas cadeiras
A vitória de Guilherme Derrite foi particularmente expressiva.
Com mais de 13,27 milhões de votos, o candidato do Progressistas (PP) terminou como o mais votado para o Senado em São Paulo e, segundo levantamento divulgado após a eleição, alcançou uma das maiores votações absolutas já registradas para o cargo no país.
Derrite construiu sua carreira política principalmente em torno da segurança pública e já havia exercido mandato de deputado federal e ocupado o cargo de secretário de Segurança Pública de São Paulo.
A segunda vaga ficou com André do Prado, do Partido Liberal (PL).
Prado obteve mais de 12,7 milhões de votos e chega ao Senado depois de uma longa trajetória política em São Paulo, incluindo passagens pelo Legislativo estadual e a presidência da Assembleia Legislativa paulista.
Os dois terão mandato de oito anos.
São Paulo escolheu dois nomes ligados ao grupo de Tarcísio
O resultado também possui um componente político importante.
Enquanto Marina Silva e Simone Tebet ficaram de fora, os dois vencedores estavam associados ao campo político que saiu fortalecido da eleição paulista.
Guilherme Derrite e André do Prado foram eleitos no mesmo momento em que Tarcísio de Freitas foi reconduzido ao governo de São Paulo.
O governador terminou o primeiro turno com votação superior a 60% e seu grupo político conquistou as duas vagas ao Senado em disputa no Estado.
O resultado produz, portanto, uma fotografia bastante diferente daquela que poderia ser imaginada algumas semanas antes da eleição: os dois nomes que chegaram ao Senado são justamente aqueles que conseguiram transformar força regional e estrutura política em votos.
A lista de derrotados não termina em Marina e Tebet
O caso paulista faz parte de uma onda maior de derrotas de políticos tradicionais em diferentes Estados.
O primeiro turno de 2026 deixou sem mandato diversos nomes que já ocuparam posições importantes na política brasileira.
Entre os principais derrotados estão:
- Marina Silva — Rede, derrotada na disputa pelo Senado em São Paulo;
- Simone Tebet — PSB, derrotada na disputa pelo Senado em São Paulo;
- José Dirceu — PT, que não conseguiu retornar à Câmara dos Deputados;
- Gleisi Hoffmann — PT, derrotada na disputa pelo Senado no Paraná;
- Renan Calheiros — MDB, derrotado na disputa pelo Senado em Alagoas;
- Randolfe Rodrigues — PT, derrotado na disputa pelo Senado no Amapá;
- Ciro Nogueira — PP, derrotado na disputa pelo Senado no Piauí;
- Aécio Neves — PSDB, que também ficou fora do mandato disputado;
- Ciro Gomes — PSDB, derrotado na disputa pelo governo do Ceará;
- Fernando Haddad — PT, derrotado novamente por Tarcísio de Freitas em São Paulo;
- Benedita da Silva — PT, derrotada na disputa pelo Senado no Rio de Janeiro;
- Jorge Viana — PT, derrotado na disputa pelo Senado no Acre;
- Vicentinho — PT, que não conseguiu retornar à Câmara;
- Paulo Teixeira — PT, que também ficou fora da Câmara;
- Rui Falcão — PT, que terminou como suplente na disputa por uma vaga de deputado federal.
A lista evidencia que o fenômeno não ficou restrito a um único partido ou Estado. O primeiro turno produziu uma renovação importante e retirou do jogo eleitoral imediato nomes que, durante décadas, estiveram no centro da política nacional.
Renan Calheiros: 32 anos depois, fim da linha no Senado
Entre as derrotas mais simbólicas está a de Renan Calheiros (MDB-AL).
Depois de aproximadamente 32 anos de atuação no Senado, Renan não conseguiu renovar o mandato.
O emedebista terminou em terceiro lugar, com 22,24% dos votos, atrás de Arthur Lira (PP) e Marina JHC (PSDB), que conquistaram as duas vagas de Alagoas.
Renan foi presidente do Senado e do Congresso Nacional em três períodos.
Agora, a cadeira que durante décadas foi ocupada por um dos personagens mais conhecidos da política brasileira será entregue a outro nome.
A democracia tem dessas ironias: mandato longo não significa mandato eterno.
Randolfe Rodrigues também perde a cadeira
No Amapá, outro nome de enorme presença em Brasília ficou pelo caminho.
Randolfe Rodrigues (PT), líder do governo Lula no Congresso, terminou em terceiro lugar e não conseguiu uma das duas vagas.
Ele obteve 18,55%, enquanto Rayssa Furlan (Podemos) e Lucas Barreto (PSD) conquistaram as vagas.
Randolfe havia chegado ao Senado em 2011 e passou por diferentes legendas antes de retornar ao PT.
Agora, terá de deixar a Casa.
O caso José Dirceu
Outro resultado de forte simbolismo ocorreu em São Paulo.
José Dirceu (PT) tentou voltar à Câmara dos Deputados, mas não conseguiu.
O ex-ministro da Casa Civil e uma das figuras históricas do Partido dos Trabalhadores recebeu aproximadamente 78,4 mil votos e terminou como sexto suplente.
Dirceu havia declarado durante a campanha que já havia cumprido sua pena e que considerava legítimo tentar retornar ao Parlamento.
As urnas, entretanto, deram outra resposta.
O eleitorado paulista não o recolocou na Câmara.
É importante fazer uma distinção jurídica: Dirceu foi condenado no processo do mensalão e cumpriu pena, mas decisões posteriores do Supremo Tribunal Federal anularam condenações relacionadas à Lava Jato por questões processuais e de competência. Portanto, não seria correto apresentar hoje todas aquelas condenações como se permanecessem juridicamente válidas. O fato eleitoral, porém, permanece: a tentativa de retorno ao Congresso fracassou.
O eleitor não se impressionou apenas com o currículo
O conjunto dos resultados de 2026 aponta para uma questão que merece ser observada.
A eleição não significou simplesmente a derrota de determinados indivíduos. Em vários Estados, o eleitor parece ter escolhido uma combinação diferente de nomes, partidos e projetos.
No caso de São Paulo, o contraste é particularmente evidente.
De um lado:
Marina Silva, Rede.
Ex-ministra, ex-senadora, ex-candidata presidencial e figura internacionalmente conhecida na pauta ambiental.
Simone Tebet, PSB.
Ex-ministra, ex-senadora e candidata à Presidência da República.
Do outro:
Guilherme Derrite, PP.
Com carreira construída fortemente na segurança pública.
André do Prado, PL.
Com trajetória política predominantemente paulista e atuação no Legislativo estadual.
E foram os dois últimos que ganharam as duas cadeiras.
A velha política recebeu um aviso?
É cedo para dizer que existe uma única explicação para todos os resultados.
Mas uma coisa é inegável: 2026 produziu uma lista extensa de políticos tradicionais que terão de deixar o Congresso ou permanecer fora dele.
O eleitor pode até mudar de opinião daqui a quatro anos, oito anos ou em uma próxima eleição.
Mas, neste momento, a mensagem das urnas foi direta.
Marina não conseguiu.
Tebet não conseguiu.
Renan não conseguiu.
Randolfe não conseguiu.
Ciro Nogueira não conseguiu.
Gleisi não conseguiu.
José Dirceu não conseguiu.
E tantos outros nomes conhecidos também ficaram pelo caminho.
Hora de voltar para casa
A política brasileira costuma produzir uma sensação de permanência para quem passa muitos anos em Brasília.
Mandatos se sucedem, cargos mudam, ministérios aparecem, lideranças partidárias se alternam e alguns personagens parecem estar sempre presentes.
Até que chega a eleição.
E a urna não pergunta quantos anos de política o candidato possui.
Não pergunta quantas vezes ocupou um ministério.
Não pergunta quantas entrevistas concedeu.
Não pergunta quantas vezes apareceu no noticiário.
Ela simplesmente contabiliza votos.
E, em 2026, para Marina Silva, Simone Tebet, Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Ciro Nogueira, José Dirceu, Gleisi Hoffmann e outros políticos tradicionais, a contagem terminou sem uma cadeira.
É a democracia funcionando em sua forma mais simples: quem tem voto fica; quem não tem, volta para casa.
São Paulo, especificamente, foi ainda mais direto.
Derrite e André do Prado entram. Marina e Tebet ficam de fora.
A política pode fazer discursos, apresentar currículos e mobilizar estruturas.
No fim, porém, quem dá a última palavra é o eleitor.
E desta vez o eleitor paulista decidiu falar bem alto.