
De “senadora do Bolsonaro” a aliada de Lula: Soraya Thronicke perde o Senado e fica fora do jogo
Ex-aliada de Jair Bolsonaro, Soraya Thronicke (PSB) não conseguiu a reeleição em Mato Grosso do Sul. A senadora, que chegou ao Congresso na onda bolsonarista de 2018 e chegou a ser vice-líder do governo Bolsonaro, terminou em quarto lugar, enquanto duas candidaturas do PL conquistaram as vagas. Para os críticos, a derrota representa o preço eleitoral de uma mudança radical de rota.
A eleição de 2026 terminou com uma derrota de forte significado político para Soraya Thronicke (PSB-MS).
A senadora que chegou ao Senado em 2018 apresentando-se como uma representante do bolsonarismo não conseguiu renovar o mandato e ficará fora do Congresso a partir de fevereiro de 2027.
E o resultado ganhou ainda mais peso porque, justamente no Estado em que Soraya tentou permanecer no Senado, as duas vagas em disputa foram conquistadas por candidatos do Partido Liberal (PL).
Reinaldo Azambuja (PL) terminou em primeiro lugar, com cerca de 34,7%, enquanto Capitão Contar (PL) ficou em segundo, com aproximadamente 32,9%. Soraya terminou em quarto, com cerca de 13%, atrás também de Vander Loubet (PT), que ficou em terceiro.
O resultado permite uma leitura política inevitável: o eleitorado de Mato Grosso do Sul escolheu dois nomes do PL para ocupar as cadeiras e deixou de fora justamente uma senadora que havia construído sua primeira eleição sobre a força do bolsonarismo.
A “senadora do Bolsonaro” que mudou de lado
Em 2018, Soraya foi eleita pelo então PSL, partido ao qual Jair Bolsonaro também estava filiado naquele período.
A própria trajetória eleitoral daquele momento estava associada à onda conservadora que levou Bolsonaro à Presidência e ajudou a eleger parlamentares identificados com aquele movimento.
Soraya chegou a ocupar, em 2021, a função de vice-líder do governo Bolsonaro no Congresso.
Naquele período, defendia que seu mandato estava ligado às pautas que haviam levado ela e Bolsonaro ao poder, incluindo propostas de perfil conservador.
Mas a relação política começou a se deteriorar.
Durante a pandemia de Covid-19, Soraya passou a adotar posições mais críticas em relação ao então presidente e ao governo.
A partir daí, o distanciamento se aprofundou.
Para os apoiadores de Bolsonaro, a antiga aliada passou a representar justamente o contrário do grupo político que havia ajudado a elegê-la.
Foi nesse contexto que surgiu e se consolidou entre bolsonaristas o rótulo de “traidora”.
É importante registrar: trata-se de uma classificação política utilizada por adversários e antigos aliados, e não de uma descrição jurídica ou de um fato objetivo.
Da direita ao “recalcular a rota”
A trajetória partidária de Soraya também acompanhou essa mudança.
Depois do PSL, ela passou pelo União Brasil, pelo Podemos e, em 2026, filiou-se ao PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin.
Em 2022, ainda no União Brasil, Soraya disputou a Presidência da República e terminou em quinto lugar, com cerca de 0,5% dos votos.
Naquele momento, tentou ocupar o espaço da chamada terceira via.
Quatro anos depois, o cenário era completamente diferente.
Soraya estava no PSB e havia se aproximado do grupo político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em julho de 2026, confirmou sua candidatura à reeleição ao Senado em uma aliança com o PT e declarou apoio a Lula.
A própria senadora utilizou a expressão “recalculei a rota” para explicar sua mudança de trajetória política.
E foi justamente essa “rota recalculada” que passou pelo teste das urnas.
O eleitor respondeu
A pergunta que fica depois do resultado é simples:
o eleitor de Mato Grosso do Sul acompanhou essa mudança?
Pelos números, a resposta parece ter sido negativa.
Soraya terminou em quarto lugar, com aproximadamente 13% dos votos, enquanto dois candidatos do PL ficaram com as duas cadeiras.
A diferença é especialmente simbólica porque não se trata de uma derrota para apenas um adversário.
Soraya foi superada por dois candidatos do mesmo partido ligado ao campo político do qual ela havia se afastado.
Reinaldo Azambuja e Capitão Contar foram eleitos.
Soraya ficou de fora.
E a ironia política?
A política brasileira tem uma memória bastante peculiar.
O político pode mudar de partido.
Pode mudar de discurso.
Pode mudar de grupo.
Pode explicar que “recalculou a rota”.
Pode apresentar uma nova estratégia.
Mas existe uma coisa que não muda tão facilmente:
a memória do eleitor.
Soraya foi eleita em 2018 na onda bolsonarista.
Em 2026, disputou a reeleição apoiada por uma aliança que incluía o PT e declarou apoio a Lula.
No mesmo Estado, duas candidaturas do PL conquistaram as vagas.
É difícil encontrar uma ironia eleitoral mais evidente.
A política pode até permitir uma troca de camisa.
A urna, porém, não é obrigada a acompanhar a troca.
O PL ocupa as duas cadeiras
O resultado também demonstra a força do Partido Liberal em Mato Grosso do Sul.
Com Reinaldo Azambuja e Capitão Contar, o partido garantiu as duas cadeiras que estavam em disputa.
Azambuja, ex-governador de Mato Grosso do Sul, terminou na liderança.
Contar, identificado com o campo conservador e bolsonarista, ficou em segundo.
Os dois terão mandato no Senado a partir de 2027.
A vitória dupla do PL torna ainda mais significativa a derrota de Soraya, porque mostra que o eleitorado sul-mato-grossense não apenas rejeitou sua candidatura à reeleição, mas colocou dois nomes do campo político conservador nas vagas disponíveis.
O fim de um ciclo
Soraya Thronicke deixa o Senado ao final do atual mandato, que oficialmente se encerra em 2027. O próprio Senado registra seu período como senadora por Mato Grosso do Sul entre 2019 e 2027.
O fim do ciclo representa uma transformação completa de sua trajetória política.
Em 2018, ela chegou ao Senado como uma das representantes da onda que levou Bolsonaro ao Planalto.
Em 2021, foi vice-líder do governo Bolsonaro.
Em 2022, tentou a Presidência pela terceira via.
Depois passou pelo Podemos.
Em 2026, chegou ao PSB, aproximou-se do PT e declarou apoio a Lula.
E, finalmente, tentou renovar o mandato.
Não conseguiu.
O recado das urnas
A derrota não significa necessariamente que toda a trajetória política de Soraya esteja encerrada. Políticos podem disputar outros cargos, mudar novamente de partido e tentar reconstruir sua base eleitoral.
Mas o resultado de 2026 é incontornável.
A senadora que chegou ao Congresso impulsionada pelo bolsonarismo não conseguiu permanecer no Senado depois de romper com Bolsonaro e se aproximar do grupo político de Lula.
E o eleitorado que decidiu as duas vagas escolheu justamente dois nomes do PL.
Para seus críticos, a explicação está na própria mudança de posicionamento.
Para Soraya, trata-se de uma trajetória de “recalcular a rota”.
Mas, nesta eleição, o GPS eleitoral parece ter indicado outro caminho.
Reinaldo Azambuja entrou. Capitão Contar entrou. Soraya ficou de fora.
E assim termina, pelo menos por enquanto, a passagem da antiga “senadora do Bolsonaro” pelo Senado.
A política permite mudar de lado. A urna também permite ao eleitor dizer se aprovou ou não a mudança. Em Mato Grosso do Sul, a resposta veio em forma de voto — e foi bastante clara.