
Urnas aposentam caciques: Renan, Ciro, Randolfe e outros nomes históricos ficam fora do Senado
A eleição de 2026 deixou o Senado diante de uma das maiores renovações políticas dos últimos anos. Entre os derrotados estão Renan Calheiros, Ciro Nogueira, Randolfe Rodrigues, Weverton Rocha, Carlos Viana e Angelo Coronel. E a lista ainda inclui nomes que tentavam voltar à Casa, como Gleisi Hoffmann, Marina Silva, Simone Tebet, Aécio Neves e Jorge Viana. Para muitos deles, a velha rotina de Brasília termina em janeiro de 2027.
A eleição deste domingo, 4 de outubro de 2026, produziu um resultado que dificilmente passará despercebido no Congresso Nacional: uma série de políticos conhecidos, alguns com décadas de atuação, ficou sem mandato no Senado a partir de 2027.
Das 81 cadeiras do Senado, 54 estavam em disputa. Entre os que tentavam permanecer na Casa, vários nomes tradicionais não conseguiram convencer o eleitorado. O resultado atingiu diferentes partidos e grupos políticos.
E aí aparece uma das ironias da política brasileira: em Brasília, alguns nomes parecem eternos; na urna, ninguém tem cadeira cativa.
Renan Calheiros: depois de 32 anos, a porta fechou
Um dos resultados mais emblemáticos ocorreu em Alagoas.
Renan Calheiros (MDB), senador desde 1995 e quatro vezes presidente do Senado, tentou conquistar mais um mandato.
Não conseguiu.
As duas vagas ficaram com Arthur Lira (PP) e Marina JHC (PSDB).
Com isso, Renan deixará o Senado depois de aproximadamente 32 anos de permanência na Casa. A derrota também atingiu seu filho, Renan Filho (MDB), derrotado na disputa pelo governo de Alagoas.
Para uma família que esteve no centro da política alagoana por décadas, o resultado foi especialmente significativo.
Depois de tanto tempo em Brasília, a urna finalmente avisou que o mandato não vem com renovação automática.
Ciro Nogueira também fica pelo caminho
No Piauí, outro político de enorme influência nacional perdeu a cadeira.
Ciro Nogueira (PP), presidente nacional do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, terminou em terceiro lugar.
Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD) conquistaram as duas vagas.
Ciro obteve 24,68% dos votos, resultado insuficiente para manter uma sequência de quatro legislaturas no Congresso. Ele havia chegado à Câmara em 1995 e estava no Senado desde 2011.
A campanha também foi marcada por investigações envolvendo o chamado caso Master. Ciro foi alvo de uma fase da Operação Compliance Zero, e as suspeitas divulgadas são contestadas por sua defesa. Isso deve ser tratado como investigação, não como condenação.
No fim, independentemente das disputas judiciais e políticas, a matemática eleitoral foi simples:
Ciro precisava de uma das duas vagas. Terminou em terceiro.
Randolfe Rodrigues: liderança no governo não virou passaporte eleitoral
No Amapá, a derrota atingiu Randolfe Rodrigues (PT).
Senador desde 2011 e líder do governo Lula no Congresso, Randolfe terminou em terceiro lugar, atrás de Rayssa Furlan (Podemos) e Lucas Barreto (PSD), que conquistaram as vagas.
A derrota chama atenção pelo peso que Randolfe acumulava em Brasília.
Mas a eleição novamente mostrou uma regra elementar da política:
liderar o governo no Congresso pode render influência dentro de Brasília; não garante, sozinho, votos suficientes no Estado.
Weverton Rocha: outro nome tradicional fora do Senado
No Maranhão, Weverton Rocha (PDT) também não conseguiu renovar o mandato.
Ele terminou em quarto lugar, com 15,20%, atrás de André Fufuca (PP) e Lahesio Bonfim (Novo), eleitos para as duas vagas.
Weverton também aparece em investigações da Polícia Federal relacionadas a suspeitas de descontos ilegais em benefícios previdenciários. As acusações são objeto de investigação e não equivalem a condenação.
Carlos Viana: nem a presidência de comissão garantiu a vaga
Em Minas Gerais, Carlos Viana (PSD) também ficou fora.
O senador havia presidido a comissão parlamentar que investigou fraudes no INSS, mas terminou sem uma das duas vagas.
Foram eleitos Domingos Sávio (PL) e Marília Campos (PT).
Mais uma vez, a urna deixou claro que cargo de destaque em Brasília não significa cadeira garantida para o próximo mandato.
Angelo Coronel: de aliado a derrotado
Na Bahia, Angelo Coronel (Republicanos) também perdeu a disputa.
Ele terminou em terceiro lugar, com 20,17%, atrás de Rui Costa (PT) e Jaques Wagner (PT).
Coronel havia sido aliado do grupo governista baiano, mas mudou de posição depois da formação da chapa que disputou o Senado.
No fim, ficou sem a vaga.
Leila do Vôlei perde para Michelle Bolsonaro e Bia Kicis
No Distrito Federal, Leila Barros, a Leila do Vôlei (PDT), também não conseguiu a reeleição.
Ela terminou em terceiro lugar.
As duas vagas ficaram com Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL).
O resultado colocou duas representantes do PL no Senado pelo Distrito Federal e encerrou o mandato de Leila na Casa.
Soraya Thronicke também ficou fora
Em Mato Grosso do Sul, Soraya Thronicke (PSB) terminou derrotada.
A senadora ganhou projeção nacional na CPI da Covid e, depois de ter sido eleita em 2018 pelo então PSL, percorreu diferentes posições partidárias e políticas.
Em 2026, pelo PSB, tentou novamente permanecer no Senado.
Não conseguiu.
Eliziane Gama: outra baixa
No Maranhão, Eliziane Gama (PSD) também não conquistou uma das duas vagas.
Ela foi outra parlamentar que ganhou notoriedade durante a CPI da Pandemia e agora ficará fora do Senado a partir de 2027.
E a lista dos derrotados não para nos senadores
A eleição também atingiu políticos que não ocupavam uma cadeira no Senado, mas tentavam retornar à Casa.
Entre eles está Gleisi Hoffmann (PT), ex-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e deputada federal.
Gleisi já havia sido senadora pelo Paraná entre 2011 e 2018 e tentou voltar ao Senado em 2026.
Não conseguiu.
No Paraná, Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo) conquistaram as vagas.
Marina Silva e Simone Tebet ficam fora em São Paulo
Em São Paulo, duas ex-ministras também ficaram pelo caminho.
Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) disputaram as duas vagas ao Senado, mas terminaram atrás de Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL).
Tebet terminou com 19,23%, enquanto Marina alcançou 18,12%.
Ambas haviam deixado recentemente ministérios do governo federal para disputar a eleição.
A ironia é que experiência ministerial, fama nacional e currículo político não foram suficientes.
São Paulo tinha apenas duas cadeiras. E o eleitor decidiu entregá-las a outros dois nomes.
Aécio Neves também fica sem mandato
Em Minas Gerais, outro resultado histórico envolveu Aécio Neves (PSDB).
O ex-governador, ex-presidente da Câmara e candidato à Presidência da República em 2014 terminou a eleição sem mandato eletivo.
Segundo o levantamento publicado pela CartaCapital, é a primeira vez em cerca de quatro décadas de vida política que Aécio fica sem um mandato.
Para quem passou tantos anos ocupando cargos de destaque, a situação é politicamente simbólica.
Jorge Viana não consegue voltar
No Acre, Jorge Viana (PT) também não conseguiu retornar ao Senado.
Ex-governador por duas vezes e ex-senador por dois mandatos, ele tentou voltar à Casa, mas ficou fora das duas vagas.
Mais um nome conhecido.
Mais uma tentativa frustrada.
Mais uma cadeira que não voltou para o antigo ocupante.
Benedita da Silva e Marcelo Crivella ficam fora no Rio
No Rio de Janeiro, Benedita da Silva (PT) e Marcelo Crivella (Republicanos) também não conquistaram uma das duas cadeiras em disputa.
São nomes conhecidos nacionalmente e com longa trajetória política, mas igualmente ficaram fora do Senado que começará a funcionar em 2027.
A lista completa dos nomes históricos que ficaram pelo caminho
Entre os principais derrotados ou políticos que tentavam retornar ao Senado estão:
Renan Calheiros (MDB)
Ciro Nogueira (PP)
Randolfe Rodrigues (PT)
Weverton Rocha (PDT)
Carlos Viana (PSD)
Angelo Coronel (Republicanos)
Leila Barros — Leila do Vôlei (PDT)
Soraya Thronicke (PSB)
Eliziane Gama (PSD)
Gleisi Hoffmann (PT)
Marina Silva (Rede)
Simone Tebet (PSB)
Benedita da Silva (PT)
Marcelo Crivella (Republicanos)
Aécio Neves (PSDB)
Jorge Viana (PT)
Além desses, outros senadores que buscavam a reeleição também ficaram fora, como Sérgio Petecão (PSD-AC), Vanderlan Cardoso (PSD-GO), Zequinha Marinho (Podemos-PA), Zenaide Maia (PSD-RN), Chico Rodrigues (PSB-RR), Esperidião Amin (PP-SC), Fabiano Contarato (PT-ES), Marcos do Val (Avante-ES) e Carlos Fávaro (PSD-MT).
Brasília muda de endereço político
O resultado de 2026 não significa, por si só, que todos esses políticos estejam definitivamente fora da vida pública.
Alguns poderão disputar outros cargos, assumir funções partidárias ou retornar em eleições futuras.
Mas uma coisa está definida: eles não estarão ocupando as cadeiras do Senado a partir de 2027, salvo mudanças posteriores decorrentes de outras situações eleitorais ou jurídicas.
E essa talvez seja a maior ironia de todas.
Políticos podem passar décadas construindo influência, ocupando ministérios, presidindo partidos, comandando comissões, liderando governos e disputando grandes eleições.
Mas chega o domingo de votação.
O eleitor entra na cabine.
Escolhe outros nomes.
E a cadeira que parecia permanente simplesmente deixa de ser.
Renan sai depois de 32 anos. Ciro deixa o Senado após longa trajetória. Randolfe perde a reeleição. Marina e Tebet não conseguem entrar. Gleisi não consegue voltar. Aécio fica sem mandato. Jorge Viana também.
A velha Brasília, pelo menos no Senado, terá novos rostos em 2027.
E para os veteranos derrotados, fica uma constatação bastante simples — e talvez incômoda:
o mandato é temporário, a cadeira não pertence ao político e a última palavra continua sendo da urna.
Desta vez, para uma extensa lista de nomes históricos, a urna falou.
E mandou arrumar as malas.