
WhatsApp sugere “Tropa do Flávio” ao pesquisar “Exército do Lula”, levanta questionamentos sobre algoritmos e tratamento desigual na disputa eleitoral
Registro feito pelo Congresso em Foco identificou uma recomendação do canal ligado a Flávio Bolsonaro durante uma busca pelo grupo de apoio a Lula; na pesquisa inversa, não apareceram canais associados ao presidente ou ao PT, situação que exige transparência, explicações técnicas e critérios iguais para os dois lados.
Uma reportagem publicada pelo Congresso em Foco em 14 de outubro de 2026 revelou uma situação que merece esclarecimentos sobre o funcionamento da busca por canais do WhatsApp durante a disputa presidencial. Ao pesquisar pelo “Exército do Lula”, canal utilizado para mobilizar apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o aplicativo apresentou entre as sugestões a “Tropa do Flávio”, voltada à mobilização de apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL).
O resultado foi registrado em uma captura de tela verificada pelo veículo. A questão ganhou relevância porque, ao realizar a pesquisa inversa — procurando “Tropa do Flávio” —, os jornalistas não encontraram sugestões equivalentes de canais ligados a Lula ou ao Partido dos Trabalhadores.
A diferença observada levanta questionamentos legítimos sobre os critérios utilizados pelo sistema para recomendar canais políticos. Em uma eleição presidencial, mecanismos de busca e recomendação podem influenciar quais páginas os usuários descobrem, quais comunidades passam a acompanhar e quais mensagens recebem.
É importante, entretanto, separar o fato registrado da conclusão que ainda precisa ser demonstrada: a reportagem identificou uma assimetria em buscas específicas, mas isso não comprova, por si só, que houve interferência deliberada da plataforma para beneficiar um candidato.
A busca apresentou uma recomendação inesperada
O “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), tornou-se um dos principais canais de mobilização digital dos apoiadores do presidente. A página chegou a reunir mais de 4 milhões de inscritos e passou a ocupar o centro de uma disputa judicial envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Foi nesse contexto que o Congresso em Foco verificou que a pesquisa pelo nome do canal ligado a Lula também apresentava a “Tropa do Flávio” entre as recomendações.
O aspecto mais relevante do registro foi a ausência de comportamento equivalente na busca inversa. Ao procurar o canal associado ao candidato do PL, os jornalistas não localizaram recomendações de páginas ligadas a Lula ou ao PT.
Essa diferença merece explicação porque o usuário que procura uma comunidade política específica espera encontrar resultados relacionados à sua pesquisa. Quando o aplicativo apresenta um canal adversário entre as sugestões, é necessário compreender quais critérios levaram àquela recomendação e se o mesmo padrão é aplicado a todos os concorrentes.
O episódio não permite afirmar que todos os usuários receberam os mesmos resultados. As recomendações podem variar conforme o histórico de pesquisa, as interações e outras características da conta.
Algoritmos políticos precisam de transparência
O WhatsApp utiliza critérios de recomendação para facilitar a descoberta de canais. Entre os fatores informados pela plataforma estão o número de seguidores, a frequência de publicações, as reações recebidas, a semelhança entre conteúdos e informações relacionadas ao usuário, como idioma e histórico de interação.
Esses mecanismos podem explicar por que canais diferentes aparecem nas sugestões de uma pesquisa. Entretanto, sem uma explicação específica sobre o caso, não é possível determinar qual fator levou a “Tropa do Flávio” a aparecer na busca pelo “Exército do Lula” nem por que a pesquisa inversa apresentou resultado diferente.
É justamente por isso que a situação exige transparência. A plataforma precisa esclarecer, dentro dos limites de sua política de funcionamento e proteção de dados, como suas recomendações são produzidas e quais mecanismos utiliza para evitar distorções relevantes na descoberta de conteúdo político.
Não é necessário presumir uma conspiração para reconhecer a importância do problema. Em uma eleição, até mesmo diferenças aparentemente pequenas na visibilidade dos canais podem influenciar o alcance de mensagens e a formação das comunidades digitais.
A pergunta que precisa ser respondida é objetiva: por que a busca por um canal ligado a Lula apresentou uma recomendação de um canal ligado a Flávio, enquanto a busca inversa não mostrou associação equivalente?
O episódio ocorre durante a disputa judicial sobre o canal de Janones
A descoberta aconteceu em meio à controvérsia sobre a suspensão temporária do “Exército do Lula”. A campanha de Flávio Bolsonaro acionou a Justiça Eleitoral alegando que o canal reproduzia conteúdos considerados falsos e já questionados judicialmente.
Em 11 de outubro, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal. A decisão foi contestada pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, que adotou entendimento diferente sobre a medida.
Posteriormente, o caso voltou a ser analisado por Nunes Marques, que condicionou a retomada do funcionamento à regularização do canal perante a Justiça Eleitoral. O registro foi formalizado pela campanha de Lula, mas a controvérsia sobre as condições de funcionamento e os prazos continuou a gerar questionamentos.
A área técnica do TSE informou que não encontrou, no material examinado entre 2 e 11 de outubro, as publicações específicas apontadas pela campanha de Flávio como falsas. O relatório, contudo, registrou dificuldades para reconstituir parte do histórico porque mensagens anteriores haviam sido apagadas.
Esses elementos precisam ser analisados separadamente. A ausência de determinadas mensagens no material examinado não prova que todas as acusações sejam falsas, assim como a exclusão de publicações não demonstra automaticamente que elas continham desinformação.
O que se exige é uma apuração baseada em registros verificáveis, sem antecipar conclusões contra qualquer dos envolvidos.
A diferença de tratamento precisa ser examinada
A campanha de Lula questionou a suspensão do próprio canal e pediu tratamento isonômico em relação à “Tropa do Flávio”, que permaneceu em atividade durante o período de restrição imposto ao canal pró-Lula.
A discussão não se limita às recomendações de busca. Ela envolve também a aplicação das regras eleitorais aos canais utilizados para mobilizar apoiadores, as exigências de registro e os critérios para determinar suspensões.
A igualdade de tratamento não significa que toda decisão precise ser idêntica independentemente das circunstâncias. Significa que eventuais diferenças devem estar fundamentadas em critérios jurídicos claros, objetivos e aplicados de maneira consistente.
Se dois canais estão em situações comparáveis, a Justiça Eleitoral deve explicar por que um recebe determinada restrição e o outro não. Se existem diferenças relevantes entre os casos, elas precisam ser demonstradas com base nos fatos e na legislação, e não apenas na identidade política dos envolvidos.
Da mesma forma, a aparição de uma recomendação no WhatsApp não comprova favorecimento eleitoral intencional. Para sustentar essa conclusão, seria necessária uma investigação técnica mais ampla, com testes reproduzíveis e informações sobre o funcionamento do sistema.
Repúdio à falta de transparência, sem transformar suspeita em prova
É legítimo repudiar qualquer prática que comprometa a transparência e a igualdade de condições em uma eleição. Plataformas digitais que exercem influência sobre a descoberta de conteúdo político precisam oferecer explicações claras sobre seus critérios de recomendação, especialmente quando surgem diferenças observáveis entre pesquisas relacionadas a candidatos adversários.
O que não seria correto é transformar uma captura de tela em prova definitiva de manipulação deliberada. O registro é relevante e merece investigação, mas não demonstra, isoladamente, a intenção da plataforma nem permite concluir que todos os usuários foram expostos ao mesmo resultado.
A cobrança deve ser dirigida a todos os responsáveis. A Meta precisa esclarecer o funcionamento das recomendações; as campanhas devem apresentar evidências quando acusam adversários; e a Justiça Eleitoral deve aplicar suas regras com fundamentação, proporcionalidade e imparcialidade.
Também é necessário garantir que o combate à desinformação não se transforme em justificativa para restrições arbitrárias à comunicação política. A fiscalização deve identificar irregularidades concretas e preservar o direito de crítica e mobilização dentro da lei.
O eleitor tem direito a explicações
A disputa presidencial de 2026 mostra como os canais de mensagens se tornaram instrumentos importantes de mobilização política. Por isso, as regras de visibilidade, recomendação e funcionamento dessas plataformas não podem ser tratadas como questões técnicas sem relevância pública.
Quando uma busca apresenta resultados assimétricos, o cidadão tem direito de saber quais critérios estão envolvidos e se eles são aplicados de forma consistente. A transparência não exige que a plataforma revele dados pessoais dos usuários, mas exige explicações suficientes para que possíveis distorções possam ser investigadas.
O caso registrado pelo Congresso em Foco não prova, por si só, que o WhatsApp favoreceu deliberadamente Flávio Bolsonaro. Entretanto, a diferença observada entre as duas buscas justifica questionamentos e uma análise técnica independente.
Em uma eleição democrática, nenhum candidato deve receber vantagem indevida por decisões opacas de sistemas digitais, e nenhum canal deve sofrer restrições sem justificativa legal suficiente. A exigência precisa ser a mesma para todos: transparência, critérios objetivos, direito de defesa e apuração baseada em fatos.
A credibilidade do processo eleitoral depende não apenas da contagem dos votos, mas também da confiança de que as ferramentas digitais utilizadas para informar e mobilizar eleitores funcionam sob regras claras. Quando surgem dúvidas, a resposta adequada não é ignorá-las nem declarar culpados antecipadamente, mas exigir explicações e verificar os fatos com rigor.