
“Assassinos não respeitam horário de lazer”, diz Flávio Dino ao rebater vídeo na praia
Ministro do STF afirma que gravação foi feita em maio de 2023, antes de sua chegada à Corte, e diz que veículo mostrado nas imagens era particular; manifestação ocorre em meio a investigação sobre suposto uso irregular de carros oficiais

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), reagiu nas redes sociais à circulação de um vídeo antigo no qual aparece em uma praia e que passou a ser utilizado para questionamentos sobre um suposto uso de veículo oficial em momentos de lazer.
Em publicação feita no domingo (16), Dino afirmou que a gravação foi registrada em maio de 2023, quando ainda não integrava o Supremo, e sustentou que o automóvel mostrado nas imagens era particular. A posse de Dino como ministro do STF ocorreu somente em 2024.
A manifestação veio acompanhada de uma crítica mais ampla à circulação de informações que, segundo ele, seriam apresentadas fora de contexto.
“Assassinos não respeitam horário de lazer”, afirmou Dino ao defender que criminosos não condicionam suas ações ao expediente de servidores públicos.
O ministro argumentou que autoridades responsáveis pela segurança não poderiam ser submetidas a uma lógica segundo a qual sua proteção deveria existir apenas durante o horário convencional de trabalho.
Dino apresenta a data do vídeo
Na tentativa de esclarecer a origem das imagens, Dino publicou um print com a data atribuída ao vídeo.
Segundo o ministro, a gravação é de maio de 2023. Naquele momento, ele ainda não havia tomado posse no Supremo.
“Esse vídeo em que apareço na praia, abrindo a porta de um carro, é bem antigo, quando não era ministro do STF”, afirmou.
Dino também destacou que o veículo mostrado não seria oficial.
“E aquele carro mostrado é particular”, acrescentou, ressaltando que a própria data da gravação seria suficiente para demonstrar que as imagens não poderiam ser utilizadas para questionar sua conduta como integrante do Supremo naquele período.
A cronologia apresentada pelo ministro é central para sua defesa: o vídeo teria sido produzido aproximadamente um ano antes de sua chegada à Corte.
A frase que provocou repercussão
Ao explicar a necessidade de segurança para autoridades, Dino utilizou uma afirmação que rapidamente ganhou destaque:
“Assassinos não respeitam horário de lazer.”
O argumento apresentado pelo ministro é que ameaças e crimes não obedecem ao horário de expediente de uma autoridade pública.
Segundo Dino, pessoas envolvidas em atividades criminosas não seguem necessariamente as mesmas regras de jornada de trabalho aplicadas aos servidores.
Ele ampliou o raciocínio ao afirmar que criminosos não respeitam leis trabalhistas ou administrativas relacionadas à jornada dos agentes públicos, nem normas destinadas à proteção de crianças e adolescentes.
A declaração foi utilizada por Dino para justificar a existência de medidas de segurança fora dos horários convencionais.
A crítica às fake news
O ministro também direcionou críticas ao que chamou de “indústria criminosa de fake news e manipulações”.
Segundo Dino, a circulação de informações apresentadas sem o devido contexto poderia produzir uma sequência de consequências:
desinformação, aumento da hostilidade, ataques e, posteriormente, necessidade de ampliar medidas de segurança.
Ele afirmou lamentar que esse processo contribua para um ambiente de tensão permanente.
Na avaliação apresentada pelo ministro, a propagação de informações manipuladas não seria apenas um problema relacionado à reputação de autoridades, mas poderia ter consequências concretas para a segurança delas e de seus familiares.
O vídeo e a discussão sobre carros oficiais
A polêmica ganhou força porque as imagens passaram a ser relacionadas a denúncias sobre o uso de veículos oficiais por Dino.
O ponto contestado pelo ministro, entretanto, é justamente a associação entre o vídeo e sua condição atual de integrante do STF.
Dino afirma que a gravação é anterior à sua posse e que o automóvel visto nas imagens era particular.
Assim, segundo sua versão, o vídeo não serviria como prova de utilização irregular de veículo oficial por ele como ministro do Supremo.
A discussão, porém, ocorre em um contexto mais amplo de questionamentos sobre veículos utilizados para segurança e deslocamento de autoridades.
Investigação sobre suposta perseguição
A manifestação de Dino também ocorreu em meio a outra controvérsia envolvendo o ministro.
A Polícia Federal investiga uma suspeita de crime de perseguição contra Flávio Dino.
Na terça-feira (13 de agosto, conforme a reportagem), o ministro Alexandre de Moraes, também integrante do STF, determinou uma operação de busca e apreensão contra Raimundo Cutrim, ex-secretário de Estado apontado como fonte do jornalista Luís Pablo.
O caso está relacionado às denúncias publicadas pelo jornalista sobre suposto uso irregular de carros oficiais relacionados à segurança de Dino.
A operação ampliou a discussão sobre os limites das investigações quando envolvem jornalistas e suas fontes.
Luís Pablo também foi alvo de medida judicial
Antes da operação contra Cutrim, em março, Alexandre de Moraes havia autorizado medidas na residência do jornalista Luís Pablo, em São Luís, no Maranhão.
As decisões provocaram reação de entidades ligadas à imprensa.
Associações jornalísticas manifestaram preocupação com a investigação envolvendo o jornalista e com os efeitos que medidas de busca e apreensão poderiam produzir sobre a proteção de fontes jornalísticas.
O episódio passou a ser acompanhado não apenas como uma questão envolvendo a segurança de uma autoridade pública, mas também sob a perspectiva da liberdade de imprensa e do sigilo da fonte.
O debate que permanece
O caso reúne duas discussões diferentes que acabaram se encontrando.
De um lado, está a necessidade de garantir a segurança de ministros do Supremo e de outras autoridades que possam estar sob ameaça. De outro, está a necessidade de estabelecer limites claros para investigações, especialmente quando elas atingem jornalistas, fontes e informações relacionadas ao exercício da atividade de imprensa.
Dino sustenta que sua segurança não pode ficar restrita ao horário de expediente e que criminosos não deixam de agir porque uma autoridade está fora do trabalho.
Ao mesmo tempo, a origem e o contexto das imagens continuam sendo elementos importantes para compreender a controvérsia.
A própria cronologia apresentada pelo ministro é objetiva: o vídeo é de maio de 2023; sua posse no STF ocorreu em 2024.
Uma controvérsia que mistura segurança, redes sociais e imprensa
O episódio mostra como uma imagem antiga pode adquirir novo significado quando retirada do contexto original e reapresentada em meio a uma disputa política ou institucional.
Um vídeo de poucos segundos, aparentemente banal, passou a integrar uma discussão muito maior sobre segurança de autoridades, utilização de veículos, circulação de informações nas redes sociais, investigação criminal e liberdade de imprensa.
Dino afirma que a gravação não demonstra qualquer irregularidade porque foi registrada antes de sua chegada ao STF e envolvia um carro particular.
As investigações relacionadas às denúncias sobre veículos oficiais, por sua vez, seguem sendo objeto de questionamentos e apurações.
Até que os procedimentos sejam concluídos, é necessário distinguir alegações, suspeitas, investigações e fatos comprovados.
Nesse cenário, a frase de Dino — “assassinos não respeitam horário de lazer” — acabou se tornando o resumo de sua defesa: para o ministro, a proteção de uma autoridade ameaçada não termina quando o expediente acaba. O debate, contudo, vai além da segurança pessoal e alcança uma questão institucional delicada: até onde pode ir a proteção de uma autoridade sem comprometer o direito à informação, o trabalho jornalístico e a preservação das fontes?