
Haddad vota cercado de aliados, fala em “grande campanha” e tenta sair leve diante de pesquisas desfavoráveis
Candidato do PT ao governo de São Paulo afirma estar de “consciência tranquila”, mas chega às urnas com pesquisas apontando ampla vantagem de Tarcísio de Freitas
Fernando Haddad (PT) foi às urnas neste domingo (4) para votar na disputa pelo Governo de São Paulo cercado por algumas das principais figuras políticas da aliança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao lado da mulher, Ana Estela Haddad, do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), das candidatas ao Senado Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (MDB), do candidato a vice-governador Márcio França (PSB) e do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, Haddad tentou transmitir tranquilidade no momento decisivo da eleição.
O candidato votou por volta das 10h20 na Brazilian International School, no bairro de Indianópolis, zona sul da capital paulista. Depois, acompanhou a votação de Alckmin.
A cena política era de peso. Haddad não estava sozinho: reuniu em torno de si nomes que representam diferentes setores da administração federal e da aliança governista. Também estiveram presentes Lúcia França, mulher de Márcio França, e Lu Alckmin, mulher de Geraldo Alckmin.
Mesmo diante de um cenário eleitoral difícil, Haddad afirmou que deixa a campanha com o que chamou de “espírito leve”.
“Eu tô tranquilo porque nós fizemos uma grande campanha aqui em São Paulo. Aliás, fiz em 2022 também. Saí muito satisfeito com a campanha de 22 e tô saindo com o mesmo espírito leve, né, nessa campanha de 2026.”
O petista também agradeceu aos eleitores paulistas e afirmou ter encontrado um ambiente mais aberto ao diálogo durante a campanha.
“Era possível sentir no ar a população muito mais aberta a ouvir, a entender e a tomar sua decisão no dia de hoje.”
Haddad disse ainda que considera ter cumprido seu papel ao apresentar suas propostas aos eleitores. Em outra declaração, afirmou ser importante chegar ao fim da campanha com a consciência tranquila de ter trabalhado em benefício da comunidade e apresentado uma alternativa que considerou digna para São Paulo.
A tranquilidade de Haddad diante dos números
É justamente neste ponto que aparece o contraste mais evidente da reta final da campanha.
Enquanto Haddad fala em “grande campanha”, “espírito leve” e “consciência tranquila”, as pesquisas divulgadas às vésperas da eleição mostravam uma distância considerável entre ele e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
No levantamento Datafolha divulgado em 3 de outubro, Tarcísio aparecia com 55% das intenções de voto, contra 32% de Haddad. Considerando somente os votos válidos, Tarcísio tinha 60%, enquanto Haddad aparecia com 35%. A margem de erro era de dois pontos percentuais.
Portanto, o cenário retratado pelas pesquisas era bastante desfavorável ao candidato petista, embora pesquisa de intenção de voto não seja resultado oficial de eleição.
E aqui cabe uma ironia inevitável da campanha: enquanto as pesquisas colocavam Haddad distante de Tarcísio, o candidato deixava a escola dizendo que estava “leve”. A política, definitivamente, também tem seus momentos de filosofia.
A segunda tentativa de Haddad
A eleição de 2026 representa a segunda candidatura de Haddad ao Governo de São Paulo.
Em 2022, o petista também disputou o cargo e foi derrotado por Tarcísio de Freitas no segundo turno. Quatro anos depois, Haddad voltou à disputa com o apoio de Lula e de uma ampla coalizão política.
O próprio candidato fez questão de comparar as duas campanhas.
Segundo Haddad, assim como em 2022, ele terminou a campanha satisfeito com o trabalho realizado e afirmou que novamente deixa a disputa com a consciência tranquila.
A diferença está no ambiente encontrado na reta final: desta vez, a pesquisa Datafolha divulgada na véspera apresentava uma distância de 25 pontos percentuais nos votos válidos entre Tarcísio e Haddad.
Haddad transforma derrota nas pesquisas em discurso de serenidade
Questionado sobre as pesquisas, Haddad não adotou um discurso de confronto com os números. Preferiu dizer que confia na decisão do eleitor.
O candidato afirmou que o eleitor paulista tem sua própria sabedoria para decidir os caminhos do Estado.
A estratégia é clara: independentemente do resultado, Haddad procura apresentar sua participação na eleição como uma campanha feita de maneira organizada, com propostas e sem conflitos pessoais.
Ele também classificou São Paulo como um Estado extremamente politizado e afirmou que a eleição paulista tem dimensão nacional.
“É quase uma eleição nacional, né? É uma eleição de país.”
A avaliação de Haddad tem fundamento no tamanho do eleitorado paulista: segundo os dados citados pelo Poder360, São Paulo possui aproximadamente 34,10 milhões de eleitores, correspondendo a 21,48% do eleitorado brasileiro.
Lula, Alckmin, Marina e Tebet ao lado de Haddad
A campanha de Haddad teve forte presença de lideranças nacionais.
O candidato acompanhou Lula durante a votação presidencial em São Bernardo do Campo. Depois, seguiu para sua própria seção eleitoral em São Paulo.
Na votação de Haddad estavam Geraldo Alckmin, Marina Silva, Simone Tebet, Márcio França e Aloizio Mercadante, além de Ana Estela Haddad.
Mais cedo, ao lado de Lula, também estiveram Haddad, Alckmin, Marina e Simone.
O grupo simbolizou a tentativa do campo governista de transformar a disputa paulista em uma extensão do projeto político nacional.
Marina Silva e Simone Tebet também enfrentam uma disputa própria
Enquanto apoiavam Haddad, Marina Silva e Simone Tebet enfrentavam sua própria disputa pelas duas vagas de São Paulo no Senado.
O Datafolha divulgado em 3 de outubro apontava Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) com 22% dos votos válidos cada, Marina Silva com 21% e Simone Tebet com 20%. A margem de erro era de dois pontos percentuais, colocando os quatro em empate técnico.
Na pesquisa Quaest divulgada no mesmo período, Derrite aparecia com 25%, André do Prado com 23%, Marina com 22% e Simone também com 22%, novamente dentro da margem de erro.
Ou seja, enquanto Haddad enfrentava uma diferença expressiva nas pesquisas para o Governo de São Paulo, seus aliados na disputa pelo Senado estavam em uma corrida muito mais apertada.
A discussão sobre o STF
Durante a entrevista depois da votação, Haddad também foi questionado sobre decisões recentes do Supremo Tribunal Federal e sobre o cancelamento de um debate eleitoral.
O petista afirmou que temas envolvendo um dos Poderes da República naturalmente têm impacto político e voltou a defender uma discussão sobre reforma do Judiciário.
Segundo Haddad, Lula estaria convencido de que novas mudanças são necessárias à luz dos acontecimentos recentes.
O assunto ganhou espaço durante a campanha porque decisões judiciais e a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário estiveram entre os temas mais discutidos na reta final da eleição.
A participação feminina na chapa
Haddad também comentou a participação de mulheres nas eleições de 2026.
Ele destacou a presença de Marina Silva e Simone Tebet na chapa e afirmou que as duas escolheram disputar o Senado.
O candidato disse ainda que sua composição política possui equilíbrio entre homens e mulheres e citou sua passagem pelo Ministério da Fazenda, afirmando ter indicado mulheres para secretarias nacionais e cargos de primeiro escalão.
O resultado agora pertence às urnas
Apesar das pesquisas desfavoráveis, Haddad encerrou a campanha afirmando estar tranquilo.
A declaração de tranquilidade, naturalmente, contrasta com os números publicados antes da votação. Mas o resultado definitivo não pode ser extraído de pesquisa: ele depende exclusivamente da apuração dos votos.
Tarcísio chegou ao dia da eleição numericamente à frente nos levantamentos mais recentes, enquanto Haddad procurou apresentar uma imagem de serenidade e de satisfação com o caminho percorrido.
No fim, a frase de Haddad resume sua estratégia para o momento decisivo: “É sempre bom sair de uma campanha com a consciência tranquila.”
Agora, porém, não é mais a campanha que fala.
São as urnas.
E, depois das 17h, a “consciência tranquila” dará lugar aos números oficiais que dirão como o eleitor paulista avaliou cada projeto apresentado para governar o maior Estado do país.