Otoni de Paula troca o bolsonarismo por Lula e pede voto evangélico: da “bala” ao abraço político

Otoni de Paula troca o bolsonarismo por Lula e pede voto evangélico: da “bala” ao abraço político

Deputado federal e pastor evangélico, ex-aliado de Bolsonaro declara voto em Lula no primeiro turno e diz ter tido um “encontro com a verdade”; mudança provoca contraste com seu próprio discurso de anos anteriores

O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) protagonizou uma das mudanças mais curiosas da reta final da eleição de 2026. Ex-aliado da família Bolsonaro e conhecido por sua atuação como pastor evangélico, o parlamentar anunciou que votará no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já no primeiro turno.

A declaração foi publicada por Otoni nas redes sociais na sexta-feira (2), dois dias antes da votação. Segundo o deputado, sua decisão seria resultado de uma mudança na avaliação que fazia de Lula e também de sua oposição ao senador Flávio Bolsonaro (PL).

Otoni afirmou que considera a reeleição de Lula “fundamental” para o país e reconheceu que sua decisão poderia trazer consequências políticas.

“Eu fiz oposição muito ferrenha ao senhor, até que eu tive um encontro com a verdade, não com as narrativas de quem era o senhor.”

Depois, declarou:

“O que me faz estar aqui, presidente, é uma decisão que eu tomei de declarar o meu voto ao senhor já neste primeiro turno.”

A política brasileira, como se sabe, tem uma capacidade quase inesgotável de produzir reviravoltas. E poucas são tão fáceis de lembrar quanto esta: o homem que durante anos esteve em um lado da trincheira agora aparece pedindo votos justamente para o adversário que anteriormente combatia.

Do ataque a Lula ao voto no petista

O histórico de Otoni torna a declaração especialmente chamativa.

Em 2022, durante a campanha presidencial, o deputado fez ataques extremamente duros contra Lula e chegou a dizer que lidaria com o petista “na bala”. Anos depois, o próprio Otoni passou a se arrepender da forma como havia feito aquelas declarações.

Em 2025, ele afirmou que poderia ter criticado Lula sem recorrer àquele tipo de linguagem e disse que, ao olhar para trás, percebia que havia se aproximado mais da postura de Bolsonaro do que dos ensinamentos de Jesus.

A mudança, portanto, não aconteceu apenas no voto.

Otoni também mudou a maneira como apresenta sua relação política com Lula.

Aquele Lula que anteriormente era alvo de ataques agora aparece, nas palavras do deputado, como alguém cuja permanência no Palácio do Planalto seria “fundamental” para o país.

É uma transformação política que dispensa qualquer roteirista de novela.

O pastor agora pede compreensão aos evangélicos

Além de declarar seu voto, Otoni direcionou uma mensagem específica ao eleitorado evangélico.

O deputado afirmou que há cristãos sendo pressionados dentro de suas próprias comunidades por causa de escolhas eleitorais diferentes e criticou o que considera uma transformação da religião em instrumento de disputa política.

“O evangélico que vota diferente está sendo excomungado pelos próprios irmãos. Isso não é fé. É ódio usando a Bíblia como escudo.”

Otoni acrescentou:

“Não vou permitir que a igreja, o meu estado e o meu país sejam entregues a quem eu conheci de perto e sei quem é.”

O discurso coloca o parlamentar em uma posição particularmente interessante: ele tenta convencer evangélicos a não transformarem a fé em uma extensão automática da política, ao mesmo tempo em que apresenta uma escolha eleitoral bastante definida.

E aí aparece a grande ironia

Otoni se apresenta como pastor, fala em Bíblia, fé, igreja e ensinamentos de Jesus. Mas a política que o levou até Lula passa justamente por uma mudança radical de lado.

Para seus críticos, a situação oferece uma oportunidade perfeita para uma pergunta irônica:

Se ontem o adversário era apresentado como uma ameaça e hoje é apresentado como uma escolha “fundamental”, o que mudou: Lula ou Otoni?

A resposta, evidentemente, cabe ao próprio deputado.

O fato documentado é que a posição mudou de maneira significativa. Em 2022, Otoni atacava Lula de forma contundente; em 2026, declara voto no petista e pede que evangélicos não tratem a escolha eleitoral como questão de fé.

A crítica política pode, portanto, mirar a coerência do discurso sem precisar transformar a mudança de posição em acusação de crime ou desonestidade.

Flávio Bolsonaro entra diretamente na justificativa

Otoni deixou claro que seu voto em Lula também está relacionado à oposição que passou a fazer a Flávio Bolsonaro.

Em seu pronunciamento, o deputado fez acusações contra o candidato presidencial do PL e o associou a milícias do Rio de Janeiro. Essas são acusações políticas feitas por Otoni, e não devem ser apresentadas como comprovação judicial de envolvimento criminoso.

A mudança, assim, tem dois lados: aproximação com Lula e rompimento ainda mais explícito com o grupo Bolsonaro.

É justamente aí que a declaração ganha dimensão eleitoral. Otoni não está apenas anunciando que mudou de candidato; está explicando sua decisão como uma tomada de posição contra Flávio.

Otoni e a política religiosa

A trajetória do deputado também mostra como o eleitorado evangélico se tornou um dos principais campos de disputa das eleições brasileiras.

Uma pesquisa Datafolha divulgada em 1º de outubro mostrou Flávio Bolsonaro com 52% das intenções de voto entre os evangélicos, enquanto Lula aparecia com desempenho muito inferior nesse segmento. No eleitorado geral, Lula tinha 42% e Flávio, 38%, segundo o levantamento.

É nesse ambiente que Otoni faz seu apelo.

Ao defender que o evangélico não deve ser “excomungado” por votar diferente, o deputado procura se posicionar como uma voz independente dentro do segmento religioso.

A estratégia, porém, inevitavelmente produz uma pergunta política: quantos evangélicos seguirão a recomendação de Otoni?

Isso somente poderá ser medido eleitoralmente.

A aproximação com Benedita da Silva

Outro episódio citado por Otoni reforça sua nova aproximação com o campo petista.

O deputado agradeceu publicamente a Lula pela escolha de Benedita da Silva (PT-RJ) para disputar uma vaga ao Senado. Otoni destacou que Benedita também é evangélica e a chamou de “crente” e “serva de Deus”.

Ele também comparou a escolha de Benedita à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, apresentando ambos como exemplos de presença evangélica na política institucional.

A manifestação deixa evidente que Otoni não pretende apenas declarar voto em Lula. Ele procura construir uma justificativa religiosa e política para sua nova posição.

O Lula que Otoni combatia agora recebe seu voto

O aspecto mais curioso da história continua sendo a distância entre os discursos.

De um lado, está o Otoni de 2022, que atacava Lula de forma agressiva e chegou a utilizar a expressão “na bala”.

De outro, está o Otoni de outubro de 2026, que diz ter encontrado a “verdade”, declara voto em Lula e afirma que sua reeleição é “fundamental” para o Brasil.

A mudança é legítima enquanto escolha política. Parlamentares podem mudar de opinião, rever posições e até reconhecer que estavam errados.

Mas, quando a mudança é tão grande, a memória política inevitavelmente cobra seu preço.

E é justamente aí que nasce a piada pronta:

Otoni saiu do “na bala” para o “Lula, pode contar comigo”.

Para quem acompanha política brasileira, é uma guinada que certamente não passa despercebida.

Lula recebe o novo aliado

Lula respondeu ao gesto de Otoni afirmando que está ao lado dos evangélicos e que pretende conversar com o segmento depois das eleições para discutir pr

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