Congresso volta do “recesso” e já corre pra aumentar salário: um absurdo sem tamanho

Congresso volta do “recesso” e já corre pra aumentar salário: um absurdo sem tamanho

Reajuste para servidores da Câmara e do Senado cria brecha pra salários acima do teto e libera “penduricalhos” que podem dobrar a remuneração

Mal o Congresso Nacional colocou o pé de volta no trabalho e já mostrou qual é a prioridade de sempre: votar aumento salarial. Nesta terça-feira (3), deputados e senadores aprovaram projetos que reajustam os salários dos servidores da Câmara e do Senado — e o pior: abrindo caminho para pagamentos acima do teto do funcionalismo, que hoje é de R$ 46 mil.

E foi tudo no modo turbo. Primeiro aprovaram a urgência, depois votaram e aprovaram as propostas numa velocidade que a população só vê quando o assunto é benefício pra dentro do próprio sistema.

Enquanto isso, temas como custo de vida, segurança, saúde e reforma administrativa seguem empurrados com a barriga.

Aumento com “extra” e bônus que pode dobrar salário

O reajuste não é só sobre salário-base. O pacote vem acompanhado de um cardápio generoso de vantagens que faz qualquer trabalhador comum olhar e pensar: “isso é sério mesmo?”

Os textos aprovados permitem que servidores recebam gratificações extras, e algumas delas podem chegar a 100% do salário. Ou seja: na prática, dá pra dobrar o pagamento, como se fosse normal.

Além disso, o projeto inclui uma espécie de “licença compensatória”:

  • o servidor passa a ter direito a folgas proporcionais aos dias trabalhados;
  • no mínimo, 1 dia de folga a cada 10 dias trabalhados;
  • no máximo, 1 dia de folga a cada 3 dias trabalhados;
  • e se não puder tirar a folga, recebe em dinheiro.

É o tipo de mecanismo que, na vida real, vira mais um atalho pra inflar contracheque.

Brecha para ganhar acima do teto do funcionalismo

O ponto mais revoltante é que, além do reajuste, o projeto abre espaço para remunerações acima do teto constitucional, que deveria ser limite e não “sugestão”.

Hoje o teto do funcionalismo é o salário de ministros do STF: R$ 46.366.

Mas com esses novos adicionais e gratificações, quem está nos cargos mais altos pode ultrapassar isso com facilidade.

O próprio presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), admitiu que a discussão envolve servidores que passarão a ter direito de receber “extra teto” por funções exercidas, como coordenação e direção.

Ou seja, o teto existe… até o momento em que inventam uma forma de passar por cima dele.

Reajustes até 2029: aumento garantido e escalonado

No caso do Senado, o projeto prevê aumentos anuais até 2029, além de atualização de gratificações em cargos especiais.

Exemplos do impacto:

  • Auxiliar legislativo (início de carreira)
    de R$ 3,3 mil em fevereiro → para R$ 5,8 mil em julho de 2029
  • Consultor legislativo (nível mais alto)
    de R$ 13,7 mil em fevereiro → para R$ 24,1 mil em julho de 2029

É um salto enorme — e tudo isso dentro de um país onde milhões vivem com salário mínimo, enfrentam fila no SUS e pagam imposto até no feijão.

“Não sou contra reajuste”, mas…

O deputado Pedro Paulo, relator da reforma administrativa, resumiu bem o problema: reajuste até pode ser discutido, mas penduricalho é outra história.

Ele criticou a criação de mecanismos que empurram salários acima do teto e disse que isso vai na direção contrária do que a sociedade espera e do que se discute numa reforma administrativa séria.

A deputada Adriana Ventura (Novo) também bateu na tecla: o Congresso deveria priorizar uma reforma que reduzisse distorções, porque hoje tem Poder público ganhando três, quatro, cinco vezes mais do que outro.

E aí vem a pergunta que não quer calar:
se existe dinheiro pra dobrar salário e pagar “folga em dinheiro”, por que nunca existe dinheiro pra resolver o básico do país?

Repúdio: quando é pra eles, tudo anda

O mais revoltante é a sensação de deboche.

Porque quando é pra votar:

  • redução de imposto pra comida,
  • melhoria real no serviço público,
  • corte de privilégios,
  • combate aos supersalários,
  • punição pra corrupção,
  • eficiência do Estado,

aí vira “tema complexo”, “precisa de debate”, “não é prioridade”, “vamos discutir depois”.

Mas quando é pra aumentar o próprio sistema, a votação acontece rapidinho, sem drama, sem demora, sem “falta de tempo”.

É um absurdo total.

E o recado que passa pro brasileiro é cruel:
o Congresso trabalha com urgência… mas só quando o benefício é pra dentro.

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