
“Do Val de tornozeleira: quando a justiça aperta, até senador vira refém do relógio”
Aliados gritam por arbitrariedade; governistas chamam de justiça. No meio, Marcos do Val, que saiu do país sem avisar, volta com tornozeleira, bloqueio de bens e fama de ‘senador zumbi’.
A cena não é de filme político, mas poderia ser: Marcos do Val, senador pelo Podemos-ES, desembarca em Brasília vindo dos Estados Unidos, recebido não por eleitores, mas pela Polícia Federal. Onze dias após viajar sem avisar às autoridades, ele agora ostenta uma tornozeleira eletrônica e precisa se recolher à noite, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
As medidas não param aí: passaporte diplomático cancelado, contas bancárias e cartões bloqueados, chaves Pix inutilizadas. É como se, politicamente, Do Val tivesse sido colocado em modo avião.
A decisão dividiu a classe política. Do lado bolsonarista, a narrativa é de abuso de autoridade. Hamilton Mourão (Republicanos-RS) chamou as restrições de “humilhantes e injustificadas” e sugeriu que o Senado reaja para tentar derrubar a decisão. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também prometeu agir, acusando Moraes de arbitrariedade. Rogério Marinho (PL-RN) e outros senadores falaram em ataque ao mandato e à autonomia da Casa. O senador Jorge Seif (PL-SC) foi além e disse que só falta “tirar a alma” do colega — chamando-o de “senador zumbi”.
Já governistas enxergam a cena como justiça pura. Marcelo Freixo (PT), presidente da Embratur, lembrou que Do Val, dos Estados Unidos, chegou a desafiar Moraes publicamente, prevendo um “fim trágico” para o ministro. “O fim foi outro: tornozeleira no pé. Não é perseguição, é justiça contra quem tenta sabotar a democracia”, ironizou.
Outros reforçaram a provocação. Pedro Rousseff (PT) celebrou com fotos do senador ao lado de Bolsonaro e de um agente da PF. Erika Hilton (PSOL-SP) comparou a situação com a de Jair Bolsonaro, também de tornozeleira desde julho, e brincou dizendo que a PF “adereçou o tornozelo do senador com um belo roteador Wi-Fi” assim que ele chegou.
Enquanto aliados prometem uma ofensiva no Senado e adversários comemoram, Do Val entra para o seleto grupo de políticos que precisam voltar para casa no horário marcado. Para alguns, ele é vítima de abuso; para outros, um exemplo de que desafiar a Justiça tem consequências. Seja como for, no momento, sua liberdade cabe na mesma medida da pulseira preta que agora carrega no tornozelo.