Dois anos após a cadeirada em Marçal, Datena fica fora da Câmara e encerra mais uma tentativa de entrar na política

Dois anos após a cadeirada em Marçal, Datena fica fora da Câmara e encerra mais uma tentativa de entrar na política

Jornalista recebeu 51.078 votos para deputado federal em São Paulo; resultado marca a segunda derrota consecutiva nas urnas após a tumultuada eleição municipal de 2024

José Luiz Datena, um dos nomes mais conhecidos da televisão brasileira, não conseguiu transformar sua longa trajetória como apresentador e jornalista em uma cadeira na Câmara dos Deputados. Candidato pelo PSB em São Paulo, Datena recebeu 51.078 votos nas eleições de 2026 e terminou como primeiro suplente do partido, ficando fora das 70 vagas destinadas ao estado.

O resultado ganha um componente ainda mais simbólico porque ocorre exatamente dois anos depois de um dos episódios mais marcantes da campanha eleitoral de 2024: a famosa cadeirada aplicada por Datena em Pablo Marçal durante um debate pela Prefeitura de São Paulo.

A cena percorreu o país, virou assunto internacional e acabou se tornando uma das imagens mais lembradas daquela eleição. Dois anos depois, porém, a política apresentou a Datena uma realidade muito diferente da televisão: não basta ser conhecido; é preciso transformar notoriedade em votos e votos em representação.

Da televisão para as urnas

Datena construiu sua carreira principalmente no jornalismo televisivo, especialmente na cobertura policial.

Natural de Ribeirão Preto, no interior paulista, o jornalista tem 69 anos e começou profissionalmente ainda muito jovem, trabalhando em rádio. Na televisão, passou por emissoras como Record, RedeTV! e Band, onde se consolidou durante anos à frente do Brasil Urgente.

Sua forte presença diante das câmeras fez com que seu nome fosse considerado diversas vezes para disputar cargos eletivos.

Mas a trajetória política foi marcada por idas e vindas.

Antes de efetivamente disputar eleições, Datena chegou a desistir de candidaturas em diferentes momentos. Em 2016, foi pré-candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PP, mas abandonou o projeto. Em 2018, chegou a ser pré-candidato ao Senado pelo DEM e também desistiu. Em 2020, chegou a ser cogitado como candidato a vice-prefeito na chapa de Bruno Covas, mas novamente recuou. Em 2022, pretendia disputar o Senado pelo PSC, mas desistiu outra vez.

A eleição de 2024 finalmente marcou sua entrada efetiva nas urnas.

A eleição que ficou marcada pela cadeirada

Na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2024, Datena concorreu pelo PSDB e terminou em quinto lugar, com 112.344 votos, equivalentes a 1,84% dos votos válidos.

Mas seu desempenho eleitoral acabou ficando em segundo plano diante do episódio ocorrido durante um debate.

Em setembro daquele ano, durante um confronto entre os candidatos, Pablo Marçal provocou Datena com acusações e referências pessoais. Em determinado momento, Datena levantou-se e atingiu Marçal com uma cadeira.

A cena foi imediatamente interrompida, o debate foi suspenso e o episódio passou a dominar a campanha.

A chamada “cadeirada de Datena” tornou-se um dos momentos mais emblemáticos das eleições municipais de 2024.

O episódio também provocou uma discussão mais ampla sobre o nível de agressividade dos debates eleitorais e sobre os limites do confronto entre candidatos.

Marçal chegou a deixar o local e posteriormente falou sobre o episódio. Em meio à repercussão, o caso ganhou enorme espaço nas redes sociais e na cobertura jornalística.

Dois anos depois, outra urna

O calendário eleitoral acabou produzindo uma coincidência curiosa.

Em 2024, Datena estava no centro das atenções por causa da cadeirada.

Em 2026, voltou às urnas tentando conquistar uma vaga na Câmara dos Deputados.

Desta vez, porém, o resultado foi direto: 51.078 votos e nenhuma cadeira garantida.

O número representa menos da metade da votação que recebeu quando disputou a Prefeitura de São Paulo.

E existe uma diferença importante entre os dois sistemas eleitorais. Na eleição para prefeito, o eleitor escolhe diretamente o candidato majoritário. Para deputado federal, a eleição é proporcional: os votos individuais e os votos de legenda ajudam a determinar quantas cadeiras cada partido ou federação conquista.

Mesmo com essa particularidade, Datena não alcançou votação suficiente para ocupar uma das vagas destinadas ao PSB em São Paulo.

O PSB conseguiu eleger deputados, mas Datena ficou de fora

O PSB elegeu 15 deputados federais em oito estados nas eleições de 2026. Em São Paulo, a legenda conseguiu eleger Tabata Amaral, com 476.383 votos, e Jonas Donizette, com 97.335. Datena ficou como primeiro suplente do partido no estado.

O contraste é significativo.

Datena recebeu pouco mais de 51 mil votos, enquanto Tabata ultrapassou 476 mil. Jonas Donizette também ficou à frente com quase 100 mil.

A composição final da bancada paulista teve nomes de diferentes partidos e correntes políticas. O estado elegeu 70 deputados federais, e a maior votação ficou com Lucas Pavanato, do PL, que ultrapassou 3 milhões de votos.

Datena reconhece o resultado

Depois da votação, Datena agradeceu aos eleitores que lhe deram mais de 50 mil votos.

Em uma manifestação nas redes sociais, afirmou que foram “mais de 50 mil votos de confiança” e declarou que a luta continuaria ao lado do povo. Antes disso, publicou uma fotografia ao lado da urna, indicando que considerava cumprido seu dever eleitoral.

A manifestação representa uma postura diferente daquela que marcou parte de sua passagem pela política: depois de tantas desistências, o jornalista efetivamente levou uma candidatura até o fim e recebeu uma votação concreta, ainda que insuficiente para conquistar a vaga.

O próprio Datena já havia colocado a política em dúvida

Depois da derrota de 2024, Datena chegou a afirmar que não pretendia continuar na política.

Em entrevista concedida em 2025, chegou a fazer uma avaliação bastante direta sobre sua experiência política: disse que sabia comentar os problemas, mas tinha dúvidas sobre sua capacidade de resolvê-los politicamente. Também afirmou que seria melhor reclamar do que fazer.

Apesar disso, voltou a disputar uma eleição em 2026.

A candidatura mostrou que o projeto político não havia sido completamente abandonado.

A ironia de uma carreira construída falando de política

Existe uma ironia inevitável no caso Datena.

Durante décadas, ele esteve diariamente diante das câmeras comentando violência, segurança pública, autoridades, governos, corrupção, Justiça e os problemas do país.

Na televisão, tinha um público enorme e uma voz reconhecida nacionalmente.

Quando entrou definitivamente no campo eleitoral, porém, encontrou uma regra diferente: o eleitor não vota em audiência, não vota em tempo de televisão e não vota em fama. Vota em candidatos.

A televisão pode apresentar um nome ao público, mas a urna exige uma decisão individual de milhões de eleitores.

E em 2026, a resposta das urnas foi de 51.078 votos e uma suplência, não uma cadeira na Câmara.

Da cadeirada à suplência

A história eleitoral recente de Datena pode ser resumida por uma sequência curiosa.

Em 2024, ele tentou chegar à Prefeitura de São Paulo, terminou em quinto lugar e ficou marcado nacionalmente pela cadeirada em Pablo Marçal.

Em 2025, chegou a dizer que talvez deixasse a política.

Em 2026, voltou ao jogo eleitoral, agora disputando uma vaga de deputado federal pelo PSB.

E terminou novamente derrotado nas urnas, embora tenha ficado como primeiro suplente da legenda em São Paulo.

A chamada “cadeirada”, portanto, continua como uma das imagens mais lembradas de sua passagem pela política, mas o episódio não se transformou em capital eleitoral suficiente para garantir um mandato parlamentar.

O eleitor deu seu recado

A eleição de 2026 mostrou, mais uma vez, que a transferência de popularidade da televisão para a política não é automática.

Datena continua sendo um personagem conhecido do público brasileiro e acumulou décadas de carreira jornalística. Mas a Câmara dos Deputados será ocupada pelos 70 candidatos que, pelo sistema proporcional e pela distribuição de cadeiras, conseguiram alcançar as condições eleitorais necessárias para assumir os mandatos.

Para Datena, ficam 51.078 votos, a primeira suplência do PSB em São Paulo e uma segunda derrota eleitoral consecutiva.

E para a memória política de São Paulo, permanece uma das cenas mais inusitadas da eleição de 2024: o apresentador que durante anos segurou o microfone diante das câmeras acabou, naquele debate, trocando o argumento pela cadeira.

Dois anos depois, a urna deu a última palavra — e, desta vez, não houve cadeira para Datena.

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