
Escudo das Américas: Trump reúne 15 países contra o crime organizado e coloca PCC e Comando Vermelho no centro da ofensiva
Coalizão liderada pelos Estados Unidos anuncia medidas contra 24 organizações criminosas; Brasil de Lula ficou fora da iniciativa que prevê congelamento de ativos, restrições de vistos e responsabilização por apoio material
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou em marcha uma das principais iniciativas de cooperação regional de seu segundo governo para enfrentar organizações criminosas transnacionais. O chamado Escudo das Américas anunciou, em 22 de setembro de 2026, sua primeira ação conjunta: 15 governos do continente declararam a intenção de adotar medidas coordenadas contra 24 organizações classificadas no documento como organizações narcoterroristas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), duas das principais facções criminosas brasileiras.
A iniciativa foi lançada por Trump em março e ganhou novo peso durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York. O acordo prevê que os países participantes trabalhem conjuntamente nos pilares econômico, de segurança e de coordenação multilateral, ampliando o compartilhamento de inteligência, a cooperação policial e a adoção de medidas financeiras contra organizações criminosas transnacionais.
O ponto mais relevante para o Brasil é justamente a inclusão do PCC e do Comando Vermelho na primeira ação coletiva. Embora a declaração não imponha automaticamente uma legislação idêntica em todos os países, os signatários manifestaram a intenção de aplicar, conforme suas respectivas leis, congelamento de ativos, restrições de imigração e vistos e responsabilização criminal de pessoas que conscientemente forneçam apoio material ou logístico às organizações.
Trump coloca o combate ao crime organizado no centro da agenda
Trump apresentou o Escudo das Américas como uma resposta conjunta ao avanço do narcotráfico e das organizações criminosas que ultrapassam fronteiras nacionais.
Durante a Assembleia Geral da ONU, o presidente americano defendeu uma postura mais dura contra os cartéis e afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a utilizar seu poderio para enfrentar ameaças no Hemisfério Ocidental. A estratégia de Washington inclui classificações de organizações criminosas como organizações terroristas estrangeiras e a ampliação da cooperação com governos latino-americanos.
Independentemente das controvérsias existentes sobre determinados métodos empregados pelos Estados Unidos, o mérito diplomático da iniciativa está na tentativa de transformar o combate ao crime organizado em uma ação coordenada entre vários governos, em vez de tratar as facções criminosas apenas como problemas internos de cada país.
Esse é um dos principais elementos da proposta de Trump: organizações que movimentam dinheiro, armas, drogas e integrantes através de fronteiras podem exigir respostas igualmente transnacionais.
Os 15 países que assinaram a declaração
A declaração conjunta foi assinada pelos governos de:
- Estados Unidos
- Argentina
- Bolívia
- Chile
- Colômbia
- Costa Rica
- República Dominicana
- Equador
- El Salvador
- Guiana
- Honduras
- Panamá
- Paraguai
- Peru
- Trinidad e Tobago
A relação consta da declaração conjunta divulgada pelo Departamento de Estado americano.
Entre as principais lideranças envolvidas estão Donald Trump, dos Estados Unidos; Javier Milei, da Argentina; Rodrigo Paz, da Bolívia; José Antonio Kast, do Chile; Rodrigo Chaves, da Costa Rica; Luis Abinader, da República Dominicana; Daniel Noboa, do Equador; Nayib Bukele, de El Salvador; Mohamed Irfaan Ali, da Guiana; Nasry Asfura, de Honduras; José Raúl Mulino, do Panamá; Santiago Peña, do Paraguai; e Kamla Persad-Bissessar, primeira-ministra de Trinidad e Tobago. Esses líderes participaram da reunião inaugural ou estão associados aos governos que integram a iniciativa.
A etapa mais recente também envolve Colômbia e Peru, que passaram a integrar a coalizão e assinaram a declaração conjunta de setembro.
PCC e Comando Vermelho entram na mira internacional
A inclusão das duas maiores facções brasileiras é um dos aspectos de maior repercussão do acordo.
O PCC e o Comando Vermelho passaram a figurar, ao lado de organizações como a Mara Salvatrucha (MS-13), o Tren de Aragua, o Cartel de Sinaloa, o Cartel de Jalisco Nueva Generación, o Clan del Golfo, o ELN e o Sendero Luminoso, entre os 24 grupos mencionados na declaração.
A lista completa inclui:
- Mara Salvatrucha (MS-13);
- Tren de Aragua;
- Carteles Unidos;
- Cartel del Golfo;
- La Nueva Familia Michoacana;
- Cartel del Noreste;
- Cartel de Jalisco Nueva Generación (CJNG);
- Cartel de Sinaloa;
- Gran Grif;
- Viv Ansanm;
- Los Lobos;
- Los Choneros;
- Barrio 18;
- Cartel de los Soles;
- Clan del Golfo;
- Primeiro Comando da Capital (PCC);
- Comando Vermelho (CV);
- Assassins Chone;
- Los Viagras;
- Cartel de Juárez/La Línea;
- grupos dissidentes das FARC;
- ELN;
- Sendero Luminoso;
- Los Tiguerones.
A grande diferença: dinheiro, fronteiras e logística
O Escudo das Américas não se limita a uma declaração política.
O documento estabelece a intenção de atingir a estrutura financeira e logística das organizações. Isso significa que integrantes, associados e apoiadores podem ser submetidos a restrições de vistos e imigração, enquanto ativos podem ser congelados de acordo com as legislações nacionais.
Também está prevista a responsabilização de pessoas que forneçam conscientemente apoio material, inclusive logístico, às organizações.
Na prática, a estratégia procura atingir não somente quem executa diretamente atividades criminosas, mas também estruturas que permitem a manutenção e expansão dessas redes.
O pedido para ativar o Tratado do Rio
Outro ponto relevante é a intenção dos países participantes de apresentar um pedido ao Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA) para convocar uma reunião de consulta relacionada ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), conhecido como Tratado do Rio, de 1947.
O objetivo declarado é discutir mecanismos para facilitar ações coletivas contra organizações narcoterroristas.
Os países do Escudo das Américas que não são atualmente partes do tratado também declararam apoio à iniciativa, dentro de suas respectivas obrigações jurídicas.
Argentina de Milei participa ativamente
A Argentina de Javier Milei tornou-se um dos principais parceiros regionais da iniciativa.
Milei participou da reunião inaugural do Escudo das Américas em março, organizada por Trump em Miami. A Presidência argentina informou que a coalizão foi concebida para promover segurança, combater crime organizado e narcotráfico e ampliar a cooperação entre os países do continente.
A participação argentina também demonstra que a iniciativa não se limita à relação bilateral entre Washington e seus vizinhos. O objetivo é construir uma rede regional de cooperação.
Equador e El Salvador enfrentam diretamente o problema
O Equador de Daniel Noboa está entre os países que colocaram o combate ao crime organizado no centro de sua agenda de segurança.
El Salvador, governado por Nayib Bukele, também participa da coalizão. A presença salvadorenha tem importância especial porque a Mara Salvatrucha (MS-13) está entre os 24 grupos atingidos pela declaração.
A lógica da coalizão é simples: se as organizações criminosas operam internacionalmente, os governos precisam compartilhar informações e agir conjuntamente.
E o Brasil de Lula?
É neste ponto que surge a principal questão política para o Brasil.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva não integra o Escudo das Américas. O Brasil também não participou da reunião que lançou a iniciativa em março. México e Venezuela igualmente estão fora da coalizão.
A ausência brasileira ganha uma dimensão ainda maior porque justamente PCC e Comando Vermelho, organizações que atuam no território nacional, foram colocados entre os alvos da primeira ação conjunta do grupo.
Isso não significa que o Brasil esteja impedido de combater essas organizações ou que não possua instrumentos próprios de repressão ao crime organizado. Também não significa que a declaração internacional transforme automaticamente PCC e CV em organizações terroristas segundo a legislação brasileira.
O ponto é outro: o Brasil ficou fora dessa estrutura específica de cooperação internacional liderada pelos Estados Unidos.
A legislação brasileira possui uma definição própria de terrorismo, e a classificação adotada pelo Escudo das Américas não altera automaticamente o ordenamento jurídico brasileiro.
A escolha brasileira e a comparação regional
A posição do governo Lula precisa ser observada dentro de sua própria política externa.
O presidente brasileiro tem defendido a soberania nacional e uma política externa que não fique subordinada a iniciativas de Washington. Em seu discurso na ONU, Lula afirmou que o Brasil não cabe no “quintal de ninguém”, enquanto Trump apresentou uma agenda de maior atuação americana no Hemisfério Ocidental.
A questão que permanece para o debate brasileiro é se a distância em relação ao Escudo das Américas representa uma opção diplomática deliberada ou se significa perder oportunidades de cooperação internacional no enfrentamento de organizações que também ameaçam diretamente a segurança brasileira.
Essa avaliação cabe ao debate público e às autoridades brasileiras.
O que o acordo representa
O Escudo das Américas ainda não significa a criação de uma força militar única ou a aplicação automática de uma mesma sanção em todos os países.
Cada governo deverá adotar as medidas de acordo com sua própria legislação e suas obrigações internacionais. Portanto, o alcance prático dependerá da implementação nacional.
Mas o anúncio possui peso político e estratégico.
Pela primeira vez desde a criação da coalizão, os integrantes anunciaram uma ação conjunta específica contra organizações criminosas, colocando na mesma lista grupos que atuam em diferentes partes do continente.
Para os Estados Unidos, a iniciativa reforça a estratégia de Trump de colocar o combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional no centro da política para as Américas.
Para os países latino-americanos participantes, representa uma oportunidade de ampliar intercâmbio de inteligência, cooperação de segurança e mecanismos financeiros contra redes criminosas.
Para o Brasil, entretanto, fica uma pergunta inevitável: por que o país que abriga o PCC e o Comando Vermelho não está sentado à mesa de uma iniciativa regional que justamente colocou essas duas organizações entre seus principais alvos?
Um debate que o governo brasileiro terá de enfrentar
O governo Lula pode sustentar que a soberania brasileira exige que decisões de segurança sejam tomadas dentro das instituições nacionais. Esse é um argumento legítimo e faz parte da posição oficial brasileira.
Ao mesmo tempo, o avanço de organizações criminosas transnacionais cria problemas que ultrapassam fronteiras.
Dinheiro pode sair de um país e chegar a outro. Drogas atravessam fronteiras. Armas circulam por diferentes rotas. Integrantes de organizações criminosas podem operar em vários territórios. Empresas e estruturas financeiras podem ser utilizadas para movimentar recursos.
Por isso, a cooperação internacional pode ser uma ferramenta importante, desde que respeite a legislação de cada país e os direitos fundamentais.
O mérito do Escudo das Américas, neste aspecto, está em tentar criar justamente esse mecanismo de coordenação.
E o mérito político de Donald Trump está em ter colocado a proposta de uma articulação regional contra o crime organizado no centro de sua agenda e em pressionar o