
“Esse é meu”: vereador de Curitiba é flagrado recebendo dinheiro vivo e caso de ‘rachadinha’ explode no Paraná
Vídeo autorizado pela Justiça mostra Lórens Nogueira contando notas entregues por servidora; Gaeco apreendeu mais de R$ 100 mil durante operação
A política curitibana amanheceu mergulhada em mais uma crise que mistura poder, dinheiro e suspeitas graves dentro da máquina pública. O vereador Lórens Nogueira, do PP, foi filmado recebendo dinheiro vivo de uma servidora nomeada em seu gabinete, em um vídeo obtido durante investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná.
As imagens, autorizadas pela Justiça, mostram o parlamentar contando as notas, conversando com a funcionária e guardando o dinheiro dentro de uma mochila, em uma cena que caiu como uma bomba no cenário político da capital paranaense. Segundo os investigadores, a quantia entregue era de R$ 5,6 mil e faria parte de um suposto esquema de “rachadinha” que estaria funcionando desde o início do mandato.
A gravação foi feita na sede do instituto presidido pelo vereador. Em determinado momento, a servidora confirma que o valor se referia ao salário do mês anterior. A cena, fria e direta, escancara um tipo de prática que há anos revolta a população brasileira: assessores sendo pressionados a devolver parte do salário para manter cargos públicos.
De acordo com o Ministério Público, a funcionária relatou ter se sentido pressionada a realizar empréstimos para conseguir repassar os valores exigidos. A suspeita dos investigadores é de que o esquema não envolvia apenas uma servidora, mas todos os 12 funcionários nomeados pelo gabinete de Lórens Nogueira.
As investigações apontam ainda que, em alguns casos, os servidores precisavam devolver mais da metade dos salários recebidos. O Gaeco afirma que os repasses identificados durante a investigação são compatíveis com a prática conhecida como rachadinha — mecanismo ilegal em que assessores devolvem parte da remuneração a políticos ou superiores hierárquicos.
Durante a operação realizada em Curitiba, os agentes apreenderam duas malas com dinheiro. Uma delas, encontrada na residência do vereador, continha cerca de R$ 100 mil em espécie. Outra, localizada no endereço de uma assessora, guardava aproximadamente R$ 8 mil. Equipamentos eletrônicos, documentos e outros materiais também foram recolhidos para perícia.
A defesa do vereador informou inicialmente que não havia tido acesso completo aos autos da investigação. Horas depois, os advogados anunciaram que deixariam a representação do parlamentar. Em nova nota divulgada posteriormente, a defesa afirmou que está analisando o processo e que irá adotar as medidas jurídicas cabíveis, ressaltando o direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
A Câmara Municipal de Curitiba declarou que colaborou com o cumprimento dos mandados e informou que ainda não havia sido oficialmente comunicada sobre os detalhes da investigação. Já o PP preferiu não comentar o caso.
Eleito pela primeira vez em 2024 com 4.727 votos, Lórens Nogueira ocupava a presidência do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara de Curitiba — cargo que deixou após a operação. A ironia da situação chamou atenção nos bastidores políticos: justamente o responsável por zelar pela ética parlamentar agora se vê no centro de uma investigação que coloca sua própria conduta sob suspeita.
Enquanto o caso avança, a população acompanha mais um episódio que reforça o desgaste da confiança nas instituições públicas. O vídeo, que rapidamente repercutiu nas redes sociais e nos bastidores políticos, transformou a investigação em um dos assuntos mais comentados do Paraná nesta semana.