“Fake news, né, presidente?”: jornalista confronta Lula sobre boato envolvendo Nossa Senhora Aparecida

“Fake news, né, presidente?”: jornalista confronta Lula sobre boato envolvendo Nossa Senhora Aparecida

Presidente foi questionado ao vivo por Adriana Araújo, mas evitou confirmar que a história era falsa mesmo após a associação de Flávio Bolsonaro à suposta retirada do título de Padroeira do Brasil ter sido desmentida

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi confrontado durante entrevista ao programa Canal Livre, da Band, ao comentar a polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

Lula afirmou que “mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável” e mencionou episódios anteriores envolvendo ataques à imagem da santa. Foi nesse momento que a jornalista Adriana Araújo interrompeu o presidente e fez uma pergunta direta:

“Mas foi uma fake news, né, presidente?”

A resposta de Lula chamou atenção:

“Eu não sei se foi fake news.”

Em seguida, o presidente afirmou que o assunto estava circulando fortemente nas redes sociais e declarou que Nossa Senhora Aparecida continuaria sendo Padroeira do Brasil porque “o povo brasileiro quer e tem fé”.

A fala que expôs a contradição

O problema da declaração está justamente no momento em que Lula foi colocado diante de uma informação que já havia sido contestada e desmentida.

A história que circulou nas redes sociais afirmava que Flávio Bolsonaro, caso fosse eleito presidente, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Não havia, porém, projeto apresentado por Flávio com esse objetivo. A polêmica surgiu a partir do resgate de um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli, que acabou arquivado em 2008. A proposta não era de Flávio Bolsonaro e não estava em tramitação.

Flávio negou a associação e afirmou publicamente que não existia qualquer proposta sua para retirar o título da santa.

Mesmo assim, o assunto ganhou enorme repercussão nas redes sociais.

E foi justamente nesse ponto que Adriana Araújo colocou Lula diante da pergunta que precisava ser feita: se a informação era falsa, por que tratá-la como se fosse uma ameaça política concreta?

O momento do vídeo

A sequência da entrevista é bastante clara.

Lula começa falando sobre o respeito às religiões e afirma:

“Esse negócio de mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável, não é aceitável, não dá.”

Depois menciona que já houve pessoas de outras religiões que teriam atacado a santa.

É então que Adriana Araújo intervém:

“Mas foi uma fake news, né, presidente?”

Lula não responde simplesmente “sim”.

Em vez disso, afirma:

“Eu não sei se foi fake news.”

Na sequência, ele sustenta que o assunto estava “na rede social muito forte” e utiliza a própria repercussão como argumento para continuar tratando do tema.

A crítica: repercussão não transforma boato em fato

É justamente aí que cabe a crítica.

Uma informação não se torna verdadeira porque viralizou. Quantidade de compartilhamentos não é prova de veracidade.

Se uma acusação envolvendo um candidato é falsa, o fato de milhões de pessoas comentarem sobre ela não transforma a mentira em verdade. O papel de autoridades, candidatos e jornalistas deveria ser justamente separar aquilo que é fato daquilo que é boato.

A própria CNN registrou que a associação de Flávio Bolsonaro à suposta retirada do título de Nossa Senhora Aparecida surgiu de conteúdos publicados nas redes sociais e que o candidato negou a existência de qualquer proposta nesse sentido.

Por isso, a pergunta de Adriana Araújo foi objetiva e necessária:

“Fake news, né, presidente?”

A resposta de Lula — “Eu não sei se foi fake news” — deixa uma questão política evidente: mesmo depois de a informação ter sido contestada, o presidente preferiu não reconhecer categoricamente que se tratava de uma notícia falsa.

O episódio virou munição eleitoral

O assunto ganhou força justamente na reta final do primeiro turno das eleições de 2026.

A associação entre Flávio Bolsonaro e uma suposta tentativa de retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil passou a circular intensamente nas redes. O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), posteriormente determinou a remoção de publicações relacionadas ao conteúdo, classificando-as como “notoriamente inverídicas”.

Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou a decisão de Mendonça em um caso envolvendo o humorista Antonio Tabet, entendendo que a medida havia produzido censura prévia.

Assim, a polêmica passou a envolver não apenas Lula e Flávio Bolsonaro, mas também TSE, STF, liberdade de expressão, redes sociais e propaganda eleitoral.

Repúdio à exploração de uma informação falsa

Não é necessário concordar com Flávio Bolsonaro ou com qualquer outro candidato para reconhecer um princípio básico: uma eleição não deveria ser disputada com acusações falsas atribuídas aos adversários.

Religião, especialmente Nossa Senhora Aparecida, ocupa um espaço afetivo e cultural extremamente importante para milhões de brasileiros. Transformar uma informação não comprovada em arma eleitoral pode provocar uma reação emocional muito maior do que uma discussão política comum.

É justamente por isso que a fala de Lula merece ser questionada.

O presidente poderia simplesmente ter dito: “Sim, é fake news.”

Mas não foi isso que respondeu.

Diante da pergunta direta da jornalista, Lula disse que não sabia se era fake news e continuou explorando politicamente o tema.

A resposta que ficou no ar

O trecho mais marcante da entrevista acabou sendo justamente o diálogo curto entre a jornalista e o presidente:

Adriana Araújo: “Mas foi uma fake news, né, presidente?”

Lula: “Eu não sei se foi fake news.”

A partir daí, o episódio deixou de ser apenas uma discussão sobre Nossa Senhora Aparecida e passou a representar mais um capítulo da disputa eleitoral de 2026.

A crítica que fica é simples: se a informação era falsa, não bastava dizer que Nossa Senhora continuaria sendo Padroeira do Brasil. Era preciso dizer claramente que a acusação contra Flávio Bolsonaro era falsa.

A jornalista fez a pergunta. Lula teve a oportunidade de esclarecer.

Preferiu deixar a resposta em aberto.

E, em uma campanha eleitoral cada vez mais marcada por desinformação, religião e disputa nas redes sociais, essa escolha de palavras — “eu não sei se foi fake news” — acabou falando tanto quanto o restante da entrevista.

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