Flávio Bolsonaro defende André Mendonça após encontro com Vorcaro e volta a atacar Alexandre de Moraes

Flávio Bolsonaro defende André Mendonça após encontro com Vorcaro e volta a atacar Alexandre de Moraes

Senador afirma que reunião entre ministro do STF e ex-dono do Banco Master não invalida investigação e aproveita novas revelações para reforçar críticas a Moraes

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) saiu em defesa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça após a confirmação de que o magistrado se reuniu com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, em março de 2025, meses antes de Mendonça assumir a relatoria do caso que envolve a instituição financeira.

A revelação acrescentou um novo elemento à crise que envolve o Banco Master e atingiu diretamente o ambiente interno do Supremo. Mendonça confirmou o encontro depois que mensagens e áudios apreendidos pela Polícia Federal no celular de Vorcaro vieram a público. Segundo o ministro, ele recebeu o empresário uma única vez, por iniciativa do próprio Vorcaro, e se limitou a ouvi-lo.

A reunião ocorreu aproximadamente um ano antes de Mendonça assumir a relatoria do caso Master no STF, em fevereiro de 2026. De acordo com a explicação apresentada pelo ministro, o assunto discutido foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, processo relacionado a créditos de precatórios de interesse do Banco Master.

Mendonça sustenta que sua atuação no processo contrariou os interesses de Vorcaro. A versão apresentada pelo ministro é que o encontro não representou qualquer compromisso com as pretensões do empresário e que, após ouvi-lo, foram recebidos memoriais técnicos relacionados ao processo.

Flávio transforma revelação em argumento político

A confirmação da reunião levou Flávio Bolsonaro a defender publicamente Mendonça e, simultaneamente, a utilizar o episódio para voltar a concentrar críticas no ministro Alexandre de Moraes, que também aparece no centro das investigações relacionadas à relação entre Vorcaro e autoridades do Judiciário.

A estratégia política de Flávio ocorre em um momento em que o caso Master passou a ocupar espaço relevante no debate eleitoral de 2026. O senador tem explorado as mensagens encontradas no celular de Vorcaro para questionar a relação do empresário com integrantes das instituições de poder.

As novas revelações, portanto, criaram uma situação politicamente mais complexa: ao mesmo tempo em que Mendonça conduz uma apuração que alcança fatos relacionados a Moraes, o próprio relator passou a ser questionado sobre seu contato anterior com Vorcaro.

Flávio, porém, sustenta que as duas situações não devem ser colocadas no mesmo nível. Na avaliação do senador, o fato de Mendonça ter recebido Vorcaro antes de assumir a relatoria não elimina a necessidade de investigar as mensagens e os contatos atribuídos ao ex-banqueiro.

O encontro entre Mendonça e Vorcaro

Segundo Mendonça, o encontro aconteceu em março de 2025, em São Paulo, no Instituto Iter, entidade fundada pelo próprio ministro. O magistrado afirmou que recebeu Vorcaro uma única vez e que a iniciativa partiu do empresário.

O ministro também confirmou que, no mesmo período, recebeu um advogado ligado a Vorcaro e que permaneceu com os memoriais entregues naquela ocasião.

A reunião foi articulada com a participação do advogado Ciro Rocha Soares e do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Segundo relatos divulgados pela imprensa, mensagens extraídas do aparelho de Vorcaro registraram a movimentação para viabilizar o encontro.

As mensagens, entretanto, passaram a gerar questionamentos porque indicariam que a aproximação entre Vorcaro e Mendonça envolvia também assuntos relacionados ao ambiente regulatório do Banco Master. Mendonça não confirmou diálogos privados entre terceiros e afirmou que não comentaria o conteúdo dessas conversas.

O caso dos precatórios

O processo citado por Mendonça envolve a STP 976, relacionada ao pagamento de precatórios ligados à Agroindustrial Tabu. A discussão já estava no Supremo antes da reunião com Vorcaro.

O caso havia sido relatado anteriormente pelo então presidente do STF, Luís Roberto Barroso, e sua análise foi interrompida após pedido de vista de Alexandre de Moraes. Posteriormente, com a devolução dos autos e mudanças na tramitação, o processo voltou a avançar.

Mendonça afirma que, apesar de ter ouvido Vorcaro, sua posição jurisdicional foi contrária à pretensão defendida pelo empresário. Essa circunstância é utilizada pelo ministro para sustentar que o encontro não resultou em favorecimento processual.

A investigação que colocou Moraes no centro da crise

O episódio ganhou dimensão maior porque veio a público apenas um dia depois de Mendonça retirar o sigilo de material produzido pela Polícia Federal sobre a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.

O relatório policial reúne mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro e apresenta contatos que, segundo os investigadores, precisam ser analisados para determinar se Vorcaro tentou utilizar sua proximidade com autoridades para obter informações, influência ou algum tipo de intervenção em assuntos de interesse do Banco Master.

Entre os materiais divulgados está uma mensagem na qual Vorcaro pergunta a um interlocutor associado a Moraes se deveria deixar o país antes de ser preso. A interpretação dos investigadores relaciona referências feitas pelo empresário a nomes como Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.

A existência da mensagem, contudo, demonstra que Vorcaro fez o pedido; por si só, não comprova que Moraes tenha atendido à solicitação ou interferido em uma investigação.

Contrato de R$ 131 milhões também entra no caso

Outro ponto que aumentou a pressão sobre Moraes foi a descoberta de informações relacionadas ao contrato de aproximadamente R$ 131,2 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, pertencente à advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Segundo análise de documentos apreendidos pela PF, uma versão do contrato teria sido editada por um perfil do Office 365 identificado como pertencente a Alexandre de Moraes. O episódio passou a integrar o conjunto de fatos que alimentam questionamentos sobre a relação entre o ministro, sua família e Vorcaro.

A investigação ainda precisa estabelecer o significado jurídico de cada contato e de cada documento. Relações profissionais ou encontros com um empresário, isoladamente, não constituem prova de crime ou de interferência judicial.

Mendonça pede que STF avalie as mensagens

Diante das revelações, Mendonça solicitou que o plenário do Supremo examine publicamente o material obtido pela Polícia Federal. A intenção é permitir que os demais ministros avaliem o conteúdo das mensagens e decidam os próximos passos da apuração.

A iniciativa coloca o próprio Supremo diante de uma questão institucional delicada: o tribunal terá de avaliar elementos que envolvem diretamente um de seus integrantes, ao mesmo tempo em que o relator responsável por levar o material à Corte também passou a ser questionado por ter tido contato anterior com Vorcaro.

O episódio ampliou o conflito entre STF, Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal sobre os limites da atuação judicial na condução da investigação. Paulo Gonet, por exemplo, questionou a forma como Mendonça determinou determinadas diligências e pediu a anulação de parte da investigação.

A disputa política

Para Flávio Bolsonaro, a controvérsia reforça a necessidade de uma investigação ampla, sem distinção entre autoridades. O senador voltou a utilizar o caso para atacar Moraes e questionar sua relação com Vorcaro.

A ofensiva também tem evidente dimensão eleitoral. Flávio é um dos principais nomes do campo bolsonarista na disputa de 2026 e vem utilizando o caso Master para construir uma narrativa de cobrança sobre o STF e, particularmente, sobre Moraes.

O cenário, entretanto, ganhou uma nova camada com a confirmação do encontro entre Mendonça e Vorcaro. A revelação permite que críticos do relator questionem a proximidade anterior entre ambos, enquanto seus defensores ressaltam que a reunião ocorreu antes de Mendonça assumir a relatoria e que, segundo o próprio ministro, sua decisão no processo citado foi contrária aos interesses do empresário.

O ponto central da investigação permanece, portanto, na análise objetiva das mensagens, documentos, contratos e decisões judiciais. O desafio para o STF será determinar se o material revela apenas relações institucionais e profissionais de Vorcaro com autoridades ou se existem elementos concretos capazes de sustentar suspeitas de interferência indevida em investigações ou processos.

A confirmação do encontro de Mendonça com Vorcaro não encerra essa questão. Ao contrário, acrescenta um novo capítulo à crise e aumenta a pressão para que o Supremo estabeleça, de forma transparente, quais fatos devem ser investigados, quais provas possuem relevância jurídica e quais acusações permanecem apenas no campo político.

Nesse ambiente, Flávio Bolsonaro e André Mendonça passaram a ocupar posições convergentes em um aspecto específico: ambos defendem que o material envolvendo Alexandre de Moraes seja submetido a escrutínio. A diferença está no papel de cada um. Flávio atua como liderança política e oposicionista; Mendonça, como ministro responsável pela condução judicial do caso.

O resultado da apuração poderá ter consequências que ultrapassam o Banco Master. A investigação passou a envolver relações entre empresários, advogados, ministros do STF, Ministério Público, Polícia Federal e agentes políticos, transformando o caso em uma das mais sensíveis disputas institucionais do cenário brasileiro em 2026.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags