PF aponta possível interferência de Paulo Gonet em eleição de conselho de procuradores

PF aponta possível interferência de Paulo Gonet em eleição de conselho de procuradores

Mensagens no celular de Daniel Vorcaro relatam pedido para retirada de candidatura no CNPG em favor de Jarbas Soares Júnior

Um relatório da Polícia Federal (PF) trouxe à tona uma possível atuação do procurador-geral da República, Paulo Gustavo Gonet Branco, na eleição para a presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG), realizada em 2024.

A informação aparece em mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e envolve o advogado Ciro Soares, apontado nos diálogos como intermediário entre Vorcaro e autoridades. Segundo o material, Soares teria procurado Gonet para pedir que um dos candidatos à presidência do conselho desistisse da disputa, abrindo caminho para Jarbas Soares Júnior, então procurador-geral de Justiça de Minas Gerais.

O pedido atribuído a Ciro Soares

A conversa registrada pela PF ocorreu em 14 de abril de 2024, aproximadamente um mês antes da eleição. Em áudio encaminhado a Vorcaro, Ciro Soares relatou que havia pedido a Paulo Gonet que conversasse com o candidato concorrente para que ele retirasse sua candidatura.

Segundo o relato reproduzido no relatório, Gonet teria posteriormente informado a Ciro que havia feito o contato e que o candidato desistiria.

O diálogo é utilizado pela PF como elemento que pode indicar uma possível interferência na disputa interna do Ministério Público, embora o relatório registre a versão apresentada pelo interlocutor e não represente, por si só, uma conclusão definitiva sobre eventual irregularidade de Gonet.

Jarbas Soares Júnior venceu a eleição

Pouco depois das conversas, Jarbas Soares Júnior foi eleito presidente do CNPG, em 15 de maio de 2024.

Antes disso, segundo o relatório, Ciro Soares havia encaminhado a Vorcaro uma mensagem atribuída a Jarbas na qual o então procurador-geral de Justiça de Minas Gerais agradecia o apoio recebido e destacava a aproximação com Paulo Gonet.

O episódio ganha relevância porque o CNPG reúne os chefes dos Ministérios Públicos estaduais e da União, funcionando como importante espaço de articulação institucional entre as procuradorias-gerais de Justiça.

O elo com Daniel Vorcaro

A descoberta ocorreu durante a perícia realizada pela PF no telefone de Daniel Vorcaro, no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master.

O nome de Paulo Gonet aparece em diferentes trechos do material. Em outro episódio, também revelado pela investigação, Pedro Gonet, filho do procurador-geral, teria solicitado a Vorcaro participação em um evento jurídico em Londres com despesas custeadas pelo banqueiro. O evento acabou não sendo realizado.

Também aparecem referências a uma possível tentativa de Vorcaro de obter auxílio de autoridades. Em uma das conversas, o banqueiro fala sobre a necessidade de atuação de “Andrei e Paulo”, referência que a PF associa ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, e a Paulo Gonet.

A questão da interferência

O ponto mais delicado do episódio é a natureza da suposta atuação atribuída a Gonet.

Se confirmada, a iniciativa descrita nas mensagens significaria que o procurador-geral da República teria utilizado sua influência para tentar alterar o equilíbrio de uma eleição interna do Ministério Público. Por outro lado, o material divulgado não estabelece, sozinho, que Gonet tenha cometido crime ou praticado uma ilegalidade.

A PF encontrou o relato no aparelho de Vorcaro e reproduziu a narrativa apresentada por Ciro Soares. Ainda é necessário verificar o contexto completo, a identidade do candidato mencionado, se houve efetivamente contato com ele e quais foram as circunstâncias de eventual desistência.

Relatório sob contestação

A revelação ocorre justamente quando o relatório da PF está no centro de uma disputa institucional.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo do documento e determinou o encaminhamento dos elementos para análise. Já Paulo Gonet pediu a anulação do relatório, alegando que a PF teria produzido elementos sobre autoridades com prerrogativa de foro sem a necessária provocação ou autorização no procedimento pré-processual.

A situação cria um paradoxo institucional: o próprio procurador-geral da República aparece citado no material cuja validade jurídica ele contesta.

O que está em jogo

O caso ultrapassa a disputa envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master. As mensagens colocam sob análise as relações mantidas pelo empresário com integrantes de diferentes instituições — STF, PGR e Polícia Federal.

No caso específico de Paulo Gonet, a questão central é saber se houve apenas uma articulação política ou institucional dentro do Ministério Público ou se ocorreu uma atuação indevida para influenciar uma eleição do CNPG.

Por enquanto, a palavra-chave é “possível”. O relatório da PF apresenta mensagens e relatos que precisam ser confrontados com outros elementos. A existência das conversas não é suficiente, isoladamente, para comprovar interferência ilegal.

O episódio, contudo, acrescenta mais uma frente à crise provocada pelo material extraído do celular de Daniel Vorcaro e aumenta a pressão sobre as instituições responsáveis por investigar e fiscalizar o próprio sistema de Justiça.

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