
Flávio Bolsonaro divulga diplomas após polêmica sobre pós-graduação atribuída à UFRJ
Candidato à Presidência apresentou certificados de Direito, Políticas Públicas e MBA, mas não incluiu formação em Ciências Políticas que aparecia em páginas oficiais do Senado e da Alerj; UFRJ afirma não ter encontrado registro acadêmico do senador
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) decidiu colocar sobre a mesa seus diplomas acadêmicos depois que uma informação presente em páginas oficiais do Senado Federal e da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) levantou dúvidas sobre sua formação.
Na noite de quarta-feira, 12 de agosto de 2026, o senador publicou nas redes sociais imagens dos documentos que, segundo ele, comprovam sua trajetória acadêmica. A iniciativa ocorreu depois da repercussão de uma pós-graduação em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) atribuída a ele em perfis institucionais.
O problema é que essa formação específica não aparece nos diplomas apresentados pelo parlamentar.
Mais do que uma simples divergência curricular, o episódio abriu uma discussão sobre a responsabilidade das instituições públicas na divulgação de biografias oficiais e sobre como informações incorretas podem permanecer durante anos em páginas destinadas a apresentar autoridades à população.
“Para que não restem dúvidas”
Ao divulgar os documentos, Flávio Bolsonaro procurou encerrar a controvérsia apresentando aquilo que considera ser a comprovação objetiva de sua formação.
“Para que não restem dúvidas sobre minha formação acadêmica, conquistada à base de vários anos de muito estudo e dedicação, seguem meus diplomas”, escreveu o senador na publicação.
Na sequência, ele mostrou três documentos.
O primeiro corresponde ao bacharelado em Direito pela Universidade Cândido Mendes (Ucam).
O segundo é referente à especialização em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e pela Escola de Políticas Públicas e Governo.
O terceiro diploma apresentado é de MBA em Empreendedorismo e Desenvolvimento de Novos Negócios pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
A formação em Ciências Políticas pela UFRJ, entretanto, não aparece entre os certificados divulgados.
A informação que provocou a crise
A controvérsia começou porque páginas oficiais ligadas à trajetória política de Flávio apresentavam uma formação diferente.
Na página do Senado Federal, a biografia do parlamentar o descrevia como “bacharel em direito e pós-graduado em ciências políticas”.
Segundo as informações divulgadas, essa página aparece como atualizada em janeiro de 2019.
Na Alerj, onde Flávio Bolsonaro exerceu quatro mandatos como deputado estadual, a ficha do político indicava especificamente uma “pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ, Rio de Janeiro, RJ”.
A informação, portanto, não estava restrita a uma publicação informal em rede social ou a um currículo elaborado por terceiros. Ela aparecia em páginas institucionais utilizadas para apresentar o histórico de um agente público.
Foi justamente essa discrepância que levou ao questionamento.
UFRJ diz não ter registro
A Universidade Federal do Rio de Janeiro foi procurada para verificar se Flávio Bolsonaro havia efetivamente frequentado ou concluído algum curso na instituição.
A resposta da universidade acrescentou uma peça importante ao quebra-cabeça.
Segundo a UFRJ, uma consulta realizada por meio do Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (SIGA) não encontrou registro de Flávio Bolsonaro como aluno da universidade.
Ou seja: a instituição não confirmou a existência da pós-graduação que aparecia nas biografias oficiais do senador.
Isso explica por que a formação passou a ser tratada como uma informação incorreta.
Campanha fala em “equívoco”
A equipe de Flávio Bolsonaro negou que o senador tenha afirmado possuir uma formação que não possui.
Em resposta à reportagem, a assessoria declarou que a trajetória acadêmica correta é composta pelo bacharelado em Direito, pela pós-graduação em Políticas Públicas e pelo MBA em Empreendedorismo.
Segundo a campanha, registros diferentes desses seriam “erros ou equívocos”.
A assessoria também levantou a possibilidade de que informações antigas tenham sido reproduzidas a partir de páginas como a Wikipédia.
A campanha afirmou ainda que havia solicitado a correção dos dados nas plataformas oficiais.
A versão apresentada pela equipe, portanto, desloca a origem do problema: em vez de uma suposta tentativa deliberada de inflar o currículo do candidato, a explicação apresentada é a de que informações incorretas teriam sido incorporadas ou reproduzidas pelas páginas institucionais.
Senado e Alerj entram no centro do questionamento
O caso também colocou o Senado e a Alerj diante da necessidade de explicar como a informação chegou aos perfis oficiais de Flávio Bolsonaro.
O Terra informou que procurou as duas instituições para saber de onde os dados haviam sido extraídos e quais procedimentos foram utilizados para compor as biografias do parlamentar.
Até a atualização da reportagem, as respostas ainda eram aguardadas.
A questão é relevante porque uma biografia institucional não tem o mesmo peso de uma descrição publicada em uma página pessoal.
Quando uma informação aparece em um site oficial do Poder Legislativo, o leitor tende a entendê-la como um dado verificado pela própria instituição.
Se a informação estava incorreta, resta saber quando o erro surgiu, quem o forneceu originalmente e por que permaneceu publicado durante anos.
A diferença entre Políticas Públicas e Ciências Políticas
Outro ponto importante da controvérsia é a semelhança entre as denominações.
Flávio Bolsonaro de fato apresentou um diploma de especialização em Políticas Públicas.
Entretanto, as páginas do Senado e da Alerj indicavam pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ.
Embora os nomes possam parecer próximos para quem não acompanha a área acadêmica, tratam-se de denominações distintas.
A própria divulgação dos diplomas feita pelo senador reforçou essa diferença: o documento apresentado corresponde a Políticas Públicas, enquanto a formação atribuída a ele pelas páginas institucionais era relacionada a Ciências Políticas e à UFRJ.
O episódio, portanto, não se resolve simplesmente com a afirmação de que Flávio possui uma pós-graduação. Ele possui, segundo os documentos publicados, uma especialização em uma área diferente daquela que constava nas biografias questionadas.
Um currículo no meio de uma campanha presidencial
A controvérsia também ocorre em um momento particularmente sensível da trajetória política de Flávio Bolsonaro.
O senador é candidato do PL à Presidência da República nas eleições de 2026 e está no centro de uma disputa nacional.
Nesse ambiente, cada informação biográfica ganha peso.
Formação acadêmica, experiência profissional e trajetória política passam a ser examinadas com maior atenção, especialmente porque os dados divulgados por candidatos funcionam também como parte da construção de sua imagem pública.
A divulgação dos diplomas pode ser interpretada, nesse contexto, como uma tentativa de substituir a controvérsia documental por documentos concretos.
Em vez de apenas afirmar que os dados publicados eram incorretos, Flávio decidiu apresentar os certificados que possui.
O que os documentos comprovam
Com os documentos divulgados pelo próprio senador, a formação apresentada publicamente é:
- Bacharelado em Direito, pela Universidade Cândido Mendes;
- Especialização em Políticas Públicas, pelo IUPERJ e pela Escola de Políticas Públicas e Governo;
- MBA em Empreendedorismo e Desenvolvimento de Novos Negócios, pela Fundação Getulio Vargas.
A formação em Ciências Políticas pela UFRJ não foi apresentada.
E a universidade, por sua vez, informou não ter localizado registro acadêmico de Flávio Bolsonaro no sistema consultado.
Um erro que permaneceu nas páginas oficiais
A campanha afirma que os registros diferentes são fruto de erros ou equívocos e diz ter pedido a correção.
Essa explicação, porém, deixa algumas perguntas em aberto.
Se o dado estava errado, por que apareceu simultaneamente em páginas oficiais do Senado e da Alerj?
Se a informação foi retirada de uma fonte externa, como afirmou a assessoria ao mencionar a possibilidade de dados provenientes da Wikipédia, por que ela foi incorporada a perfis institucionais sem uma verificação adicional?
E, principalmente, há quanto tempo a informação incorreta vinha sendo apresentada ao público?
Essas respostas dependem das instituições responsáveis pelas páginas.
O episódio e a disputa pela narrativa
A política contemporânea também é uma disputa permanente pela narrativa.
Um currículo não é apenas uma lista de diplomas. Ele funciona como uma espécie de cartão de apresentação pública: revela formação, sugere preparo e ajuda a construir a imagem que um político deseja projetar diante do eleitor.
Quando aparece uma informação incorreta, a própria narrativa pode se transformar em problema.
No caso de Flávio Bolsonaro, a resposta veio acompanhada de documentos.
O senador não apresentou um certificado referente à formação atribuída à UFRJ. Apresentou outros três documentos e afirmou que eles representam sua verdadeira trajetória acadêmica.
A UFRJ, por sua vez, declarou não ter localizado registro de sua passagem como aluno.
O Senado e a Alerj foram questionados sobre a origem das informações publicadas em suas páginas.
Assim, o episódio permanece dividido entre três versões complementares: os documentos apresentados por Flávio, os registros institucionais que traziam uma informação diferente e a universidade que não encontrou o vínculo acadêmico correspondente.
Enquanto as páginas oficiais não forem definitivamente corrigidas e a origem do dado não for esclarecida, a polêmica continuará sendo menos sobre a existência de diplomas e mais sobre como uma informação curricular incorreta chegou aos registros públicos de um candidato à Presidência e permaneceu ali por tanto tempo.
Em uma eleição presidencial, na qual cada detalhe da biografia pode ser transformado em argumento político, o caso mostra como até uma linha de currículo pode ganhar dimensão nacional.