
Flávio Bolsonaro transforma Paulista em palco contra Moraes e Lula, com recado eleitoral e símbolos de confronto
Ato de 7 de Setembro reuniu cerca de 28,5 mil pessoas, segundo estimativa da USP/Cebrap, e foi marcado por ataques a Alexandre de Moraes, críticas a Lula, defesa de André Mendonça e uma forte simbologia política que levou até um boneco de Donald Trump segurando o presidente brasileiro para o centro da manifestação
A Avenida Paulista voltou a ser, neste 7 de Setembro, um dos principais palcos da disputa política brasileira. Liderado pelo senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), o ato transformou a tradicional manifestação de rua da direita em um grande protesto contra o ministro Alexandre de Moraes, contra o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, ao mesmo tempo, em uma demonstração de força eleitoral a poucas semanas das eleições.
A estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap apontou aproximadamente 28,5 mil pessoas no pico da manifestação, número calculado a partir de imagens aéreas e ferramentas de análise. O contingente ficou abaixo dos atos realizados na mesma avenida em anos anteriores: foram estimadas 42,2 mil pessoas em 2025, 45,4 mil em 2024 e 32,7 mil em 2022.
O dado, naturalmente, ganhou espaço na cobertura jornalística. E aí aparece uma das ironias do episódio: em meio a um ato que pretendia produzir uma demonstração política nacional, parte considerável da repercussão acabou concentrada justamente na pergunta sobre quantas pessoas estavam na Paulista.
Quase 30 mil pessoas não são pouca coisa. É um contingente capaz de ocupar quilômetros de uma das avenidas mais simbólicas do país, mobilizar lideranças nacionais, provocar repercussão política e transformar um feriado nacional em uma plataforma eleitoral. Ao mesmo tempo, o número precisa ser colocado em perspectiva: foi menor que manifestações bolsonaristas anteriores realizadas no mesmo local.
A dimensão política do ato, portanto, não depende apenas da fotografia aérea ou da contagem de pessoas. Ela está também na quantidade de lideranças presentes, nas mensagens transmitidas e, principalmente, na tentativa de Flávio Bolsonaro de transformar a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal em eixo central de sua campanha presidencial.
O ataque direto a Moraes
No discurso, Flávio adotou uma linguagem de confronto aberto. O ministro Alexandre de Moraes foi colocado no centro dos ataques, e o senador estabeleceu uma associação direta entre o magistrado e o presidente Lula.
A frase mais emblemática foi: “Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes.” A declaração transformou o confronto institucional com o ministro em argumento eleitoral e procurou apresentar a eleição presidencial como uma espécie de escolha entre a continuidade do atual cenário político e uma mudança na relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
Flávio também afirmou que, caso seja eleito presidente, pretende indicar cinco novos ministros para o STF, além de declarar que Moraes “vai cair”. A proposta é uma das mensagens mais fortes de sua campanha e sinaliza que a composição do Supremo deverá ser utilizada como um dos principais temas da disputa eleitoral.
A estratégia é evidente: transformar o debate sobre o Supremo em uma questão diretamente ligada ao voto presidencial.
Na narrativa construída por Flávio e por seus apoiadores, Lula e Moraes passaram a representar faces de um mesmo sistema político. É uma leitura eleitoral e política do conflito, e não uma conclusão jurídica sobre eventual responsabilidade de qualquer autoridade.
O boneco de Trump e a simbologia internacional
Entre os elementos visuais que chamaram atenção estava um boneco inflável de Donald Trump segurando Lula.
Mais do que uma simples peça cenográfica, a imagem funciona como uma síntese visual da mensagem que os organizadores e manifestantes procuraram transmitir: colocar Lula, Trump, Bolsonaro e o conflito político brasileiro dentro de uma mesma narrativa internacional.
A imagem também demonstra como a direita brasileira passou a incorporar símbolos estrangeiros à sua comunicação política. Trump aparece, para parte dos manifestantes, como uma referência internacional de enfrentamento ao establishment e de resistência à esquerda. Lula, por sua vez, é apresentado na caricatura política como o símbolo máximo do campo adversário.
A cena tem algo de teatral — e justamente por isso é eficiente para as redes sociais.
Enquanto discursos políticos precisam de minutos para explicar uma tese, um boneco gigante segurando o presidente Lula produz uma mensagem instantânea, facilmente fotografável e reproduzível nas plataformas digitais.
É política transformada em imagem.
E, em tempos de campanhas eleitorais cada vez mais disputadas nas redes, a imagem muitas vezes fala antes do discurso.
André Mendonça ganha espaço entre os manifestantes
Outro elemento importante foi a defesa do ministro André Mendonça, integrante do STF e figura central na atual crise institucional que envolve diferentes setores do Judiciário, da Polícia Federal e o caso Banco Master.
Manifestantes fizeram coro em apoio a Mendonça, enquanto Alexandre de Moraes foi alvo de críticas e pedidos de afastamento. O contraste entre os dois ministros tornou-se um dos símbolos da manifestação.
A crise entre Moraes e Mendonça passou a ocupar espaço crescente no debate político depois de decisões judiciais e de revelações envolvendo documentos, mensagens e relações investigadas no contexto do caso Banco Master. As acusações e suspeitas divulgadas publicamente continuam sendo objeto de controvérsia e investigação e não devem ser tratadas automaticamente como fatos definitivamente comprovados.
Foi justamente essa atmosfera de desconfiança em torno das instituições que Flávio utilizou para construir seu discurso.
Tarcísio, Nikolas, Malafaia e outras lideranças
O palco também reuniu importantes nomes da direita brasileira.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, participou do ato; também estiveram presentes o deputado federal Nikolas Ferreira, o pastor Silas Malafaia, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, além de outras lideranças e parlamentares.
Cada um apresentou sua própria abordagem, mas o eixo comum foi a crítica ao Supremo e, especialmente, a Alexandre de Moraes.
O evento, portanto, não foi apenas uma manifestação de apoiadores de Flávio. Funcionou também como uma espécie de vitrine para a reorganização da direita brasileira em torno de uma nova candidatura presidencial.
Jair Bolsonaro não estava presente. O ex-presidente está em prisão domiciliar, e sua ausência tornou ainda mais evidente o esforço de Flávio para ocupar o espaço político deixado pelo pai.
A ausência de Bolsonaro e a tentativa de transferência de liderança
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes do ato.
Durante anos, as manifestações bolsonaristas foram organizadas em torno da imagem de Jair Bolsonaro. Em 2026, porém, o cenário é diferente. Bolsonaro está afastado das ruas, e Flávio tenta demonstrar que consegue mobilizar a base política do pai e transformar esse capital eleitoral em uma candidatura própria.
A Paulista funcionou, nesse sentido, como um teste.
Flávio não precisava apenas falar contra Lula ou Moraes. Precisava mostrar que existe uma multidão disposta a acompanhá-lo.
E a fotografia registrada na avenida entregou duas mensagens simultâneas.
De um lado, 28,5 mil pessoas representam uma mobilização expressiva, capaz de gerar imagens de impacto e demonstrar que a direita continua com capacidade de ocupação das ruas.
De outro, o número ficou abaixo de manifestações anteriores, o que permite aos adversários argumentar que houve perda de capacidade de mobilização.
As duas interpretações podem coexistir.
A imprensa e a obsessão pelo número
É justamente nesse ponto que surge uma crítica possível à cobertura do evento.
A quantidade de pessoas é um dado jornalístico legítimo e deve ser informado. O problema aparece quando a dimensão política de uma manifestação passa a ser reduzida exclusivamente a uma contagem.
“Foram só 30 mil” pode ser uma manchete politicamente conveniente para quem deseja diminuir o impacto do protesto. Mas 30 mil pessoas em uma avenida como a Paulista continuam sendo uma multidão considerável.
Ao mesmo tempo, seria igualmente equivocado transformar 28,5 mil pessoas em prova automática de que existe uma maioria nacional apoiando determinada candidatura.
A verdade está no meio do caminho: foi uma manifestação relevante, mas menor do que atos anteriores da mesma corrente política.
A ironia é que a própria tentativa de diminuir o tamanho do evento acaba revelando sua importância. Se o ato fosse politicamente irrelevante, dificilmente o número de participantes seria tratado como uma das principais informações da cobertura.
Uma campanha eleitoral disfarçada de manifestação?
Embora apresentado como protesto, o ato teve evidente dimensão eleitoral.
Flávio utilizou o palanque para atacar Lula, atacar Moraes, apresentar propostas para o STF, falar sobre a sucessão de Jair Bolsonaro e reforçar sua imagem como candidato presidencial.
O discurso foi construído para uma eleição que já começou a ser disputada nas ruas e nas redes.
A frase “quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes” resume essa estratégia. Flávio tenta deslocar a eleição de uma disputa tradicional entre projetos econômicos e sociais para uma disputa sobre o poder das instituições e o papel do STF.
A mensagem é simples: votar nele seria, segundo sua narrativa, votar contra o atual modelo de relação entre política e Judiciário.
A grandeza do ato está também no seu significado político
Independentemente da posição ideológica de cada cidadão, não é possível ignorar o significado de uma manifestação que leva dezenas de milhares de pessoas à principal avenida política de São Paulo e coloca o Supremo Tribunal Federal no centro de um discurso eleitoral.
A Paulista tornou-se novamente um palco nacional.
Ali estavam políticos, religiosos, parlamentares, candidatos, apoiadores e militantes. Havia cartazes, símbolos, bandeiras, críticas ao governo e ataques ao Supremo. Havia também a tentativa de construir uma imagem internacional do conflito, representada pelo boneco de Trump segurando Lula.
É uma política de rua, de símbolos e de confronto.
E Flávio Bolsonaro entendeu que precisava transformar essa energia em capital eleitoral.
O resultado não foi uma multidão recorde. Foi uma multidão de aproximadamente 28,5 mil pessoas. Não foi o maior ato bolsonarista da história da Paulista. Mas também não foi um evento irrelevante.
Foi um ato suficientemente grande para ocupar a avenida, suficientemente organizado para reunir diferentes lideranças da direita e suficientemente politizado para colocar Alexandre de Moraes e Lula no centro de uma narrativa eleitoral.
No fim, talvez essa seja a principal leitura do 7 de Setembro na Paulista: não se tratou apenas de contar cabeças.
Tratou-se de medir forças.
E, enquanto a imprensa discutia se eram 30 mil, 28,5 mil ou menos, Flávio Bolsonaro aproveitou o palco para apresentar aquilo que pretende ser a principal bandeira de sua campanha: a promessa de enfrentar Lula, confrontar Alexandre de Moraes e alterar profundamente a composição do Supremo Tribunal Federal.
O número é importante.
Mas a mensagem política produzida naquela avenida pode ser ainda mais importante para a eleição que se aproxima.