
Erika Hilton critica boneco de Trump em ato de Flávio Bolsonaro na Paulista e transforma símbolo do protesto em novo embate político
Deputada do PSOL questiona presença de representação gigante do presidente dos Estados Unidos no ato liderado por Flávio Bolsonaro; boneco segurava caricatura de Lula com roupa de presidiário e virou uma das imagens mais comentadas da manifestação
A manifestação liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) na Avenida Paulista, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro, ganhou um novo capítulo na disputa política brasileira depois que a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) criticou a presença de um gigantesco boneco inflável representando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O episódio, que poderia parecer apenas mais uma provocação visual de uma manifestação política, acabou assumindo dimensão simbólica maior. O boneco mostrava Trump segurando uma caricatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), vestida com roupa de presidiário. A imagem foi exibida entre manifestantes e rapidamente passou a circular nas redes sociais e na cobertura jornalística do ato.
A escolha do símbolo não foi casual. O evento de Flávio Bolsonaro teve como um de seus principais eixos a crítica a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Ao mesmo tempo, a presença de Trump reforçou a aproximação simbólica de parte do bolsonarismo com o político norte-americano, cuja imagem se tornou uma referência internacional para setores da direita brasileira.
Erika Hilton entra no confronto
Erika Hilton criticou publicamente a utilização do boneco e questionou a opção dos organizadores de inserir a imagem de Trump em uma manifestação realizada justamente no Dia da Independência do Brasil.
A reação da deputada deve ser compreendida dentro de uma disputa política muito maior. Erika é uma das principais vozes do PSOL no Congresso Nacional e pertence ao campo político alinhado ao governo Lula e à esquerda brasileira, enquanto Flávio Bolsonaro se apresenta como o principal candidato da direita bolsonarista à Presidência.
O choque entre os dois lados, portanto, não ficou limitado à estética do boneco.
A discussão passou a envolver soberania, alinhamento internacional, identidade política e a própria utilização de símbolos estrangeiros em manifestações brasileiras.
Trump segurando Lula: a imagem que resumiu o ato
Se discursos políticos precisam de vários minutos para construir uma narrativa, uma imagem pode fazer isso em poucos segundos.
Foi exatamente o que ocorreu na Paulista.
O boneco gigante apresentava Donald Trump segurando uma caricatura de Lula caracterizada como presidiário. A mensagem era visualmente direta: Trump aparecia como uma espécie de figura de força diante de Lula, enquanto o presidente brasileiro era representado de forma depreciativa.
A caricatura não constitui, evidentemente, uma representação oficial de Trump ou do governo norte-americano. Trata-se de uma peça de manifestação política criada por apoiadores presentes no evento.
Mas seu impacto comunicacional foi evidente.
Para os apoiadores de Flávio, a imagem funcionou como uma provocação política e uma demonstração de alinhamento ideológico. Para os adversários, tornou-se justamente o exemplo que pretendiam utilizar para acusar o bolsonarismo de buscar apoio e inspiração política fora do país.
É a velha política transformada em espetáculo visual — e, na era das redes sociais, uma fotografia pode valer mais do que um longo discurso.
A presença de Trump não foi um detalhe isolado
O boneco também dialogou com outros elementos presentes na manifestação.
Segundo relatos sobre o ato, participantes exibiram bandeiras, cartazes de apoio ao ex-presidente americano e até bonés associados ao slogan “Make America Great Again”, marca política de Trump.
Isso mostra que a referência aos Estados Unidos fazia parte de uma estética política mais ampla.
Não era apenas Lula contra Flávio.
Na simbologia apresentada na Paulista, apareciam Lula, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Alexandre de Moraes e Donald Trump, todos conectados por uma narrativa política que ultrapassa as fronteiras brasileiras.
Flávio Bolsonaro transformou o 7 de Setembro em palanque eleitoral
O contexto é fundamental.
O ato foi liderado por Flávio Bolsonaro em meio à disputa presidencial de 2026. O senador utilizou o palanque para atacar Lula e Moraes, associando os dois politicamente e defendendo mudanças na composição do STF.
A manifestação reuniu aproximadamente 28,5 mil pessoas, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap, abaixo dos números registrados em atos semelhantes na Paulista em 2025, 2024 e 2022.
Mesmo não sendo a maior manifestação bolsonarista realizada na avenida, o evento teve forte repercussão política porque reuniu diversas lideranças da direita.
Estiveram no entorno político do ato nomes como o governador Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira, Silas Malafaia e Valdemar Costa Neto, entre outros.
A ausência de Jair Bolsonaro, por sua vez, tornou ainda mais evidente o esforço de Flávio para ocupar o espaço político do pai e apresentar-se como seu principal herdeiro eleitoral.
A provocação contra Lula
A escolha de representar Lula com roupa de presidiário também não pode ser separada do discurso bolsonarista.
A imagem recupera uma das formas mais tradicionais de ataque político utilizadas contra o presidente, fazendo referência ao período em que Lula esteve preso após condenações posteriormente anuladas pelo STF por questões processuais relacionadas à competência da 13ª Vara Federal de Curitiba.
No ambiente do ato, porém, a caricatura foi utilizada como instrumento de ataque político, e não como uma representação jurídica da situação atual do presidente.
Esse detalhe é importante porque manifestações políticas frequentemente misturam fatos, opiniões, caricaturas e acusações em uma mesma mensagem visual.
A ironia da “independência”
É justamente aqui que surge a ironia política explorada pelos críticos de Flávio.
No Dia da Independência do Brasil, uma das imagens de maior destaque de uma manifestação brasileira apresentava um presidente estrangeiro, Donald Trump, segurando uma caricatura do presidente do Brasil.
Para os críticos, a cena oferece uma contradição difícil de ignorar: enquanto o discurso político fala em soberania nacional, a estética do protesto escolhe um líder estrangeiro como personagem de força.
Para os apoiadores, entretanto, a interpretação é diferente. Trump aparece como símbolo de uma corrente política internacional com a qual o bolsonarismo se identifica.
A mesma imagem, portanto, produz duas leituras completamente opostas.
Para um lado, é uma demonstração de alinhamento internacional.
Para o outro, é uma provocação política contra Lula e uma representação da força da direita conservadora.
O papel de Erika Hilton nesse embate
Ao criticar o boneco, Erika Hilton acabou entrando diretamente nessa guerra de símbolos.
A deputada não estava apenas reagindo a uma peça inflável. Sua crítica se encaixa na disputa mais ampla entre esquerda e direita sobre o significado do 7 de Setembro, sobre o governo Lula, sobre Donald Trump e sobre o futuro político brasileiro.
De um lado, o campo bolsonarista tenta transformar a relação com Trump em elemento de identidade política e resistência ao governo Lula.
Do outro, parlamentares da esquerda procuram apresentar essa aproximação como sinal de submissão política ou de inadequação ao discurso de soberania nacional.
A discussão, portanto, está longe de ser apenas sobre um boneco.
O mérito — e o limite — da provocação política
O mérito de uma manifestação democrática é justamente poder produzir imagens, discursos e símbolos capazes de provocar debate público.
O limite está em não confundir caricatura com fato, provocação com prova ou propaganda política com realidade institucional.
Nesse caso, o boneco cumpriu perfeitamente sua função de propaganda visual: chamou atenção, gerou fotografias, provocou adversários e colocou Trump e Lula no centro da conversa.
Erika Hilton, ao criticá-lo, também contribuiu para ampliar sua repercussão.
É a lógica da política contemporânea: o símbolo é lançado para provocar; o adversário reage; a reação aumenta a circulação da imagem; e a imagem passa a ter vida própria nas redes sociais.
Um ato marcado pelo confronto
O episódio do boneco é apenas uma parte de uma manifestação muito mais ampla.
O ato de Flávio Bolsonaro foi estruturado em torno de críticas ao STF, especialmente a Alexandre de Moraes, ataques ao governo Lula, defesa de André Mendonça e construção de uma imagem eleitoral do senador como sucessor político de Jair Bolsonaro.
Nesse ambiente, Donald Trump apareceu como símbolo internacional da direita, enquanto Lula foi transformado em alvo central das caricaturas e dos discursos.
Erika Hilton, ao contestar essa escolha, representa o outro lado da trincheira política.
O resultado foi uma disputa que ultrapassou o palanque.
A Paulista virou palco de uma guerra de imagens: de um lado, Flávio Bolsonaro tentando transformar a manifestação em demonstração de força eleitoral; do outro, seus adversários tentando enquadrar os símbolos do ato como evidência das contradições do bolsonarismo.
E o boneco de Trump acabou sintetizando tudo isso.
Um presidente americano segurando uma caricatura do presidente brasileiro, no coração da Avenida Paulista e no Dia da Independência, dificilmente seria uma imagem neutra.
Era, antes de tudo, uma provocação.
E, politicamente, uma provocação que funcionou: chamou atenção, provocou Erika Hilton, movimentou as redes e ajudou a transformar um objeto inflável em um dos personagens involuntários do 7 de Setembro de 2026.