
Foto confirma presença de Haddad no mesmo palco que Alessandra Moja, alvo de operação contra o PCC
Registro feito durante visita de Lula à Favela do Moinho, em junho de 2025, recoloca no centro da disputa entre Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas uma imagem que o petista havia dito não ter localizado; meses depois do evento, Alessandra foi presa na Operação Sharpe
A disputa eleitoral pelo governo de São Paulo ganhou um novo capítulo depois que uma fotografia passou a ser usada para contestar a declaração de Fernando Haddad de que não teria encontrado a imagem citada por Tarcísio de Freitas durante o primeiro debate entre os candidatos.
A fotografia existe. E o registro mostra Haddad e Alessandra Moja Cunha no mesmo palco durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Favela do Moinho, no centro de São Paulo, em 26 de junho de 2025. A imagem também aparece em registros da imprensa e em materiais relacionados ao evento.
É importante, porém, separar duas coisas: a fotografia comprova que Haddad e Alessandra estiveram no mesmo espaço e em determinado momento no palco; ela não demonstra, por si só, que Haddad conhecesse as acusações que posteriormente seriam feitas contra ela, nem que tivesse qualquer relação com atividades criminosas.
Essa distinção é fundamental para compreender o episódio sem transformar uma fotografia em prova de algo que ela não demonstra.
A cena que voltou à campanha
O assunto ressurgiu durante o debate entre Tarcísio e Haddad no domingo, 9 de agosto de 2026. O governador acusou o adversário de ter dividido o palco com uma mulher que, segundo as investigações policiais posteriores, exerceria papel relevante na estrutura criminosa que atuava na Favela do Moinho.
Haddad reagiu dizendo que não conhecia Alessandra e questionou por que Tarcísio, caso soubesse que ela era uma traficante, não teria determinado sua prisão.
A discussão ganhou outra dimensão dois dias depois.
Em sabatina na RedeTV!, Haddad afirmou que havia procurado a fotografia mencionada por Tarcísio e não a havia encontrado. Disse ainda que o governador poderia ter recebido a informação de terceiros e classificou a acusação como uma mentira.
Foi justamente nesse ponto que a campanha de Tarcísio apresentou as imagens.
Os registros mostram Haddad no palco, conversando com Márcio França, enquanto Alessandra aparece também no espaço destinado às chamadas lideranças comunitárias. Segundo a reportagem do Metrópoles, não há, nas imagens analisadas, registro de interação entre Haddad e Alessandra.
Portanto, a afirmação mais precisa é: Haddad efetivamente aparece no mesmo palco que Alessandra Moja. Não há, contudo, evidência apresentada nas imagens de que os dois tenham conversado ou mantido algum tipo de vínculo.
Quem era Alessandra Moja naquele momento
A história fica mais complexa quando se olha para o que aconteceu depois.
Em junho de 2025, Alessandra era apresentada publicamente como uma liderança comunitária da Favela do Moinho. Ela presidia uma associação de moradores e participou das articulações relacionadas à visita de Lula à comunidade.
A visita presidencial tinha como tema central a situação habitacional das famílias que viviam no Moinho. O governo federal e o governo paulista discutiam uma solução para o reassentamento dos moradores.
A própria Folha registrou que Alessandra participou de uma reunião com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Márcio Macêdo, no dia anterior à visita de Lula. Segundo o governo federal, a reunião tratou da questão habitacional e das aproximadamente 900 famílias que viviam na comunidade.
No dia seguinte, Lula esteve no Moinho e anunciou recursos para auxiliar as famílias na compra de novos imóveis.
Naquele contexto, portanto, Alessandra não aparecia publicamente identificada como integrante de uma organização criminosa. Ela se apresentava como representante dos moradores.
Essa circunstância é relevante porque a investigação que posteriormente resultou em sua prisão é posterior à fotografia.
Três meses depois, a operação policial
Em 8 de setembro de 2025, cerca de dois meses e meio depois da visita de Lula, Alessandra foi presa durante a Operação Sharpe, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, com apoio das polícias Civil e Militar.
A operação tinha como objetivo atingir uma estrutura criminosa que, segundo os investigadores, atuava no tráfico de drogas na Favela do Moinho e tinha ligação com o Primeiro Comando da Capital, o PCC.
Foram expedidos dez mandados de prisão preventiva e 21 mandados de busca e apreensão. As autoridades informaram a prisão de vários suspeitos e a apreensão de celulares e outros materiais.
Alessandra era uma das principais pessoas procuradas.
O motivo de sua posição de destaque na investigação estava também em seu parentesco: ela é irmã de Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moinho, apontado pelas autoridades como liderança do tráfico na comunidade e ligado ao PCC.
Léo havia sido preso anteriormente, durante a Operação Salus et Dignitas, em 2024.
Segundo as investigações, mesmo preso, ele continuaria exercendo influência sobre as atividades criminosas na comunidade.
O papel atribuído a Alessandra
O Ministério Público atribuiu a Alessandra um papel que ia além da simples condição de parente de Léo.
Segundo a investigação, ela teria atuado na organização e mobilização de manifestações contra ações policiais, além de transmitir informações ao irmão e auxiliar na administração de negócios relacionados à estrutura criminosa.
Também foram apresentadas suspeitas de cobrança de valores de moradores envolvidos no processo de saída da comunidade e de participação em atividades relacionadas à lavagem de dinheiro.
A Folha informou que, segundo os investigadores, Alessandra teria administrado um ferro-velho associado à família e enviado ao irmão informações contábeis.
Em outra frente da investigação, foram apreendidas drogas e uma lista de moradores durante buscas relacionadas ao caso, segundo informações divulgadas pelas autoridades.
É importante registrar que essas são acusações e conclusões apresentadas no âmbito da investigação, e não devem ser confundidas automaticamente com uma condenação judicial definitiva.
A ligação familiar com Léo do Moinho
O nome de Alessandra passou a ganhar peso na investigação justamente porque seu irmão, Leonardo Moja, conhecido como Léo do Moinho, era apontado como uma das principais lideranças criminosas da região.
Segundo o Ministério Público, Léo continuava a emitir ordens mesmo depois de preso.
A investigação descreveu uma estrutura organizada, com distribuição de funções e controle territorial, voltada para o comércio de drogas.
A operação de setembro de 2025 foi justamente apresentada pelas autoridades como uma tentativa de desmontar essa estrutura.
Entre os outros presos estavam Yasmin Moja Flores, filha de Alessandra, e José Carlos da Silva, conhecido como Carlinhos, apontado pelas autoridades como sucessor de Léo na estrutura do tráfico. Também foram presos outros investigados, entre eles Jorge de Santana e Cláudio dos Santos Celestino, conhecido como Xocolate.
A controvérsia política
É nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma fotografia e passa a ocupar espaço na disputa eleitoral de 2026.
Tarcísio utiliza o episódio para questionar a relação dos adversários políticos com as lideranças comunitárias que circulavam pelo Moinho.
Haddad, por sua vez, sustenta que não conhecia Alessandra e acusa Tarcísio de usar posteriormente uma investigação policial para construir uma narrativa política contra ele.
Há uma diferença temporal importante nessa discussão.
A fotografia foi feita em junho de 2025. A prisão de Alessandra ocorreu em setembro de 2025.
Ou seja, quando Haddad esteve no palco, ela ainda era apresentada publicamente como liderança comunitária. A investigação que resultaria em sua prisão veio posteriormente.
Isso não elimina o fato de que Haddad estava efetivamente no mesmo palco que Alessandra, mas também não autoriza concluir, apenas pela imagem, que ele soubesse de eventual envolvimento dela com o crime organizado.
O que a fotografia prova — e o que ela não prova
A imagem permite estabelecer alguns fatos objetivos:
- Haddad esteve na atividade realizada na Favela do Moinho;
- Alessandra Moja também esteve no evento;
- os dois aparecem simultaneamente em determinado momento no palco;
- Márcio França também aparece na mesma cena;
- o evento ocorreu durante a visita de Lula à comunidade, em junho de 2025;
- meses depois, Alessandra foi presa na Operação Sharpe.
Mas a fotografia não comprova:
- que Haddad conhecesse Alessandra pessoalmente;
- que soubesse de eventual ligação dela com o PCC;
- que tivesse participação ou conhecimento de crimes investigados;
- que existisse acordo político ou criminoso entre os dois;
- que Haddad tivesse qualquer participação nas atividades atribuídas a Alessandra.
Esse é justamente o ponto em que a crítica política precisa ser acompanhada de precisão jornalística.
Lula, Moinho e o encontro que antecedeu a prisão
O caso também alcança o governo Lula porque Alessandra participou da articulação comunitária relacionada à visita presidencial.
Segundo a Secretaria-Geral da Presidência, o encontro realizado em 25 de junho de 2025 teve como objetivo discutir a situação habitacional dos moradores.
A pasta afirmou que o governo conversou com moradores e lideranças da comunidade para construir uma saída pacífica e uma solução habitacional.
Depois da prisão de Alessandra, o governo federal destacou que eventual envolvimento dela com crimes deveria ser tratado pelas autoridades de segurança e pela Justiça.
A visita presidencial, portanto, ocorreu em um contexto de política habitacional e diálogo com moradores — e não como uma agenda declaradamente relacionada à segurança pública.
O ponto mais delicado para Haddad
Politicamente, entretanto, a existência da fotografia cria um problema para Haddad porque sua declaração de que não havia encontrado a imagem acabou sendo confrontada pelos registros divulgados posteriormente.
A fotografia existe e mostra Haddad no mesmo palco que Alessandra Moja.
Isso torna imprecisa qualquer afirmação de que o encontro não aconteceu.
Mas existe uma diferença igualmente importante: dizer que Haddad esteve no mesmo palco não é o mesmo que afirmar que ele mantinha relação com a organização criminosa investigada.
Até aqui, os materiais apresentados sobre o episódio demonstram a coincidência física no evento e a posterior prisão de Alessandra, mas não apresentam evidência de que Haddad tivesse conhecimento prévio das acusações contra ela ou participação em suas atividades.
Essa distinção deve permanecer no centro da cobertura.
A política transforma uma fotografia em arma eleitoral
O episódio mostra como uma fotografia produzida em um evento público pode ganhar uma dimensão completamente diferente meses depois.
Em junho de 2025, a imagem registrava autoridades e lideranças comunitárias durante uma visita presidencial.
Em setembro, a mesma personagem que aparecia como liderança comunitária foi presa em uma operação contra uma estrutura que, segundo o Ministério Público, tinha ligação com o PCC.
Em agosto de 2026, quase um ano depois, a fotografia reapareceu no centro da disputa eleitoral entre Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas.
A imagem é verdadeira.
A presença de Haddad no palco também é verdadeira.
A prisão posterior de Alessandra é igualmente um fato documentado.
O que permanece como questão política — e não como conclusão automática da fotografia — é o que Haddad sabia naquele momento, se sabia alguma coisa sobre as atividades investigadas posteriormente e se houve alguma relação além da presença simultânea no evento.
Essa é a pergunta que a fotografia recoloca na campanha. E é também o limite que uma cobertura jornalística responsável precisa respeitar.