
Globo demite Frederic Kachar após vazamento de conversas com Daniel Vorcaro; mensagens expõem negociações comerciais, pedidos de divulgação e encontros privados
Executivo que comandava jornais, revistas e rádios do grupo deixou o cargo após a divulgação de diálogos mantidos com o ex-banqueiro entre 2023 e 2025; conversas abordam a promoção de marcas, patrocínios milionários, tentativas de influenciar a exposição de conteúdos e questionamentos sobre a cobertura jornalística do Banco Master.
O Grupo Globo anunciou nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, a demissão de Frederic Kachar, conhecido como Fred Kachar, que ocupava o cargo de diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio. A decisão ocorreu após a divulgação de conversas privadas mantidas entre o executivo e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, entre outubro de 2023 e julho de 2025.
As mensagens, extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro e divulgadas publicamente, revelam uma relação próxima entre o executivo da Globo e o empresário. Os diálogos tratam de publicidade, patrocínios de eventos, divulgação de marcas, pedidos de reportagens, críticas a conteúdos jornalísticos e convites para encontros privados.
Em comunicado, a empresa classificou a relação entre Kachar e Vorcaro como inadequada para um executivo que mantinha contato com um anunciante. A demissão colocou sob escrutínio a relação entre interesses comerciais, publicidade e independência editorial em um dos maiores conglomerados de comunicação do país.
Kachar acumulava 29 anos de trajetória profissional no grupo e comandava operações ligadas aos jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, às revistas da Editora Globo, incluindo Vogue e Marie Claire, e ao Sistema Globo de Rádio, que inclui a CBN.
Pedido de destaque para Martha Graeff e sua marca
Um dos episódios mais relevantes das conversas envolve Martha Graeff, influenciadora digital que, à época, mantinha um relacionamento com Vorcaro e havia lançado a marca de suplementos Happy Aging, em Miami, nos Estados Unidos.
Nas mensagens, Vorcaro pediu ajuda a Kachar para ampliar a exposição pública da influenciadora e de sua empresa. Em uma das conversas, sugeriu que o executivo tentasse viabilizar uma capa da revista Vogue para Martha.
“De repente ver se você consegue uma capa pra ela na Vogue. Ela tem cancha pra isso”, escreveu Vorcaro.
Kachar respondeu que uma capa da Vogue exigiria um processo mais longo, mas prometeu buscar espaço em outras publicações do grupo. O executivo afirmou que garantiria destaque para Martha e que conversaria também com as revistas Marie Claire e Ela.
“Vou pautar Vogue, Marie Claire e Ela”, escreveu Kachar, segundo os registros divulgados.
Três dias depois, as três publicações publicaram reportagens sobre a Happy Aging, marca de suplementos de Martha lançada em Miami. Após a publicação, Vorcaro agradeceu e avaliou positivamente o material, embora tenha reclamado de um trecho da reportagem da Marie Claire.
Na semana seguinte, o executivo retomou a possibilidade de conseguir uma capa para a influenciadora. Kachar afirmou que o próximo passo seria uma capa para Ela ou Marie Claire, mas que seria necessário um fato novo para justificar a publicação.
Vorcaro respondeu que uma capa seria muito interessante, e Kachar afirmou que a equipe estava trabalhando para viabilizar a iniciativa.
As conversas levantam questionamentos sobre o grau de proximidade entre o executivo responsável por operações editoriais e um anunciante interessado em promover uma pessoa de seu círculo pessoal. A existência das mensagens, porém, não significa, por si só, que todas as decisões editoriais tenham sido determinadas por Vorcaro ou que tenha ocorrido uma infração legal. O conteúdo exige distinção entre os pedidos registrados, as respostas do executivo e as decisões efetivamente tomadas pelas redações.
Contratos publicitários e patrocínios milionários
Os diálogos também mostram negociações relacionadas à publicidade do Banco Master e ao patrocínio de eventos associados à Editora Globo.
Em uma das conversas, Kachar pediu ajuda a Vorcaro para destravar a utilização de um novo contrato publicitário entre o banco e a editora. O executivo afirmou que havia um plano robusto previsto para outubro, e Vorcaro respondeu que a questão seria resolvida após conversar com a responsável.
As mensagens também mencionam patrocínios de eventos. Segundo os registros divulgados, o Banco Master patrocinou o Baile da Vogue de 2024 por R$ 825 mil e o camarote da editora no Carnaval de 2023 por R$ 1,6 milhão.
Em 2025, quando os problemas do Banco Master começaram a ganhar maior visibilidade, o nome da instituição deixou de aparecer em determinadas propostas. Em uma das mensagens, Kachar informou a Vorcaro que havia retirado o banco de dois materiais comerciais.
Na sequência, as conversas abordaram a presença de outras marcas associadas ao empresário, incluindo Desinchá e Happy Aging, e valores de patrocínio de R$ 500 mil para a Vogue e R$ 800 mil para o camarote.
Os diálogos evidenciam que os contatos entre os dois não se limitavam a conversas pessoais: havia também negociações comerciais de valores expressivos, envolvendo publicidade e eventos ligados ao grupo de comunicação.
A questão central é saber como essas relações eram administradas internamente e quais mecanismos garantiam a separação entre os interesses dos anunciantes e as decisões jornalísticas. Contratos publicitários e patrocínios, isoladamente, não comprovam irregularidade; o contexto das conversas, entretanto, tornou a relação objeto de questionamento público.
As conversas sobre festas privadas e a expressão “guerra na Ucrânia”
Outro trecho que chamou atenção envolve mensagens sobre festas privadas frequentadas por Vorcaro e convidados. Nos diálogos, os dois utilizaram expressões como “guerra na Ucrânia” para se referir a determinados encontros.
Em março de 2024, Kachar perguntou se Vorcaro já estava na Ucrânia, em uma mensagem acompanhada de risadas. Em outra ocasião, perguntou se haveria uma “guerra na Ucrânia” naquela semana. Vorcaro respondeu que haveria um encontro naquele dia e perguntou se o executivo iria.
Kachar afirmou que não conseguiria comparecer naquela ocasião, mas perguntou se haveria outra oportunidade na semana seguinte e demonstrou interesse em participar.
As conversas também mencionam mulheres estrangeiras e festas organizadas pelo círculo do ex-banqueiro. Reportagens relacionadas ao caso Master apontaram suspeitas sobre um negócio de prostituição financiado por Vorcaro, com referência a mulheres ucranianas. Essas suspeitas devem ser tratadas como questões de investigação e reportagem, não como prova automática de que todos os participantes das conversas tenham cometido crimes.
Em outro episódio, Kachar convidou Vorcaro para um camarote onde o empresário poderia assistir ao show da cantora Madonna ao lado de integrantes da cúpula do Grupo Globo. Vorcaro informou que estaria fora do país, mas comentou que haveria uma festa naquela terça-feira. Kachar respondeu que, daquela vez, compareceria.
O teor dos diálogos provocou repercussão não apenas pela proximidade entre o executivo de mídia e o empresário, mas também pela linguagem utilizada e pela aparente familiaridade com encontros privados.
A divulgação das mensagens ampliou as dúvidas sobre os limites éticos que devem orientar relações entre dirigentes de empresas jornalísticas, anunciantes e pessoas com interesses comerciais ou sob investigação.
Vorcaro reclamou de reportagens, mas Kachar também defendeu jornalistas
As conversas não mostram apenas pedidos de promoção comercial e convites para encontros. Também registram discussões sobre a cobertura jornalística do Banco Master e reclamações de Vorcaro a respeito de reportagens publicadas por veículos do grupo.
Em abril de 2024, o ex-banqueiro criticou uma publicação da colunista Malu Gaspar sobre um fórum realizado em Londres e afirmou que poderia cancelar um evento ligado ao Valor Econômico.
Kachar respondeu que, se houvesse algum erro na coluna, pediria a correção imediata, mas demonstrou discordância em relação ao tom da reclamação de Vorcaro.
Em outra conversa, Vorcaro questionou uma informação publicada pelo colunista Lauro Jardim e perguntou se existia uma campanha corporativa contra ele. Kachar respondeu que não havia campanha e que não compreendia a acusação.
Em setembro, Vorcaro reclamou de uma reportagem do Valor Econômico sobre os resultados do Banco Master. Kachar defendeu o trabalho jornalístico e afirmou que a matéria havia apresentado os dois lados.
“Não dá pra fazer matéria sem olhar pra todos os fatos”, respondeu o executivo.
Esses episódios são importantes para compreender a complexidade do caso. As mensagens indicam proximidade comercial e pessoal, além de pedidos relacionados à exposição de marcas, mas também registram momentos em que Kachar sustentou a necessidade de apuração e defendeu jornalistas diante das reclamações do empresário.
Por isso, o material divulgado não permite concluir, sem investigação adicional, que toda a cobertura do Banco Master tenha sido manipulada ou que Vorcaro controlasse editorialmente os veículos da Globo. O ponto central é a necessidade de esclarecer se a relação mantida pelo executivo era compatível com as responsabilidades de seu cargo e com as regras internas da empresa.
Contatos com outros jornais e negociações de publicidade
As mensagens também indicam que Vorcaro demonstrava preocupação com reportagens publicadas por outros veículos, entre eles Estadão, Folha de S.Paulo e UOL.
De acordo com os relatos divulgados, o empresário manifestou interesse em investir em publicidade nesses jornais, mas posteriormente comentou com um interlocutor que seria melhor assumir que eram seus “inimigos”.
Os registros indicam que o Banco Master acabou comprando publicidade no Estadão e na Folha por intermédio da Foone, empresa de Flávio Carneiro, que atuava como assessor de imagem de Vorcaro.
Essas informações ampliam o debate sobre a estratégia de relacionamento do empresário com veículos de comunicação. Elas mostram que a publicidade e as relações com profissionais da imprensa faziam parte de um conjunto mais amplo de contatos, mas não bastam, isoladamente, para demonstrar que a linha editorial de cada jornal tenha sido comprada ou alterada.
A distinção é essencial: investir em publicidade é uma atividade comercial legítima, enquanto tentar condicionar a cobertura jornalística a interesses privados pode representar um problema ético grave. Para estabelecer se houve alguma irregularidade específica, é necessário examinar documentos, contratos, decisões editoriais e outros elementos além das conversas divulgadas.
A decisão do Grupo Globo e a defesa da independência editorial
Ao anunciar a demissão, o Grupo Globo afirmou que teve acesso ao conteúdo das conversas privadas na quarta-feira, 14 de outubro, e considerou inadequada a relação mantida por Kachar com um anunciante.
Na nota, a empresa reafirmou seu compromisso com a ética, a transparência e a independência editorial do jornalismo de seus veículos. Também sustentou que a cobertura crítica do caso Master seria uma demonstração concreta de seu compromisso com os princípios editoriais do grupo.
A empresa reconheceu os 29 anos de dedicação de Kachar ao desenvolvimento dos negócios de mídia e informou que o nome de seu substituto à frente da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio seria anunciado posteriormente.
A decisão representa uma consequência profissional direta da repercussão das mensagens. Ao mesmo tempo, a justificativa apresentada pela empresa coloca em evidência a importância de manter barreiras claras entre executivos comerciais, anunciantes e o trabalho das redações.
A íntegra do comunicado divulgado pelo Grupo Globo foi a seguinte:
“O Grupo Globo comunicou hoje o desligamento do diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar. O conteúdo das conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025, às quais a empresa teve acesso ontem, revela uma relação inadequada do executivo com um anunciante.
A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação. O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo.
A empresa reconhece os 29 anos de dedicação de Kachar ao desenvolvimento de seus negócios de mídia e informa que o nome de seu substituto à frente da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio será divulgado em breve.”
O que o caso revela sobre poder, publicidade e jornalismo
A demissão de Frederic Kachar abre uma discussão que vai além da saída de um executivo. O caso envolve a relação entre um grande grupo de comunicação, um anunciante de elevado poder econômico e um empresário cuja atuação passou a ser alvo de investigações e de intensa cobertura jornalística.
As mensagens mostram pedidos de divulgação para marcas, negociações de patrocínios, tentativas de viabilizar capas de revistas, conversas sobre reportagens e convites para encontros privados. O conjunto levanta questões legítimas sobre transparência, conflitos de interesse e a necessidade de proteger a autonomia das redações.
A credibilidade do jornalismo depende não apenas da publicação de reportagens críticas, mas também da confiança de que decisões editoriais não são subordinadas a relações pessoais ou comerciais mantidas por seus dirigentes. Essa exigência vale para a Globo e para qualquer outro veículo de comunicação.
Ao mesmo tempo, é necessário evitar conclusões que ultrapassem as evidências disponíveis. As mensagens divulgadas não comprovam, por si sós, que todas as reportagens tenham sido influenciadas, que houve compra de cobertura jornalística ou que todos os envolvidos nos encontros privados tenham cometido ilegalidades.
O que está documentado é que a relação entre Kachar e Vorcaro foi considerada inadequada pela própria empresa e resultou no desligamento do executivo. As circunstâncias reveladas também exigem esclarecimentos sobre a gestão dos contratos publicitários, os pedidos de exposição editorial e os mecanismos internos destinados a prevenir conflitos de interesse.
O episódio representa um abalo para a imagem institucional do Grupo Globo e reforça a necessidade de transparência nas relações entre imprensa e poder econômico. A demissão encerra o vínculo profissional de Kachar com o conglomerado, mas não elimina as perguntas que surgiram com a divulgação das conversas.
A questão decisiva para a credibilidade pública será saber se os princípios de independência editorial invocados pela empresa são aplicados de forma efetiva, inclusive nas relações de seus principais executivos com anunciantes poderosos.