Habib’s entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265 milhões em meio a crise provocada por juros altos e mudança no consumo

Habib’s entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265 milhões em meio a crise provocada por juros altos e mudança no consumo

Grupo Gennius, controlador de Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, teve pedido aceito pela Justiça de São Paulo; processo envolve 178 empresas e busca reorganizar um passivo de R$ 265,2 milhões sem interromper as operações

O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões, colocando uma das marcas mais conhecidas do setor de alimentação brasileiro diante de um dos momentos financeiros mais delicados de sua história. O pedido foi apresentado em 24 de agosto e teve o processamento aceito pela Justiça de São Paulo no dia seguinte.

A decisão é do juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A KPMG foi nomeada administradora judicial, responsável por acompanhar o processo e auxiliar na fiscalização das informações apresentadas pelo grupo e na relação com os credores.

Apesar do tamanho do passivo, o pedido não significa que o Habib’s esteja fechando as portas. O próprio grupo afirmou que as lojas continuam funcionando normalmente, enquanto a companhia tenta reorganizar suas finanças e negociar as dívidas dentro das regras da recuperação judicial.

Uma dívida que ultrapassa R$ 265 milhões

O valor declarado no processo é de R$ 265.207.959,83. A maior parcela está concentrada nos chamados créditos quirografários — dívidas sem garantia real específica —, que somam aproximadamente R$ 241,7 milhões. Há ainda cerca de R$ 22,3 milhões em débitos trabalhistas.

A dimensão do processo também chama atenção pela quantidade de empresas envolvidas. A recuperação reúne 178 pessoas jurídicas ligadas à estrutura do conglomerado, incluindo lojas, empresas operacionais, franqueadoras, holdings e companhias de apoio. Entre elas estão 119 unidades próprias do Habib’s, 26 unidades do Ragazzo e seis churrascarias Tendall.

Também aparecem no processo os sócios Alberto Saraiva e Belchior Saraiva, ligados à estrutura societária do grupo.

Pandemia, delivery e juros: a explicação apresentada pelo grupo

Ao justificar a crise financeira, o Grupo Gennius apontou uma combinação de fatores.

O primeiro foi o impacto prolongado da pandemia de Covid-19, que alterou o funcionamento do comércio e atingiu diretamente restaurantes e estabelecimentos dependentes da circulação de consumidores.

Depois veio uma transformação estrutural no mercado: o avanço acelerado das plataformas de delivery.

Segundo a argumentação apresentada pela companhia, a expansão das entregas alterou o comportamento dos consumidores e contribuiu para reduzir o movimento em lojas físicas, especialmente em shopping centers e regiões de grande circulação.

O terceiro elemento foi o custo do dinheiro.

O grupo afirma que a elevação da taxa Selic, que saiu de aproximadamente 4% e chegou a patamares próximos de 15% no período considerado, encareceu a captação de recursos e a rolagem das dívidas. Para uma companhia com extensa estrutura operacional, o efeito dos juros elevados se transforma em pressão direta sobre capital de giro e capacidade de pagamento.

O cenário expõe um problema que ultrapassa uma única empresa: restaurantes dependem simultaneamente de consumo, crédito, aluguel, mão de obra, fornecedores e logística. Quando o custo financeiro sobe enquanto o movimento das lojas perde força, a margem de operação pode se tornar insuficiente para sustentar uma estrutura grande.

O Habib’s e a transformação do mercado

Fundado em 1987, o Habib’s cresceu apostando em preços competitivos, grande volume de vendas e uma identidade fortemente associada às esfihas e à culinária de inspiração árabe. Com o passar dos anos, o grupo diversificou sua atuação e incorporou outras marcas, entre elas o Ragazzo e o Tendall Grill.

Essa expansão criou uma estrutura empresarial ampla, mas também aumentou a exposição do conglomerado às mudanças no mercado.

A crise atual, portanto, não é apenas uma questão de restaurantes que venderam menos. É também o retrato de uma empresa que precisa adaptar uma operação tradicional a um consumidor que passou a pedir comida pelo celular, comparar preços em aplicativos e esperar rapidez na entrega.

O delivery, que poderia representar uma oportunidade de crescimento, aparece na própria explicação apresentada pela empresa como um dos fatores que pressionaram o modelo baseado na circulação de consumidores nas lojas físicas.

O primeiro alerta veio antes da recuperação

A recuperação judicial não surgiu completamente de surpresa.

No fim de julho, o grupo já havia conseguido uma tutela cautelar antecedente, mecanismo utilizado para obter proteção judicial temporária diante de dificuldades financeiras e abrir espaço para negociações com credores. A tentativa, porém, não foi suficiente para resolver o problema, e o Grupo Gennius posteriormente ingressou com o pedido formal de recuperação judicial.

Agora, a empresa entra em uma etapa muito mais complexa: precisa apresentar um plano capaz de convencer credores de que a operação pode voltar a ser sustentável.

Justiça estabelece prazo para plano de recuperação

Com o processamento da recuperação judicial aceito, o grupo recebeu 60 dias para apresentar um plano de recuperação. O documento será fundamental para determinar como os credores poderão receber seus créditos e quais mudanças serão feitas na estrutura financeira e operacional do conglomerado.

A Justiça também determinou medidas de proteção próprias do processo recuperacional, embora tenha preservado determinadas garantias de instituições financeiras. Entre elas estão recebíveis que haviam sido dados como garantia a bancos.

A recuperação, portanto, não apaga a dívida. Ela cria um ambiente jurídico para que empresa e credores negociem uma maneira de reestruturá-la.

O plano para sobreviver

O Grupo Gennius afirma que pretende realizar uma reorganização societária, buscar novos mercados e continuar investindo na expansão das operações consideradas mais promissoras.

A empresa também pretende reforçar sua atuação no delivery, justamente um segmento que ajudou a transformar o mercado de alimentação nos últimos anos.

A estratégia revela o dilema do grupo: adaptar-se ao novo comportamento do consumidor sem abandonar completamente o modelo que construiu a marca ao longo de quase quatro décadas.

O impacto sobre funcionários, fornecedores e credores

O processo interessa a muito mais gente do que aos proprietários das marcas.

Há trabalhadores entre os credores, além de fornecedores, instituições financeiras, franqueadores e outros parceiros comerciais. Dos R$ 265,2 milhões declarados, R$ 22,3 milhões correspondem a créditos trabalhistas, enquanto a maior parcela está em créditos sem garantia.

A recuperação judicial procura justamente evitar que uma crise de liquidez provoque uma reação em cadeia. Se fornecedores deixassem de entregar produtos ou instituições interrompessem imediatamente o crédito, a capacidade de funcionamento dos restaurantes poderia ser comprometida.

Por isso, a manutenção das lojas abertas é um dos elementos centrais da estratégia.

O que está em jogo

O caso do Habib’s é emblemático porque coloca uma marca tradicional diante de uma transformação profunda do setor de alimentação.

A recuperação judicial não significa necessariamente falência. Ao contrário: seu objetivo é justamente permitir que uma empresa economicamente viável atravesse uma crise financeira, renegocie seus compromissos e continue funcionando.

Mas o tamanho do passivo deixa pouco espaço para erros.

O Grupo Gennius terá de demonstrar que consegue transformar uma estrutura empresarial extensa — 178 empresas e centenas de restaurantes — em uma operação financeiramente sustentável.

No discurso oficial, trata-se de uma reestruturação para preservar o negócio no longo prazo. Na prática, começa agora uma negociação delicada entre empresa, trabalhadores, fornecedores, bancos e demais credores.

O futuro do Habib’s, portanto, não será decidido apenas pelo movimento dos clientes nas lojas. Será determinado também pelo plano que o grupo apresentará à Justiça, pela disposição dos credores em aceitar uma renegociação e pela capacidade da companhia de reconstruir suas margens em um mercado transformado pelo delivery e pressionado pelo crédito caro.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags