
Haddad cobra reação ao tarifaço e Tarcísio defende ações para proteger exportadores de São Paulo
No primeiro debate pelo governo paulista, candidatos divergiram sobre a resposta às tarifas dos Estados Unidos; petista defendeu união nacional, diplomacia e pagamento de créditos de ICMS, enquanto governador destacou medidas para dar fôlego financeiro às empresas
O primeiro debate entre Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) na disputa pelo governo de São Paulo, realizado pela Band neste domingo (9 de agosto de 2026), foi marcado por um confronto sobre os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos às exportações brasileiras e sobre a responsabilidade de União e Estado na proteção da economia paulista.
O tarifaço determinado pelo governo do presidente Donald Trump tornou-se um dos principais temas econômicos do encontro. Haddad defendeu uma reação política e diplomática coordenada pelo governo federal e criticou setores da direita brasileira que, segundo ele, teriam adotado uma postura de aproximação com o governo norte-americano durante a escalada da crise.
Tarcísio, por outro lado, concentrou sua resposta nos efeitos imediatos sobre as empresas paulistas e afirmou que o governo estadual vinha adotando medidas para reduzir o impacto financeiro das novas barreiras comerciais.
A discussão não surgiu de forma isolada na campanha. Antes do debate, Haddad já havia criticado publicamente a posição de Tarcísio diante das medidas de Trump e afirmado que o interior paulista seria particularmente prejudicado pelo tarifaço.
Haddad fala em “união nacional” contra as tarifas
Durante o debate, Haddad afirmou que o Brasil atravessa uma situação geopolítica complexa e defendeu uma reação conjunta das forças políticas brasileiras.
Segundo o candidato petista, os Estados Unidos adotaram as tarifas apesar de, em sua avaliação, manterem uma relação comercial favorável ao Brasil.
Haddad criticou políticos que, segundo ele, teriam escolhido defender os interesses norte-americanos em vez de priorizar os interesses econômicos brasileiros.
“O que se viu foi um grupo defendendo o agressor”, afirmou o petista, ao classificar esse comportamento como inadmissível.
A crítica também atingiu diretamente Tarcísio. Em outro momento do debate, Haddad fez referência ao boné usado pelo governador com o slogan MAGA — Make America Great Again, associado à campanha política de Donald Trump.
A partir da imagem, o petista afirmou que seria necessário “colocar o boné certo na cabeça”, numa referência à necessidade, segundo sua argumentação, de priorizar os interesses brasileiros.
Diplomacia e novos mercados
Para Haddad, a reação ao tarifaço não deveria se limitar a medidas emergenciais para as empresas.
O candidato defendeu uma atuação diplomática do governo federal para tentar reduzir as barreiras comerciais, ao mesmo tempo em que São Paulo e o restante do país deveriam buscar novos mercados consumidores para os produtos afetados.
Na avaliação apresentada durante o debate, União e Estados precisariam trabalhar de forma coordenada para proteger empresas, empregos e setores produtivos atingidos pelas tarifas.
“É preciso união nacional e senso de responsabilidade”, afirmou.
A posição está alinhada a críticas que Haddad já havia feito anteriormente. Em julho, o petista afirmou que o tarifaço afetaria especialmente o interior paulista e questionou a postura de Tarcísio e de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro diante das decisões do governo Trump.
Tarcísio responde com medidas econômicas
Tarcísio reconheceu que as tarifas norte-americanas representam um problema para a economia paulista, mas procurou deslocar o foco da discussão para as medidas que podem ser adotadas diretamente pelo governo estadual.
“As tarifas prejudicam em especial o Estado de São Paulo”, afirmou o governador.
Segundo Tarcísio, uma das providências adotadas por sua administração foi acelerar a devolução de créditos tributários para empresas exportadoras.
A intenção, segundo o governador, seria melhorar o fluxo de caixa das companhias afetadas pelas novas barreiras e permitir que elas tenham recursos para atravessar o período de dificuldade.
“Procuramos antecipar a devolução do crédito para as empresas exportadoras para amenizar e dar fôlego financeiro para as empresas”, declarou.
A estratégia apresentada por Tarcísio coloca a questão tributária no centro da resposta estadual ao tarifaço: em vez de uma atuação predominantemente diplomática, o governador enfatizou a necessidade de reduzir os efeitos financeiros sobre o setor produtivo.
São Paulo está entre os Estados mais expostos
A dimensão do problema é particularmente relevante para São Paulo por causa do peso da indústria e das exportações estaduais.
Setores industriais paulistas mantêm relações comerciais importantes com o mercado norte-americano. Entre os segmentos afetados está a indústria calçadista da região de Franca, no interior do Estado, que possui forte presença no mercado dos Estados Unidos.
Nesse cenário, qualquer elevação significativa das tarifas pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, pressionar margens de lucro e obrigar empresas a buscar compradores em outros países.
A discussão eleitoral, portanto, envolve não apenas política externa, mas também questões diretamente relacionadas a produção, emprego, arrecadação e fluxo de caixa das empresas.
Haddad questiona créditos de ICMS
Na réplica, Haddad deslocou novamente o debate para a situação fiscal do Estado de São Paulo.
O candidato afirmou que empresas exportadoras paulistas possuem entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões em créditos de ICMS que ainda aguardariam ressarcimento.
Para o petista, acelerar o pagamento desses valores seria uma das maneiras mais rápidas de ajudar empresas afetadas pelas tarifas americanas.
Haddad também relacionou o tema à renegociação da dívida paulista com a União.
Segundo ele, a adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) poderia ter ampliado a capacidade financeira do governo estadual.
O Estado de São Paulo possui uma das maiores dívidas públicas estaduais do país. Segundo o dado citado no debate, o saldo enquadrável no programa era de aproximadamente R$ 291,7 bilhões em março de 2025.
A disputa em torno da dívida paulista
Haddad afirmou que a adesão ao programa de renegociação poderia ter produzido uma folga fiscal de aproximadamente R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões em 2025, segundo sua estimativa.
Na visão do candidato, esses recursos poderiam ter sido utilizados para acelerar a devolução dos créditos tributários acumulados pelas empresas exportadoras.
“São Paulo deve de R$ 15 bilhões a R$ 20 bilhões de créditos tributários dos exportadores, que aguardam até anos para fazer valer seu crédito”, afirmou.
Haddad argumentou ainda que uma política fiscal diferente poderia ter dado às empresas maior capacidade de enfrentar o tarifaço e procurar novos mercados.
A crítica faz parte de uma disputa mais ampla entre os dois candidatos sobre a saúde financeira do Estado. Tarcísio tem respondido às críticas fiscais de Haddad afirmando que o ex-ministro deixou problemas relevantes nas contas federais e questionando sua autoridade para avaliar a situação paulista.
Tarcísio aposta na resposta estadual
O governador, por sua vez, procura apresentar sua gestão como capaz de agir diretamente diante dos efeitos econômicos do tarifaço.
A antecipação de créditos tributários para exportadores aparece, nesse discurso, como uma ferramenta de curto prazo para preservar o capital de giro das empresas.
A estratégia também evita transformar o governo paulista em protagonista de uma negociação que, institucionalmente, envolve relações exteriores e comércio internacional — áreas cuja condução cabe principalmente ao governo federal.
Essa diferença de abordagem tornou-se um dos pontos centrais do debate: Haddad defende uma resposta nacional articulada, com diplomacia e abertura de novos mercados; Tarcísio enfatiza mecanismos estaduais de apoio financeiro e tributário às empresas.
Uma disputa que mistura economia e política externa
O confronto sobre o tarifaço também expôs a dimensão nacional da eleição paulista.
Haddad procura associar a política econômica e comercial à atuação do governo federal e questiona a proximidade de Tarcísio com o campo político ligado a Trump e ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Tarcísio, por outro lado, procura separar a responsabilidade pela política externa das atribuições do governo estadual e concentrar sua defesa nas medidas que São Paulo pode executar diretamente.
A discussão, porém, não se limita à diplomacia. Por trás das divergências estão questões concretas: créditos tributários, fluxo de caixa, competitividade das empresas, empregos, exportações, dívida pública e capacidade de investimento do Estado.
O debate revelou, assim, duas interpretações diferentes para o enfrentamento da crise comercial. Haddad sustenta que São Paulo precisa de uma articulação nacional para responder às medidas dos Estados Unidos e recuperar espaço para seus exportadores. Tarcísio afirma que o governo estadual deve agir imediatamente para reduzir os impactos financeiros sobre as empresas.
À medida que a campanha avança, o tarifaço tende a permanecer como um dos temas econômicos centrais da eleição paulista, sobretudo porque coloca em discussão não apenas a relação do Brasil com os Estados Unidos, mas também a capacidade do Estado de São Paulo de proteger sua indústria e seus exportadores diante de uma mudança nas condições do comércio internacional.