
Hamas dissolve governo da Faixa de Gaza após quase 20 anos e abre caminho para administração de transição
Grupo terrorista anuncia fim do órgão que administrava Gaza desde 2007 e transfere responsabilidades para um comitê tecnocrático criado durante negociações de cessar-fogo; Israel reage com desconfiança e impasse sobre o futuro do território continua.
Hamas anuncia mudança histórica na administração da Faixa de Gaza
O grupo Hamas anunciou a dissolução do órgão responsável pela administração da Faixa de Gaza, encerrando um ciclo de quase duas décadas de governo no território palestino. A decisão representa uma das mudanças políticas mais significativas desde que a organização assumiu o controle da região, em 2007, após confrontos com o movimento rival Fatah.
Segundo o comunicado divulgado pelo próprio Hamas, a medida permitirá a transferência das funções administrativas para um órgão de caráter técnico e transitório, denominado Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG).
A decisão ocorre em meio às negociações internacionais sobre o futuro da Faixa de Gaza após meses de conflito entre Israel e o Hamas.
Mohamed al Farra apresenta renúncia e comitê é dissolvido
De acordo com Ismail al Thawabta, diretor-geral do escritório de mídia do Hamas, o chefe do Comitê de Emergência do governo, Mohamed al Farra, apresentou oficialmente sua renúncia.
Além da saída de Al Farra, foi anunciada a dissolução completa do comitê governamental que administrava o território.
Segundo Al Thawabta, a decisão busca facilitar a transição administrativa para o novo órgão civil responsável pelos serviços públicos e pela gestão cotidiana da Faixa de Gaza.
Comitê Nacional de Administração assume gestão temporária
O novo Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG) foi criado durante negociações promovidas pelo chamado Conselho de Paz (Board of Peace), iniciativa estabelecida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante as tratativas que resultaram em um acordo de cessar-fogo firmado em outubro de 2025.
O NCAG é liderado pelo funcionário palestino Ali Shaath, que deverá coordenar uma administração técnica voltada à reconstrução dos serviços públicos, infraestrutura, assistência humanitária e funcionamento da máquina civil no território.
A proposta prevê uma gestão tecnocrática, sem caráter militar, enquanto continuam as discussões sobre um acordo político definitivo.
Hamas afirma que medida busca facilitar processo de paz
O porta-voz do Hamas, Hazem Qasem, afirmou que a decisão demonstra disposição do grupo em colaborar com uma solução para o futuro da Faixa de Gaza.
Segundo ele, a transferência da administração busca retirar obstáculos às negociações internacionais.
“O Hamas dá um novo passo ao renunciar à administração da Faixa de Gaza para privar a ocupação de qualquer pretexto para continuar sua agressão”, declarou Hazem Qasem.
Ainda segundo o dirigente, o grupo espera que o NCAG assuma rapidamente suas funções e reafirmou estar disposto a entregar todas as responsabilidades administrativas ao novo comitê.
Israel reage com desconfiança
A resposta do governo de Israel foi imediata.
Autoridades israelenses classificaram o anúncio como uma “manobra midiática”, argumentando que integrantes do Hamas continuam ocupando posições estratégicas dentro da estrutura administrativa do território.
Segundo uma fonte do governo israelense citada pela imprensa local, a dissolução do órgão não representa, na prática, o fim da influência política e militar do grupo sobre Gaza.
Israel mantém a posição de que qualquer acordo duradouro exige o desarmamento completo do Hamas, condição que continua sendo rejeitada pela organização.
Impasse sobre o futuro político de Gaza continua
Apesar da mudança administrativa, permanecem sem solução os principais impasses sobre o futuro da Faixa de Gaza.
Entre eles estão:
- o desarmamento do Hamas;
- a reconstrução do território devastado pela guerra;
- a definição de quem exercerá autoridade política permanente sobre Gaza;
- a participação da Autoridade Palestina, liderada por Mahmoud Abbas, atualmente sediada em Ramallah, na Cisjordânia.
Israel também continua rejeitando tanto a permanência do Hamas no poder quanto uma retomada imediata da administração pela Autoridade Palestina.
Como o Hamas chegou ao poder
O Hamas venceu as eleições legislativas palestinas em 2006 e, após um violento confronto interno com o Fatah, assumiu definitivamente o controle da Faixa de Gaza em 2007.
Desde então, o grupo passou a administrar o território palestino, enquanto a Autoridade Palestina permaneceu responsável pela Cisjordânia.
A guerra iniciada após o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 intensificou a crise humanitária e colocou em discussão a necessidade de um novo modelo de governança para Gaza.
Principais envolvidos na transição
A mudança política anunciada envolve diversos atores nacionais e internacionais:
- Hamas — organização que governava Gaza desde 2007;
- Mohamed al Farra — ex-chefe do Comitê de Emergência do governo;
- Ismail al Thawabta — diretor do escritório de mídia do Hamas;
- Hazem Qasem — porta-voz oficial do Hamas;
- Ali Shaath — líder do novo Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG);
- Donald Trump — presidente dos Estados Unidos e responsável pela criação do Conselho de Paz durante as negociações do cessar-fogo;
- Mahmoud Abbas — presidente da Autoridade Palestina;
- Fatah — principal partido rival do Hamas;
- Governo de Israel — que segue rejeitando qualquer participação futura do Hamas na administração do território.
Mudança abre nova fase, mas futuro permanece indefinido
Embora a dissolução do órgão governamental represente um marco importante na história política da Faixa de Gaza, especialistas avaliam que a decisão, por si só, não resolve os principais obstáculos para uma paz duradoura na região.
A implementação efetiva da nova administração dependerá do avanço das negociações entre israelenses, palestinos e mediadores internacionais, além da definição sobre segurança, reconstrução e governança do território após anos de conflito armado.