
Hugo Motta e Daniel Vorcaro trocaram mais de 100 ligações e tiveram 19 encontros, revelam mensagens da PF
Conversas extraídas do celular do ex-banqueiro mostram relação próxima entre o presidente da Câmara dos Deputados e Daniel Vorcaro, com contatos sobre FGC, projetos na Câmara, viagens, camarotes, aeronaves e até uma possível sociedade
As mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam uma relação de intensa proximidade com Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados e deputado federal pelo Republicanos da Paraíba.
Segundo levantamento da CNN Brasil, os dois trocaram 202 chamadas telefônicas entre março de 2024 e outubro de 2025. Dessas, 100 foram efetivamente concluídas e outras 102 não chegaram a ser atendidas. Além disso, as mensagens registram ao menos 19 encontros presenciais combinados entre os dois.
A frequência dos contatos chama atenção porque a relação não se limitava a conversas protocolares entre um parlamentar e um empresário. Nas mensagens, Motta e Vorcaro se tratavam repetidamente como “irmão” — expressão que aparece mais de 150 vezes nos diálogos analisados pela CNN — e discutiam assuntos pessoais, empresariais e políticos.
Uma relação que atravessou a vida pessoal e a política
As mensagens mostram que Hugo Motta e Daniel Vorcaro mantinham contato frequente durante o período em que Motta se preparava para assumir a presidência da Câmara e continuaram próximos depois da eleição do parlamentar para o comando da Casa.
Em uma mensagem enviada na virada de 2024 para 2025, Vorcaro afirmou ter “muito orgulho” de estar na mesma jornada que Motta, então candidato à presidência da Câmara. O parlamentar, por sua vez, desejou que os dois pudessem continuar “cada vez mais juntos”.
A relação também aparece em encontros privados.
Em 8 de maio de 2025, Motta perguntou a Vorcaro como seria um encontro entre os dois: “Vamos fazer uma farrinha ou só resenha?”. Vorcaro respondeu que o deputado poderia decidir como seria o encontro.
Em outra ocasião, Vorcaro informou que estaria em São Paulo e depois viajaria para Belo Horizonte, mas acrescentou que preferia estar em Mônaco com Motta. Os dois chegaram a conversar por telefone durante quase oito minutos.
Pedidos de camarote e transporte
As mensagens também registram pedidos pessoais feitos por Hugo Motta a Vorcaro.
Em 3 de março de 2025, Motta perguntou se o ex-banqueiro conseguiria quatro entradas para o camarote do desfile das campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro.
Vorcaro respondeu afirmativamente e pediu os dados dos convidados — nome completo, CPF, e-mail e telefone — para providenciar os acessos.
A CNN também identificou pelo menos dois pedidos de carona em avião e um pedido de transporte em helicóptero feitos por Motta a Vorcaro.
Esses registros são relevantes para dimensionar a natureza da relação porque demonstram que a comunicação entre os dois envolvia não apenas assuntos institucionais, mas também solicitações pessoais.
O Fundo Garantidor de Créditos
Um dos pontos mais sensíveis dos diálogos envolve o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Em 23 de março de 2025, já como presidente da Câmara, Motta enviou mensagem a Vorcaro pedindo que ele verificasse com sua equipe um estudo relacionado ao FGC.
Motta escreveu que, se Vorcaro estivesse em Brasília, eles poderiam voltar a conversar para avaliar como “encaixar” o assunto e afirmou estar à disposição.
Vorcaro respondeu que estava “tocando isso”. Motta classificou a movimentação como importante e encerrou uma das mensagens com a expressão “Vamos pra cima”.
Em seguida, Motta pediu desculpas por ter incomodado Vorcaro durante uma viagem e sugeriu marcar a vinda do empresário a Brasília para que os dois pudessem alinhar o assunto.
O episódio é relevante porque o FGC está diretamente relacionado à proteção de depositantes e investidores de instituições financeiras e ganhou enorme importância após a liquidação do Banco Master.
As mensagens, entretanto, precisam ser analisadas em conjunto com documentos oficiais para determinar qual era exatamente o “estudo” mencionado e qual resultado concreto, se algum, decorreu da interlocução.
A possível sociedade envolvendo um terreno na Paraíba
Outro conjunto de mensagens envolve um negócio privado ligado à família de Hugo Motta.
Em 9 de março de 2024, Motta procurou Vorcaro para falar sobre a compra de uma área em João Pessoa, na Paraíba.
Na mensagem, o parlamentar explicou que os documentos estavam sendo preparados para transferir uma empresa para sua cunhada e afirmou que havia uma negociação em andamento. Também perguntou a Vorcaro como deveria proceder porque o prazo para cumprir obrigações financeiras estava próximo.
Vorcaro respondeu que seria possível fazer uma operação rapidamente e, paralelamente, organizar a questão de uma “sociedade”.
Dias depois, Motta informou que as assinaturas necessárias haviam sido resolvidas e pediu que Vorcaro analisasse a situação.
Em 15 de março, Motta agradeceu pela “confiança e parceria” e afirmou que havia dado tudo certo dentro do prazo.
Vorcaro respondeu dizendo estar feliz por eles estarem juntos e classificou aquilo como o início de uma “parceria de vida”.
A operação posteriormente mencionada em reportagens envolveu um empréstimo de R$ 22 milhões concedido pelo Banco Master a uma empresa ligada à cunhada de Hugo Motta para aquisição de um terreno em João Pessoa.
Motta afirma que se tratou de uma operação entre uma empresa privada e um banco privado e que, quando o negócio ocorreu, não havia conhecimento público das investigações que posteriormente atingiram o Banco Master e Daniel Vorcaro.
Projeto de lei também aparece nas mensagens
Os contatos entre Motta e Vorcaro não ficaram restritos ao negócio privado.
Em novembro de 2024, Vorcaro procurou o então deputado para conversar sobre um projeto de lei relacionado a créditos de carbono.
“Consegue encontrar mais tarde hoje?”, perguntou o empresário.
Motta respondeu que sim e disse que estava pegando o texto do projeto para encaminhá-lo a Vorcaro.
O diálogo mostra que o banqueiro tinha interesse em acompanhar ou discutir um tema legislativo e buscava interlocução direta com o parlamentar.
Isso, por si só, não demonstra que Motta tenha atuado irregularmente ou que qualquer decisão legislativa tenha sido tomada para beneficiar Vorcaro. O conteúdo completo do projeto e eventual resultado da interlocução são elementos necessários para avaliar a relevância do contato.
A eleição para a presidência da Câmara
As mensagens também revelam que Vorcaro acompanhava a disputa pela presidência da Câmara.
Em novembro de 2024, Motta explicou ao empresário que pretendia conversar individualmente com deputados depois de concluir as articulações com os partidos.
A conversa mostra Vorcaro aconselhando Motta a atuar nos bastidores, enquanto o parlamentar explicava sua estratégia para conquistar apoio.
Naquele período, Motta estava na disputa para suceder Arthur Lira na presidência da Câmara.
O conteúdo reforça que Vorcaro tinha conhecimento e interesse no processo político interno da Casa, enquanto Motta mantinha o empresário informado sobre sua estratégia de articulação.
“Irmão” aparece mais de 150 vezes
Um dos elementos mais marcantes da comunicação é a forma como os dois se tratavam.
A palavra “irmão” aparece mais de 150 vezes nas conversas analisadas pela CNN.
O tratamento demonstra uma linguagem de intimidade que vai além do padrão formal de uma comunicação entre empresário e parlamentar.
Além das mensagens, o volume de telefonemas e encontros reforça a frequência do relacionamento.
Foram 100 chamadas concluídas, 102 não concluídas e pelo menos 19 encontros presenciais identificados no período analisado.
A defesa de Hugo Motta
Hugo Motta, por meio de sua assessoria, negou que os diálogos revelem qualquer ilícito.
O presidente da Câmara afirmou que sempre manteve diálogo com diferentes segmentos do empresariado e representantes da sociedade e declarou que não existe nos diálogos qualquer elemento que demonstre favorecimento ou interesse indevido.
Motta também afirmou confiar nas instituições responsáveis pelas investigações.
Sobre o empréstimo relacionado à empresa da cunhada, o parlamentar reiterou que a operação foi realizada entre uma empresa privada e um banco privado e ocorreu antes de se tornarem públicas as investigações envolvendo o Banco Master.
A defesa de Daniel Vorcaro não havia respondido aos questionamentos da CNN no momento da publicação da reportagem.
O que está documentado
O conjunto das mensagens permite afirmar objetivamente que:
- Hugo Motta e Daniel Vorcaro tiveram 100 ligações concluídas entre março de 2024 e outubro de 2025;
- outras 102 chamadas não foram atendidas;
- foram identificados ao menos 19 encontros presenciais;
- os dois se chamavam repetidamente de “irmão”;
- Motta pediu ingressos para camarote do Carnaval;
- houve pedidos de transporte em aviões e helicóptero;
- os dois conversaram sobre o FGC;
- Vorcaro acompanhou a disputa de Motta pela presidência da Câmara;
- houve conversa sobre uma possível sociedade envolvendo um terreno na Paraíba;
- as mensagens também registram discussão sobre projeto de lei relacionado a créditos de carbono.
O que ainda precisa ser esclarecido
A existência dos contatos e encontros não significa automaticamente que tenha havido crime ou favorecimento.
O ponto central das investigações é descobrir o conteúdo, a finalidade e as consequências concretas dessas interlocuções.
No caso do FGC, é necessário esclarecer qual era o estudo mencionado, quem estava trabalhando nele e qual foi o resultado.
No caso do terreno, é preciso distinguir a operação privada realizada pela empresa ligada à cunhada de Motta das conversas sobre uma eventual sociedade.
No campo legislativo, é necessário verificar se o contato sobre créditos de carbono resultou em alguma atuação concreta e qual era o interesse econômico envolvido.
E, em relação aos pedidos pessoais — camarotes, aviões, helicóptero e encontros privados — cabe verificar como esses benefícios foram tratados e eventualmente registrados.
Uma relação de proximidade que agora está sob escrutínio
O conjunto das mensagens não mostra apenas contatos ocasionais. Ele revela uma relação frequente, com centenas de tentativas de comunicação, dezenas de encontros presenciais, linguagem de intimidade, negócios privados, interesses empresariais e assuntos relacionados à atividade parlamentar.
É justamente essa combinação que coloca os diálogos no centro do interesse público.
A questão não é simplesmente saber se Hugo Motta conhecia Daniel Vorcaro — as mensagens deixam claro que conhecia e mantinha contato frequente com ele.
O que precisa ser esclarecido é até onde essa proximidade pessoal e empresarial alcançou a atuação institucional do presidente da Câmara.
Até o momento, Motta sustenta que não há ilícitos nos diálogos e que as operações privadas ocorreram de forma regular. As investigações, por sua vez, deverão confrontar as mensagens com documentos bancários, registros de agendas, contratos e eventuais decisões oficiais.
O material da Polícia Federal, portanto, fornece um retrato detalhado da proximidade entre o presidente da Câmara e o ex-controlador do Banco Master, mas a conclusão sobre eventual irregularidade depende da análise do conjunto das provas.