Suspensão de deputados gera revolta e levanta debate sobre tratamento desigual na Câmara

Suspensão de deputados gera revolta e levanta debate sobre tratamento desigual na Câmara

Decisão contra parlamentares por ocupação da Mesa expõe questionamentos após casos polêmicos envolvendo André Janones e Glauber Braga

A decisão de suspender deputados por dois meses na Câmara dos Deputados não caiu como um simples ato disciplinar — ela acendeu um debate incômodo sobre critérios, coerência e, principalmente, justiça dentro do próprio Parlamento.

O Conselho de Ética aprovou a punição contra Marcos Pollon, Zé Trovão e Marcel Van Hattem, acusados de quebra de decoro após ocuparem a Mesa Diretora da Câmara em 2025, durante um protesto político. A suspensão ainda precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pelo plenário, mas o recado já foi dado.

O problema é que, para muitos, a régua usada nesse caso parece não ser a mesma aplicada em outras situações recentes — e isso incomoda.

Enquanto esses deputados enfrentam afastamento por uma ação política dentro do plenário, episódios envolvendo outros parlamentares seguem sem punições equivalentes. O caso de André Janones, por exemplo, investigado por suspeitas de “rachadinha”, não resultou em suspensão até agora. Já Glauber Braga, acusado de agredir um integrante do MBL, também não sofreu o mesmo tipo de afastamento imediato que agora atinge seus colegas.

É aí que a discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser política — e até moral.

Afinal, o que define a gravidade de uma conduta dentro da Câmara? Um protesto que trava a sessão por algumas horas? Uma acusação de uso indevido de dinheiro público? Ou uma agressão física?

Dentro do Conselho de Ética, o relator Moses Rodrigues argumentou que o direito à manifestação não pode impedir o funcionamento da Casa. É um ponto válido. Mas a pergunta que ecoa fora dos corredores de Brasília é outra: esse princípio está sendo aplicado de forma igual para todos?

Durante a sessão, o clima foi de tensão, discussões acaloradas e troca de acusações — um retrato fiel de um ambiente político cada vez mais polarizado. Parlamentares da oposição afirmam que estão sendo punidos por um ato coletivo e político, enquanto outros episódios semelhantes, no passado, não tiveram o mesmo desfecho.

O próprio Marcel Van Hattem afirmou que repetiria a ação, defendendo que sua postura foi em nome do Parlamento e de suas convicções.

No pano de fundo, está um tema que vai além dos nomes envolvidos: a sensação de seletividade. Quando decisões parecem seguir critérios diferentes dependendo de quem está sendo julgado, o desgaste não é apenas institucional — é também de confiança pública.

E é justamente aí que mora o maior risco: quando a punição deixa de parecer justiça e passa a soar como conveniência, o sistema inteiro começa a perder credibilidade.

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