
Janja lança comitê para aproximar Lula dos evangélicos em ofensiva eleitoral
Primeira-dama grava mensagem dirigida ao segmento religioso e destaca solidariedade, igualdade e respeito à fé; iniciativa ocorre em meio à vantagem de Flávio Bolsonaro entre eleitores evangélicos
A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, entrou diretamente na estratégia da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva para ampliar o diálogo com o eleitorado evangélico. Em vídeo apresentado no lançamento do comitê “Evangélicos e Evangélicas com Lula”, organizado pelo PT, Janja procurou construir uma ponte entre o discurso político do presidente e valores associados à fé cristã.
A movimentação ocorre em um dos segmentos mais desafiadores para a campanha petista. Pesquisa Datafolha realizada nos dias 18 e 19 de agosto mostra Flávio Bolsonaro com 62% das intenções de voto entre os evangélicos, contra 29% de Lula. No levantamento anterior, Flávio tinha 60% e Lula, 31%.
Janja destaca solidariedade e igualdade
Na mensagem exibida durante o lançamento do comitê, Janja afirmou que passou os últimos anos viajando pelo país e mantendo contato com mulheres evangélicas. Segundo ela, foi recebida de maneira “muito afetuosa” e pôde acompanhar o trabalho desenvolvido por igrejas e comunidades no acolhimento de pessoas e na proteção da cidadania.
“Os valores da solidariedade e da igualdade, que sempre guiaram a vida e os governos do presidente Lula, são importantes norteadores da nossa fé cristã.”
A primeira-dama também procurou ressaltar o respeito de Lula às diferentes manifestações religiosas. Na mensagem, citou iniciativas relacionadas ao segmento evangélico, entre elas o Dia Nacional do Evangélico, a Marcha para Jesus e o Dia Nacional da Música Gospel.
Ao final, Janja classificou o trabalho do comitê como importante para o fortalecimento da democracia e declarou apoio à construção de um país “mais justo, democrático, solidário e fraterno”.
Uma mudança de estratégia em relação a 2022
A participação de Janja representa também uma mudança de postura em comparação com a campanha presidencial de 2022. Naquele ano, segundo relatos publicados pela imprensa, ela teria demonstrado resistência a uma aproximação mais intensa de Lula com setores evangélicos. Agora, a primeira-dama passou a participar ativamente desse movimento eleitoral.
Além do vídeo para o comitê, Janja já apareceu em iniciativas direcionadas ao público religioso. Em um ato político, participou de uma apresentação ao lado do cantor gospel Kleber Lucas, em uma tentativa de aproximar a campanha de Lula desse universo cultural e religioso.
A mudança ocorre em um cenário no qual o PT tenta estruturar uma presença mais organizada entre pastores, lideranças e eleitores evangélicos. O comitê lançado pela legenda pretende reunir representantes religiosos de diferentes regiões do país em defesa da candidatura de Lula.
A disputa pelo voto evangélico
O movimento não acontece por acaso. Os números das pesquisas transformaram o eleitorado evangélico em uma das principais frentes de disputa da eleição de 2026. Flávio Bolsonaro apresenta vantagem expressiva nesse grupo, enquanto Lula mantém desempenho melhor entre católicos, mulheres, eleitores de menor renda e no Nordeste.
A estratégia petista, portanto, busca reduzir uma distância eleitoral que pode ser decisiva em uma disputa presidencial apertada. A campanha tenta apresentar Lula não apenas como candidato de um campo político, mas como alguém capaz de dialogar com diferentes tradições religiosas e sociais.
O desafio, porém, é complexo. A aproximação da esquerda com o eleitorado evangélico vem sendo criticada por lideranças conservadoras, que questionam a autenticidade desse movimento. O pastor Silas Malafaia, por exemplo, criticou a tentativa de Janja de estabelecer essa conexão e afirmou que a aproximação não seria suficiente para conquistar o segmento.
Ao mesmo tempo, há setores evangélicos que defendem maior pluralidade política dentro das igrejas e rejeitam a ideia de que o voto religioso pertença exclusivamente a um campo ideológico. A disputa, assim, ultrapassa a simples propaganda eleitoral e envolve a própria representação política da comunidade evangélica.
O cálculo político de Lula
Para Lula, o movimento representa uma tentativa de recuperar espaço em um eleitorado no qual adversários conservadores construíram forte identificação política ao longo dos últimos anos. A campanha pretende explorar temas sociais, familiares e econômicos e, simultaneamente, combater informações falsas e a percepção de que o PT seria distante dos valores religiosos.
A participação de Janja dá à estratégia um componente simbólico adicional. Ao falar diretamente com mulheres evangélicas e apresentar a aproximação como uma experiência construída ao longo de viagens pelo país, a primeira-dama procura se colocar como uma interlocutora entre o universo político de Lula e comunidades religiosas.
O resultado dessa estratégia, entretanto, dependerá de mais do que vídeos, jingles ou aparições ao lado de artistas gospel. O eleitorado evangélico é amplo e heterogêneo, e a tentativa de aproximação deverá enfrentar tanto a forte vantagem de Flávio Bolsonaro nas pesquisas quanto a resistência de setores que veem a movimentação petista como uma estratégia exclusivamente eleitoral.
Crédito: informações baseadas no Diário do Centro do Mundo, com complementação de dados e contexto publicados por Datafolha, SBT News, Folha de S.Paulo e outros veículos citados.