
Jaques Wagner critica operação da PF no caso Banco Master e diz a Lula que houve “espetacularização” da investigação
Senador afirma que imagens divulgadas durante busca e apreensão transformaram a operação em espetáculo, nega favorecimento ao Banco Master e diz confiar que as investigações comprovarão sua inocência
A saída do senador Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado foi acompanhada por duras críticas à forma como a Polícia Federal conduziu a Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema envolvendo o Banco Master. Em entrevista concedida após deixar o cargo, o parlamentar afirmou que a operação extrapolou os limites da investigação ao permitir a divulgação de imagens da busca realizada em seu apartamento funcional, em Brasília.
Segundo Wagner, fotografias mostrando dinheiro em espécie sobre uma cama, ao lado do brasão da Polícia Federal, acabaram criando um cenário de forte repercussão pública antes mesmo da conclusão das investigações. Para o senador, esse tipo de exposição remete a práticas de operações do passado que transformavam diligências policiais em grandes eventos midiáticos.
De acordo com o parlamentar, a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, previa que o cumprimento dos mandados ocorresse de forma discreta, justamente em razão do sigilo do processo. Ainda assim, imagens da operação foram divulgadas, fato que levou Wagner a questionar a condução da investigação.
Reclamação foi levada diretamente ao presidente Lula
O senador revelou que conversou pessoalmente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para demonstrar sua insatisfação. Segundo ele, o objetivo da conversa não foi solicitar qualquer tipo de proteção política, mas manifestar preocupação com o que considera um procedimento inadequado durante a operação.
Na avaliação de Wagner, a divulgação das fotografias acabou fortalecendo uma narrativa pública que associa seu nome ao escândalo envolvendo o Banco Master antes mesmo da apresentação de qualquer conclusão definitiva por parte das autoridades responsáveis.
Saída da liderança do governo
Jaques Wagner também explicou os motivos que o levaram a deixar a liderança do governo no Senado. Inicialmente, afirmou que resistia à possibilidade de abandonar a função por acreditar que isso poderia ser interpretado como uma admissão de culpa.
Segundo o senador, a decisão só foi tomada após uma conversa com Lula. O presidente teria argumentado que seria mais adequado concentrar seus esforços na própria defesa enquanto as investigações seguem em andamento, evitando que o trabalho de articulação política fosse prejudicado.
Após refletir sobre a sugestão, Wagner decidiu deixar o cargo.
Senador nega qualquer favorecimento ao Banco Master
Durante a entrevista, o parlamentar voltou a negar qualquer participação em irregularidades relacionadas ao Banco Master. Ele afirmou que conhece o empresário Augusto Lima desde processos de privatização ocorridos na Bahia e classificou como natural o relacionamento institucional entre agentes públicos e empresários.
Wagner também rebateu suspeitas envolvendo viagens em aeronaves particulares e participação em eventos privados. Segundo ele, aceitar caronas de empresários não configura favorecimento nem representa qualquer benefício ilegal.
Contrato da empresa da nora também é alvo de questionamentos
Outro ponto citado na investigação envolve um contrato firmado entre o Banco Master e uma empresa da qual a nora do senador é sócia. A Polícia Federal aponta pagamentos de aproximadamente R$ 3,5 milhões como um dos elementos analisados no inquérito.
O senador, no entanto, afirma que esse valor corresponde apenas à rescisão contratual e não representa o total recebido pela empresa ao longo da prestação de serviços. Segundo Wagner, todos os pagamentos foram formalizados, registrados e realizados dentro da legalidade.
Ele também rejeitou a interpretação de que os recursos teriam sido destinados de forma indireta a ele.
“Não caiu um centavo para mim”, declarou.
Apartamento também entrou na investigação
As investigações ainda analisam uma negociação envolvendo um apartamento que teria sido adquirido junto ao empresário investigado. Wagner afirmou que pretendia comprar o imóvel para presentear uma de suas filhas, mas garantiu que a negociação nunca foi concluída.
Segundo ele, não houve transferência da propriedade nem qualquer benefício patrimonial decorrente da tratativa.
Investigação continua
Ao encerrar a entrevista, Jaques Wagner afirmou estar tranquilo quanto ao andamento da Operação Compliance Zero. O senador disse acreditar que a Polícia Federal não conseguirá comprovar qualquer troca de favores ou vantagem indevida envolvendo sua atuação política.
Enquanto as investigações prosseguem, o caso continua sendo acompanhado por autoridades do Supremo Tribunal Federal, da Polícia Federal e do Ministério Público, podendo trazer novos desdobramentos nas próximas semanas.