
Governo Lula empenha R$ 65,2 milhões em emendas de Soraya Thronicke após denúncia contra vice de Flávio Bolsonaro
Senadora recebeu empenho correspondente a 96,31% do valor previsto para suas emendas em 2026; liberação ocorreu meses depois de Soraya e Lindbergh Farias levarem à PF acusações contra Alfredo Gaspar, que nega as denúncias e afirma ser vítima de uma tentativa de ataque político
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) empenhou cerca de R$ 65,2 milhões em emendas parlamentares destinadas à senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) em 2026. O valor corresponde a aproximadamente 96,31% dos R$ 74 milhões previstos no Orçamento para as emendas da parlamentar neste ano. Cerca de R$ 52 milhões, segundo os dados citados na reportagem, já haviam sido pagos.
A movimentação ganhou repercussão política porque ocorreu no mesmo ano em que Soraya e o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentaram à Polícia Federal uma notícia de fato contra o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), então relator da CPMI do INSS, com acusações de estupro de vulnerável e tentativa de ocultação dos fatos.
A relação entre os dois acontecimentos, porém, não está comprovada. O empenho de emendas é um ato orçamentário que reserva recursos para determinada despesa e não constitui, por si só, evidência de que o governo tenha destinado o dinheiro à senadora como contrapartida pela denúncia. A proximidade temporal é o elemento que provocou o questionamento político.
Denúncia contra Alfredo Gaspar
A denúncia apresentada por Soraya e Lindbergh ocorreu em 27 de março de 2026, enquanto a CPMI do INSS discutia o relatório final apresentado por Alfredo Gaspar.
Segundo a representação levada à PF, havia suspeitas envolvendo um episódio ocorrido em Alagoas e uma adolescente que teria 13 anos à época. Os parlamentares também levantaram a hipótese de tentativa de pagamento para impedir que o caso viesse a público.
A notícia de fato apresentada à Polícia Federal, entretanto, não apresentava provas conclusivas, segundo reportagem do Poder360.
Gaspar rejeitou integralmente as acusações. O deputado afirmou que o episódio mencionado pelos parlamentares dizia respeito a um primo, e não a ele, e classificou as acusações como falsas e irresponsáveis.
O parlamentar também reagiu judicialmente. Gaspar apresentou medidas contra Lindbergh e Soraya, incluindo queixa-crime, alegando que havia sido alvo de acusações sem fundamento.
O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, onde Soraya e Lindbergh foram chamados a se manifestar sobre a queixa apresentada pelo deputado.
O embate dentro da CPMI
A denúncia surgiu em um momento de forte tensão política dentro da CPMI do INSS. Alfredo Gaspar era o relator da comissão e havia apresentado um relatório com pedidos de indiciamento de centenas de pessoas.
Entre os nomes mencionados estava Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula. A acusação contra Gaspar foi apresentada justamente durante a fase final dos trabalhos da comissão, aumentando a temperatura política entre oposição e governo.
No dia seguinte, parlamentares aliados ao Palácio do Planalto conseguiram maioria para rejeitar o relatório apresentado pelo relator, segundo a narrativa publicada pela reportagem que motivou a repercussão.
Soraya e a mudança de posição política
A trajetória política de Soraya Thronicke também ajuda a explicar o peso da senadora no atual cenário eleitoral.
Ela foi eleita para o Senado em 2018 com apoio do então presidente Jair Bolsonaro, mas rompeu politicamente com o ex-presidente em 2020. Em 2022, lançou-se candidata à Presidência da República.
A partir de 2023, passou a integrar a base de apoio do governo Lula em diferentes votações e pautas no Congresso.
Em 2026, Soraya trabalha para permanecer no Senado. A parlamentar chegou a receber um convite do PT para ocupar a primeira suplência na chapa de Vander Loubet ao Senado, mas recusou a proposta. A direção do PSB também se posicionou contra a composição.
A senadora reafirmou publicamente que continua sendo pré-candidata à reeleição.
Os R$ 65,2 milhões
Os dados citados na reportagem têm como origem o Siga Brasil, sistema de acompanhamento do orçamento público do Senado.
O montante empenhado pelo governo para as emendas de Soraya chega a aproximadamente R$ 65,2 milhões, o equivalente a 96,31% do total de R$ 74 milhões previsto para a parlamentar em 2026.
É importante diferenciar três etapas da execução orçamentária: o empenho, quando o governo reserva o recurso para determinada despesa; a liquidação, quando é reconhecido que o serviço ou bem foi efetivamente entregue; e o pagamento, quando o dinheiro é efetivamente desembolsado.
Por isso, dizer que o governo “liberou R$ 65 milhões” pode gerar uma interpretação imprecisa. O dado principal divulgado é de empenho de recursos, e não necessariamente de pagamento integral.
Suspeita de armação também entrou no caso
O episódio envolvendo Alfredo Gaspar ganhou ainda outro capítulo.
Um boletim de ocorrência da Polícia Legislativa da Câmara mencionado na reportagem relata uma suspeita de que a acusação contra o deputado pudesse fazer parte de uma tentativa de construção de uma denúncia falsa.
Segundo esse relato, uma assessora de Gaspar, identificada como Marise Pena, teria recebido uma ligação de um homem chamado Luiz Antonio Lopes. Ele teria relatado a existência de um plano envolvendo uma jovem que utilizaria uma identidade falsa e receberia dinheiro para sustentar uma história de abuso sexual.
Essas informações, contudo, fazem parte de alegações registradas em boletim e não equivalem a uma conclusão judicial sobre a existência de uma conspiração.
A própria controvérsia permanece marcada por versões conflitantes. Soraya sustentou que existiam elementos suficientes para justificar a investigação e chegou a afirmar que pediria desculpas caso a acusação não fosse confirmada.
Gaspar, por outro lado, afirma que foi alvo de uma acusação falsa e tomou medidas para responsabilizar os parlamentares que o acusaram.
O que está comprovado — e o que permanece sob questionamento
O dado objetivo é que R$ 65,2 milhões foram empenhados para emendas vinculadas à senadora Soraya Thronicke, segundo os números citados na reportagem.
Também está documentado que Soraya e Lindbergh apresentaram uma notícia de fato contra Alfredo Gaspar à Polícia Federal em março e que Gaspar negou as acusações e reagiu judicialmente.
O que não está demonstrado é que o empenho das emendas tenha sido uma recompensa do governo Lula pela atuação de Soraya contra Gaspar.
A coincidência temporal pode alimentar questionamentos políticos, sobretudo em um ano eleitoral, mas estabelecer uma relação de causa e efeito exigiria provas adicionais — como documentos, mensagens, ordens administrativas ou outros elementos que demonstrassem eventual negociação entre a liberação das emendas e a atuação da senadora.
O episódio, portanto, coloca em lados diferentes três personagens centrais da política nacional: Lula, responsável pelo governo federal que executa o Orçamento; Soraya Thronicke, senadora que passou de uma posição próxima ao bolsonarismo para a base governista e recebeu elevado volume de empenhos em emendas; e Alfredo Gaspar, deputado do PL que deixou a relatoria da CPMI do INSS em meio à disputa política e às acusações apresentadas por Soraya e Lindbergh.
Em um cenário de disputa presidencial e de eleições para o Congresso, a execução das emendas parlamentares volta a ocupar o centro do debate sobre a relação entre Executivo e Legislativo. O caso de Soraya, porém, exige que cronologia e suspeita política não sejam apresentadas como prova de troca de favores sem evidências que sustentem essa conclusão.