Ex-assessor do PSOL acusa Erika Hilton de negligenciar atuação parlamentar e a chama de “diva pop”

Ex-assessor do PSOL acusa Erika Hilton de negligenciar atuação parlamentar e a chama de “diva pop”

Economista que assessorou a bancada do partido por oito anos afirma que deputada demonstrava pouco interesse por pautas econômicas e que outros parlamentares assumiam tarefas que caberiam à liderança

A atuação da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) voltou ao centro de uma controvérsia dentro do campo progressista após críticas públicas feitas por David Deccache, economista e ex-assessor da bancada do PSOL na Câmara dos Deputados. Com experiência de oito anos na assessoria parlamentar da legenda, entre 2017 e 2025, Deccache afirmou que a deputada teria demonstrado pouco envolvimento com discussões técnicas durante o período em que ocupou a liderança da bancada, em 2024.

As declarações foram publicadas por Deccache em sua conta no X e ganharam repercussão após ele classificar Hilton como uma “diva pop” no ambiente parlamentar. Segundo o economista, a crítica não estaria relacionada à capacidade da deputada de comunicação pública ou mobilização nas redes sociais, mas ao que ele considera uma deficiência na participação direta em determinados processos legislativos.

Deccache afirmou que, enquanto assessor econômico da liderança do PSOL, sua função era preparar os deputados para a discussão técnica de projetos relacionados à economia. Na avaliação dele, entretanto, Erika Hilton não teria demonstrado interesse em acompanhar alguns dos principais debates econômicos em andamento no Congresso.

Entre os exemplos citados está a Reforma Tributária, uma das principais mudanças legislativas discutidas pelo Congresso Nacional. Deccache afirmou que, durante a tramitação da proposta, não chegou a conversar com Hilton sobre o tema, apesar de ser responsável pela pauta econômica dentro da estrutura de assessoria da bancada.

“Durante toda a Reforma Tributária, por exemplo, nunca troquei uma palavra com a LÍDER da bancada sobre esses temas. Eu era o responsável pela pauta”, escreveu o economista.

A crítica também alcançou outros assuntos de interesse econômico e trabalhista. Deccache mencionou o debate sobre o abono salarial e afirmou que Hilton não teria acompanhado tecnicamente temas que, segundo ele, eram relevantes para a classe trabalhadora.

Outros parlamentares teriam assumido funções

A principal acusação feita pelo ex-assessor, porém, diz respeito à divisão interna de responsabilidades dentro da bancada do PSOL.

Segundo Deccache, outros parlamentares teriam assumido tarefas que, na avaliação dele, deveriam estar sob responsabilidade da liderança. Entre essas atividades, citou a elaboração de emendas e destaques, participação em reuniões e articulações políticas relacionadas às votações.

Para o economista, a ausência de participação de Hilton teria provocado uma espécie de transferência informal dessas responsabilidades para outros integrantes da bancada.

“Eram outros parlamentares da bancada que assumiam responsabilidades que deveriam ser da líder”, afirmou.

Deccache também declarou que chegou a desistir de tentar estabelecer contato com a deputada sobre determinadas pautas, classificando-a como “inacessível”.

A expressão “diva pop” foi utilizada justamente nesse contexto. O economista argumenta que Hilton teria construído uma presença pública muito forte, especialmente nas redes sociais, mas que essa visibilidade não seria acompanhada, segundo ele, pelo mesmo nível de dedicação às atividades técnicas do Parlamento.

Crítica à atuação parlamentar, mas elogio à comunicação

Apesar das críticas, Deccache fez uma distinção entre a atuação parlamentar que considera insuficiente e a capacidade de comunicação política da deputada.

Ele reconheceu que Erika Hilton possui forte presença nas redes sociais e afirmou que ela seria uma “influencer” de grande relevância política. Também destacou positivamente sua atuação na luta contra a escala de trabalho 6×1, pauta que ganhou grande repercussão pública e mobilizou setores de trabalhadores e movimentos sociais.

A avaliação de Deccache, portanto, não é de que Hilton não tenha influência política. O argumento apresentado pelo ex-assessor é outro: a deputada teria maior desempenho na comunicação e mobilização pública do que na participação técnica e cotidiana de determinadas atividades legislativas.

“Ela é uma influencer de redes sociais brilhante e da mais alta importância, fundamental na luta contra a escala 6×1, mas é péssima como parlamentar”, escreveu.

A afirmação é uma avaliação pessoal do ex-assessor e não constitui, por si só, uma comprovação independente sobre o desempenho legislativo da deputada.

Deccache desafia críticas e cita registros do Congresso

Diante da possibilidade de suas declarações serem contestadas, o economista afirmou que sua avaliação poderia ser confrontada com documentos públicos da própria Câmara.

Deccache mencionou as notas taquigráficas e os registros em vídeo das sessões e votações que considerou relevantes. Segundo ele, esses materiais permitiriam verificar objetivamente a participação de Hilton nos debates.

“Peguem, então, a participação dela nas notas taquigráficas e nos vídeos dessas votações históricas e importantes. Está lá. É factual. Tudo registrado”, escreveu.

A referência aos registros oficiais é importante porque transforma a discussão, ao menos em parte, em uma questão verificável: a participação de um parlamentar em sessões, debates, reuniões e votações pode ser confrontada com documentos e registros públicos do Legislativo.

Ainda assim, a existência ou ausência de manifestações em plenário não é, isoladamente, suficiente para medir toda a atividade parlamentar de um deputado. Parte significativa do trabalho legislativo ocorre em reuniões, articulações partidárias, negociações, elaboração de emendas, atividades de comissão e outras tarefas que nem sempre aparecem da mesma maneira nas notas taquigráficas.

A declaração de bens entrou na controvérsia

As novas críticas também ocorreram poucos dias depois de Deccache comentar outra declaração pública envolvendo Erika Hilton.

O economista havia questionado anteriormente a declaração de bens apresentada pela deputada à Justiça Eleitoral. Segundo as informações reproduzidas pelo Metrópoles, Hilton declarou ao Tribunal Superior Eleitoral patrimônio de R$ 15 mil.

O tema provocou nova manifestação de Deccache nas redes sociais e passou a integrar o conjunto de críticas que ele vem fazendo à parlamentar.

A declaração patrimonial, entretanto, não deve ser confundida com qualquer acusação de irregularidade. Declarar determinado patrimônio à Justiça Eleitoral é uma obrigação legal, e o valor informado, isoladamente, não comprova enriquecimento ilícito ou qualquer outra irregularidade.

Quem é David Deccache

David Deccache é economista, doutor em Economia pela Universidade de Brasília (UnB) e atuou durante oito anos como assessor da bancada do PSOL na Câmara, de 2017 a 2025.

Sua experiência dentro da estrutura parlamentar do partido é utilizada por ele como fundamento para as críticas feitas a Erika Hilton. Por ter trabalhado diretamente com a bancada, Deccache afirma possuir conhecimento sobre a rotina interna e sobre a preparação técnica dos parlamentares para os debates econômicos.

Ao mesmo tempo, sua condição de ex-assessor e suas divergências públicas com a deputada são elementos que precisam ser considerados na leitura das declarações. As acusações apresentadas por ele são de sua responsabilidade e devem ser diferenciadas de fatos comprovados por documentos oficiais.

Erika Hilton ainda não havia respondido

Procurada pela reportagem do Metrópoles na noite de 9 de agosto, pouco depois da publicação das declarações de Deccache, a assessoria de Erika Hilton não havia apresentado resposta até o momento da publicação.

O espaço, segundo o veículo, permanecia aberto para manifestação da deputada.

Essa ausência de resposta é relevante para a compreensão do episódio. Até aquele momento, a versão apresentada publicamente era essencialmente a de um ex-integrante da estrutura do PSOL que passou a questionar o desempenho de uma parlamentar com quem trabalhou durante sua passagem pela bancada.

Uma disputa que ultrapassa a figura de Erika Hilton

O episódio revela uma discussão mais ampla sobre o papel de parlamentares que combinam forte presença digital, capacidade de mobilização social e atuação institucional.

Erika Hilton tornou-se uma das figuras mais conhecidas da esquerda brasileira e consolidou uma imagem pública associada à defesa de pautas sociais, direitos da população LGBTQIA+, combate à discriminação e reivindicações trabalhistas. Sua atuação contra a escala 6×1 é um dos exemplos de temas nos quais conseguiu transformar uma pauta legislativa em uma discussão de grande alcance nas redes sociais.

A crítica de Deccache coloca em questão justamente a relação entre visibilidade política e desempenho parlamentar. Para o economista, a capacidade de comunicação de Hilton não seria suficiente para compensar aquilo que ele considera uma baixa participação em discussões técnicas.

Há, portanto, duas dimensões diferentes em disputa: de um lado, a capacidade de uma parlamentar de mobilizar a opinião pública e dar visibilidade a determinadas pautas; de outro, a cobrança por participação técnica, articulação legislativa e acompanhamento detalhado dos projetos que passam pelo Congresso.

O debate não se encerra nas declarações de um ex-assessor. A avaliação objetiva do desempenho de Erika Hilton exigiria a análise dos registros oficiais de sua atuação em plenário, comissões, votações, proposições, emendas, discursos e demais atividades legislativas.

Enquanto essa análise mais ampla não é realizada, as declarações de David Deccache permanecem como uma crítica pública, contundente e pessoal à atuação da deputada durante o período em que liderou a bancada do PSOL — e também como um retrato de divergências internas sobre o que significa exercer efetivamente a liderança parlamentar de um partido de esquerda no Congresso.

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