
Jerônimo Rodrigues é reeleito na Bahia no 1º turno e derrota ACM Neto
Petista supera ACM Neto novamente e garante mais quatro anos no comando do estado; resultado chama atenção diante dos desafios da Bahia em segurança pública, pobreza e dependência de programas sociais
A Bahia decidiu manter Jerônimo Rodrigues (PT) no comando do estado.
O governador foi reeleito no primeiro turno das eleições de 2026, derrotando novamente ACM Neto (União Brasil), quatro anos depois de os dois protagonizarem a disputa pelo Palácio de Ondina.
Com a apuração concluída, Jerônimo alcançou 4.616.788 votos, correspondentes a 55,77% dos votos válidos, enquanto ACM Neto terminou com 3.621.413 votos, ou 43,75%. Os demais candidatos ficaram muito distantes da disputa: Ronaldo Mansur, do PSOL, teve 0,33%; Aroldo Felix, da UP, 0,06%; Maria Bona, do PCO, 0,05%; e Ariel Capistrano, do DC, 0,03%.
Assim, não haverá segundo turno na Bahia.
Jerônimo venceu novamente ACM Neto — e desta vez nem precisou esperar pela segunda rodada.
Uma revanche decidida no primeiro turno
A eleição de 2026 repetiu uma disputa que já havia marcado a política baiana.
Em 2022, Jerônimo e ACM Neto também se enfrentaram pelo Governo da Bahia. Naquela ocasião, o petista venceu no segundo turno, com 52,54% dos votos válidos, contra 47,46% do adversário.
Quatro anos depois, os dois voltaram a se enfrentar.
A diferença, porém, foi decisiva: Jerônimo ultrapassou a metade dos votos válidos e encerrou a eleição já no primeiro turno.
A política baiana, portanto, produziu uma espécie de repetição com final diferente: os mesmos protagonistas, mas uma vitória mais ampla para o governador que buscava permanecer no cargo.
E aqui aparece a ironia da eleição
É justamente neste ponto que o resultado merece uma análise mais cuidadosa.
A Bahia reelegeu o governador em um momento em que o estado continua enfrentando problemas importantes de segurança pública, pobreza e dependência de programas de transferência de renda.
Segundo dados divulgados em junho de 2026, a Bahia era o estado brasileiro com maior número de famílias atendidas pelo Bolsa Família: cerca de 2,38 milhões de famílias, com R$ 1,58 bilhão em repasses naquele mês.
É um número gigantesco.
E aí surge a pergunta que a própria realidade baiana coloca: como explicar que um estado com tamanha quantidade de famílias dependentes de transferência de renda continue apresentando desafios tão grandes para gerar oportunidades, emprego e autonomia econômica?
O Bolsa Família é uma política federal e atende famílias em situação de vulnerabilidade. Portanto, não é correto atribuir ao governador a responsabilidade direta pelo número de beneficiários. Mas o dado revela o tamanho do desafio social que o próximo governo terá de enfrentar.
A ironia política está justamente aí: a Bahia reelege o governo enquanto continua convivendo com uma realidade social que exige muito mais do que transferência de renda.
Segurança pública continua sendo um dos grandes desafios
Outro tema inevitável é a violência.
Dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública da Bahia registram mortes violentas intencionais no estado e mantêm uma base atualizada mensalmente sobre homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios e outras ocorrências. Os dados mais recentes disponíveis na base oficial abrangem registros até agosto de 2026.
A situação da segurança pública também aparece no debate nacional.
Em setembro, uma reportagem registrou que a Bahia liderava o país em número absoluto de mortes decorrentes de intervenção policial, com 940 casos entre janeiro e agosto de 2026. O número precisa ser entendido no contexto das estatísticas de segurança e não equivale, por si só, ao número total de homicídios no estado.
Esse é um dos grandes desafios que estarão sobre a mesa no novo mandato.
O eleitor reelegeu Jerônimo, mas a realidade não foi reeleita junto com ele: a violência continua existindo, a pobreza continua existindo e os problemas estruturais continuam esperando respostas.
Quem é Jerônimo Rodrigues?
Natural de Aiquara, no interior da Bahia, Jerônimo Rodrigues é engenheiro agrônomo e professor universitário.
Antes de chegar ao cargo de governador, ocupou funções na administração pública federal e estadual. Foi secretário estadual de Desenvolvimento Rural e secretário de Educação da Bahia, além de ter exercido função no governo federal ligada ao desenvolvimento territorial.
Em 2022, disputou pela primeira vez um cargo eletivo e venceu ACM Neto no segundo turno.
Agora, quatro anos depois, conseguiu permanecer no cargo por mais quatro anos.
O resultado também é uma derrota para ACM Neto
Para ACM Neto, o resultado representa mais uma derrota em uma disputa pelo Governo da Bahia.
O ex-prefeito de Salvador voltou a enfrentar Jerônimo quatro anos depois da derrota de 2022 e conseguiu chegar novamente ao segundo turno? Não desta vez.
A diferença foi suficiente para que a eleição terminasse imediatamente.
ACM Neto ficou com 43,75%, enquanto Jerônimo passou dos 55%.
A disputa que prometia ser uma das mais importantes do Nordeste acabou sendo encerrada na primeira rodada.
A Bahia escolheu continuar
O resultado precisa ser respeitado.
Independentemente de preferências políticas, os eleitores baianos foram às urnas e fizeram uma escolha clara: Jerônimo Rodrigues continuará governando a Bahia até 2031.
A votação demonstra que o grupo político liderado pelo PT mantém força significativa no estado.
E existe ainda um componente nacional.
Depois da vitória, Jerônimo afirmou que pretende trabalhar para ajudar a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da eleição presidencial. Em publicação nas redes sociais, o governador reeleito declarou que a Bahia deveria seguir ao lado do presidente.
Ou seja, a eleição estadual não terminou completamente isolada da disputa nacional.
Agora começa a parte mais difícil
Ganhar uma eleição é uma coisa.
Governar é outra.
Jerônimo recebeu novamente a confiança dos eleitores baianos e terá mais quatro anos para apresentar resultados.
E os desafios são enormes.
Segurança pública, geração de empregos, redução da pobreza, melhoria da educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento econômico estarão entre as principais cobranças da população.
A Bahia não precisa apenas de discursos de vitória.
Precisa de resultados.
O estado tem enorme potencial econômico, turístico, agrícola, industrial e cultural. Tem uma das maiores populações do país e uma localização estratégica.
A pergunta para o novo mandato, portanto, não é mais quem ganhou a eleição.
Isso já está decidido.
A pergunta é: o que Jerônimo fará com os próximos quatro anos?
A ironia que fica depois das urnas
A Bahia reelegeu Jerônimo Rodrigues com mais de 4,6 milhões de votos.
Ao mesmo tempo, continua sendo o estado com o maior número de famílias atendidas pelo Bolsa Família e enfrenta graves desafios relacionados à segurança pública.
Isso não significa que uma coisa seja automaticamente consequência da outra.
Mas significa que existe uma realidade que nenhum discurso eleitoral consegue esconder.
A urna confirmou Jerônimo. Agora a realidade da Bahia será a responsável por cobrar o resultado.
O eleitor deu mais quatro anos.
Agora, cabe ao governador transformar esses quatro anos em melhoria concreta para quem vive no estado — especialmente para quem está nas periferias, no interior, nas regiões mais pobres e nas áreas mais afetadas pela violência.
Porque eleição termina em outubro.
Os problemas, infelizmente, não obedecem ao calendário eleitoral.